Oficina de formação audiovisual capacita adolescentes Kaingang na Terra Indígena Kondá, em Chapecó

Teoria e prática na linguagem do documentário, integraram a atividade ao longo de duas semanas.

Foto: Louis Radavelli

Por Camila Almeida.

Historicamente, o cinema e o registro documental voltados aos povos originários no Brasil foram criados a partir de uma lente externa. Durante décadas, o indígena figurou como objeto de estudo ou de contemplação, com narrativas mediadas por olhares não indígenas que, embora muitas vezes bem intencionados, perpetuavam a partir de olhares estrangeiros sobre a sua cultura. Na contramão desses registros e em sintonia com o conceito de demarcação, nasce o Projeto “Olhares Indígenas”, uma oficina de cinema documental que, por duas semanas, capacitou adolescentes da Terra Indígena Kondá, em Chapecó, para que possam criar os seus próprios filmes.

Viabilizada pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura (Edital Nº 107/2025), através da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), e proposta pela produtora Margot Filmes, a ação ofereceu 40 horas de imersão teórica e prática para adolescentes a partir dos 12 anos, estudantes da Escola Sape Ty Kó. As ações foram voltadas a um movimento de apropriação da linguagem e de transferência de saberes, para que os adolescentes indígenas se apropriem de suas narrativas e contem as suas histórias.

Para a cineasta indígena Vanessa Fé Há, uma das ministrantes da primeira semana de formação, a atividade é um momento muito importante de reafirmação. “A oficina colabora para que os estudantes indígenas se entendam, se reconheçam e se afirmem indígenas. Estar em em território indígena para falar sobre cinema indígena, para ensinar documentário através de um olhar indígena é muito satisfatório, é como se a gente lançasse a semente para que daqui algum tempo a gente pudesse colher. Eu tenho uma esperança enorme, que a gente possa colher um fruto muito lindo a partir dessas atividades. Pra mim, trazer essa oficina para os jovens é somar voz com os territórios indígenas, com os anciões indígenas, e abrir para que o mundo nunca se esqueça”.

Da mediação à autoria

Durante a formação os estudantes participaram de atividades como mostra de cinema indígena – conhecendo o trabalho de cineastas do País, foram apresentados as etapas de desenvolvimento de um documentário, criaram vídeos do minuto, experienciaram as inúmeras funções dentro do setor audiovisual, se apropriaram do entendimento de equipamentos e desenvolveram seu próprio documentário, de maneira coletiva.

O objetivo foi trazer autonomia técnica, canalizar o uso cotidiano de tecnologias acessíveis, como os smartphones, por exemplo, para a linguagem cinematográfica. A iniciativa insere-se num contexto de fortalecimento das políticas públicas para o setor cultural, permitindo que membros de comunidades originárias desenvolvam conhecimento técnico para produzir os seus próprios registos audiovisuais.

“É muito importante, e acredito que esse seja um dos pontos altos deste projeto, frisar que o processo pedagógico foi pensado, planejado, alinhado à cultura indígena, a partir de uma equipe majoritariamente indígena. A formação foi ministrada pelos cineastas Vanessa Fe Há (da etnia Kaingang) e Jucelino Senei Filho (da etnia Laklãnõ-Xokleng) — diretores e roteiristas com trajetória consolidada no cenário audiovisual brasileiro — além de contar com o acompanhamento do psicólogo indígena Tschucambang Ndili. Isso engrandece muito o nosso encontro, pois trazemos referências profissionais para esses estudantes, o que eu acredito que esse seja um divisor de águas para essa proposta”, pontua uma das idealizadoras do Projeto, Ilka Goldschmidt.

A realização do projeto ocorre em um momento singular para a política cultural brasileira. Embora iniciativas pioneiras de cinema indígena existam há décadas no país, foi com o recente aprimoramento de políticas públicas, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, por exemplo, que o acesso dos povos originários aos recursos de fomento cultural descentralizado se consolidou.

“Acho que essa formação responde diretamente a esse contexto. Não basta garantir editais com cotas se o conhecimento burocrático, a formatação de projetos e o domínio do sistema audiovisual não forem democratizados. O projeto capacita os jovens e também os seus professores a estarem ativos no campo audiovisual não apenas como executores da ideia, mas como agentes culturais, capazes de disputar verbas, formatar propostas e ocupar as telas de cinema, festivais e plataformas de streaming e que possam também realizar isso sem intermediários”, enfatiza o documentarista Cassemiro Vitorino, que integra a equipe da proponente Margot Filmes.

Para o cineasta e jornalista indígena Jucelino Senei Filho, que ministrou as ações práticas de desenvolvimento documental ao longo dessa semana, trabalhar esta ação é uma maneira de olhar para o futuro. “Eu fui um estudante indígena que foi pra universidade, e que saiu de uma dessas oficinas. Assim como eu estou tendo a oportunidade de ministrar hoje essa oficina, eu fui uma dessas pessoas que lá em 2014 recebeu uma oficina na Terra Indígena, que despertou muita curiosidade, tanto que entrei para o curso de jornalismo da Ufsc e me formei lá em jornalismo, muito por conta dessa sementinha que a própria oficina plantou dentro de mim. Então acho muito importante mesmo para que essas crianças saibam que se elas quiserem elas podem conseguir. E fazer um filme já vai mostrar pra elas a capacidade que elas têm de fazerem as coisas, mostrar pra eles que todo sonho é válido, e fazer um filme já é o começo”, pontua.

Todas as atividades do Projeto “Olhares Indígenas” podem ser acompanhadas pelas redes sociais através do perfil @oficinadoc.olhares.


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