Por Francisco Fernandes Ladeira.
No último domingo (25/01), participei de uma entrevista no canal Cinegnose 360, do professor e jornalista Wilson Ferreira. Na ocasião, pude apresentar os detalhes de minha pesquisa de pós-doutorado, realizada no IFMG – campus Ouro Preto, que investiga como estudantes do ensino médio constroem seus imaginários sobre a geopolítica mundial a partir do consumo de notícias. O diálogo girou em torno da complexa relação entre geografia, educação e os meios de comunicação de massa.
Geografia e mídia compartilham uma função semelhante: ambas apresentam o mundo às pessoas. No entanto, há uma falha na formação de docentes: muitos professores de geografia ainda adotam uma visão maniqueísta da mídia. Ou acreditam que a audiência é passivamente manipulada, ou utilizam materiais da grande mídia em sala de aula como “verdades absolutas”, sem a devida desconstrução crítica. Diante dessa realidade, a “alfabetização midiática” deveria ser obrigatória nos cursos de geografia, dado que o discurso geográfico escolar muitas vezes acaba apenas reforçando a narrativa dos grandes veículos.
Um dos pontos centrais de minha participação foi a distinção conceitual entre o “acontecimento geopolítico” e o “evento midiático”. O acontecimento geopolítico é o fato em sua totalidade, com raízes históricas, condicionantes geográficos e múltiplas interpretações. Já o evento midiático é o recorte simplificado feito pela mídia, que retira a historicidade do fato para transformá-lo em uma narrativa linear, quase como uma telenovela.
Como exemplos dessa lógica temos o “conflito” entre Israel e Hamas, ou a guerra na Ucrânia, apresentados como se tivessem surgido “do nada”, omitindo processos como a revolução colorida ucraniana, a expansão da OTAN e as oito décadas de genocídio do povo palestino. Essa descontextualização cria personagens arquetípicos – como Putin ou Zelensky – que facilitam o consumo da notícia, mas impedem a compreensão real dos fenômenos geopolíticos.
Ao discutir como as mensagens impactam os jovens, busquei refutar a premissa de uma influência imediata e mecânica da mídia. A partir de autores como Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, argumentei que o efeito social da mídia ocorre pela acumulação de informações ao longo do tempo. Não é apenas o que se vê na TV; o que importa é como esse conteúdo é validado nas conversas pessoais e no cotidiano. Mencionei que, mesmo estudantes que afirmam não se interessar por política, acabam reproduzindo “atalhos cognitivos” e jargões midiáticos (como os termos “ditadura” ou “regime”) ao discutirem temas como a situação na Venezuela ou no Irã.
Minha pesquisa de pós-doutorado, que teve início com alunos do próprio IFMG em Ouro Preto, tem revelado que muitos estudantes, ao serem questionados sobre temáticas geopolíticas, se limitam a descrever manchetes ou admitem o desconhecimento total quando as notícias saem do radar imediato da mídia.
Conclui ressaltando que o objetivo final de meu estudo é oferecer subsídios para que professores possam combater o “analfabetismo midiático” e incentivar os alunos a diferenciar a propaganda dos grandes grupos de comunicação da realidade geopolítica complexa.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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