Por Pablo Moscatelli.
O 11 de setembro de 1973, dia em que o golpe militar apoiado pelos Estados Unidos rompeu como um sonho e condenou o futuro ao terror, não é apenas um marco chileno. É uma ferida continental. O bombardeio à Casa De La Moneda, a resistência até o fim e a morte de Allende transformaram-se em símbolo da luta pela soberania e pela dignidade dos povos. Mas no Brasil, essa data permanece no limbo do esquecimento. Quando se fala em “11 de setembro”, quase sempre é o de 2001, em Nova York, que se impõe na memória pública, como se latino-americana não tivesse importância.
Esse apagamento não é casual. O Brasil é campeão olímpico em esquecer ou melhor, em ser forçado a esquecer. Esquece-se o 12 de outubro, que deveria ser lembrado como o início da invasão colonial, do genocídio indígena, da escravização e da espoliação das Américas, e não como um dia de festa inocente. Esquece-se a Revolução Haitiana, primeiro levante vitorioso de escravizados da história moderna, referência fundamental para toda a diáspora afrodescendente, mas invisibilizada pelo racismo estrutural. Esquece-se Frantz Fanon, que mostrou como a colonialidade não é apenas um passado, mas uma ferida que se reproduz no presente, corroendo corpos, mentes e sociedades.
Esses esquecimentos são políticos. Eles formam uma pedagogia da amnésia, que retira do povo as referências de luta, de resistência e de emancipação. Como disse Eduardo Galeano, “a memória do povo latino-americano é sequestrada todos os dias”. E nesse sequestro, perdemos não apenas o passado, mas também a possibilidade de imaginar futuros diferentes.
Recordar Salvador Allende é romper esse pacto de esquecimento. Seus óculos, resgatados dos escombros da Casa De La Moneda, tornaram-se símbolo dessa memória que insiste em sobreviver. Eles não olham apenas para trás: ainda hoje nos pedem revolução, justiça e respeito por seu valor. São um chamado para que o povo latino-americano não se conforme com a amnésia imposta, mas recupere suas datas, suas lutas e seus mártires.
O esquecimento é uma arma do poder. A memória, ao contrário, é trincheira de resistência. Enquanto não lembrarmos de Allende, do 11 de setembro de 1973, e de tantas outras lutas, estaremos sempre condenados a repetir as mesmas violências. Lembrar é resistir. Lembrar é revolucionar.
Pablo Moscatelli é professor.
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