
Redação com a colaboração de Deyda Servegnini e Heber Bismar.
A empresa Yazaki Automotive Products do Brasil, com sede no Paraná e escritório em Florianópolis, deixou mais de mil trabalhadores e trabalhadoras sem emprego, de forma súbita, na suas plantas do Uruguai, nas cidades de Las Piedras, vizinha da capital, Montevidéu, e Colonia del Sacramento, capital do departamento (estado) de Colonia.
Ao parecer, a produção seria transferia para a Argentina e para o Paraguai, para obter melhores benefícios fiscais. Yazaki trabalhava de forma normal, com muito bom nível de produção e, de forma inesperada, anunciou aos seus trabalhadores, via whatsapp, que suspenderia as atividades. A maioria das pessoas demitidas são mães de família.
O Portal Desacato, por intermédio do jornalista e apresentador, Raul Fitipaldi, conversou com um dos representantesc dos e das trabalhadoras, Carlos Martínez, membro da UMRA – afiliada ao PIT/CNT.
A seguir o diálogo com Carlos Martínez:
A Yazaki demitiu mais de 1.200 pessoas por whatsapp na madrugada
R.F.Houve alguma atitude em defesa dos trabalhadores por parte do governo Lacalle Pou?
C.M. O governo ficou tão surpreso como nós. Eu, além de ser dirigente da UMRA (Unión Nacional de Trabajadores del Metal y Ramas Afines), tenho mais de 17 anos de realação laboral com esta empresa (Yazaki), e também me pegou por surpresa essa decisão súbita da empresa de demitir os trabalhadores. Surprendeu até o Poder Executivo Nacional.
Quero lembrar que esta empresa, cujo gerente geral é o Marcelo Gibim, no Brasil, é uma multinacional que fabrica chicotes automotivos e tem muitas plantas no Brasil e em outros lugares. Em novembro de 2024, a empresa tinha parabenizado os trabalhadores e as trabalhadoras pelo excelente rendimento. Esse rendimento lhes permitiu renovar o contrato com a Toyota para fabricar essas autopeças (chicotes) para a planta na Argentina. Também falaram que, como se tinha muita produção, haveria que rever o período das férias, porque tínhamos que abastecer um cliente que lhe originava uma demanda muito grande à Yazaki.
Foi aí que, numa terça-feira, convocaram-nos ao Ministério do Trabalho e Seguridade Social, para resolver como seriam as férias que eles queriam antecipar para que trabalhássemos direto em 2025. Então, o escritório de advogados da empresa pediu para que a reunião fosse na quinta-feira imediata. A reunião era pela manhã, 8:30, só que, antes, durante a madrugada, 1:57, a empresa manda aos trabalhadores uma mensagem de whatsapp para que não fôssemos a trabalhar, mas que tínhamos o dia pago.
Nesse dia, às 10:30 enviaram uns representantes, dois senhores e uma senhora, que vieram do Brasil e ninguém conhecia. Nos meus quase 18 anos de negociações coletivas no Ministério de Trabalho nunca tinha visto algo assim. Junto com eles vieram dois advogados e aí disseram que iam embora do Uruguai.
Avisaram isso às duas fábricas que tem, uma em Las Piedras, com uns 300 trabalhadores/as e outra em Colonia, com mais ou menos mil trabalhadores/as. E também enviaram o anúncio à DINATRA, que é a Direção Nacional do Trabalho.
Deixaram de lado todo protocolo. Normalmente, quando uma empresa deste porte toma uma decisão dessa natureza avisa ao ministro da área, cumpre alguns protocolos básicos. Geralmente, pela característica de uma empresa assim, se entende que avisaria ao Ministro de Trabalho e aos seus pares de Economia e Indústria. Mas não o fizeram. Ao menos para preparar um plano de contigência e permitir às pessoas organizarem sua vida. A gente sabe que no mundo do capital funciona assim, as empresas vão de um lugar para outro. Mas há uns protocolos mínimos, aqui não foi dessa maneira.
O presidente do sindicato dos metalúrgicos Danilo Dárdano questionou a empresa Yazaki pelo fechamento “de um dia para o outro”. Assista:
https://x.com/Subrayado/status/1885000405056176438?t=PpSxM1GtRCe3sCUEt6YJCw&s=08
Os dois prefeitos dos departamentos (governadores de estado se fosse no Brasil – N.T.) nos receberam muito bem e também estavam surpresos. São cidades pequenas e a quantidade de demitidos é um prejuízo enorme. As municipalidades e as câmaras de vereadores (ediles no Uruguai) e das forças políticas que tem representação em cada cidade também nos apoiam. Inclusive fizeram uma declaração unificada dada a gravidade dos fatos e condenando a atitude da empresa. Deputados, tanto do Partido Nacional no governo, quanto da Frente Ampla, que exercerá o próximo governo nacional, qualificaram de covarde a ação da Yazaki.
O Mercosul é apenas um corredor de livre trânsito para mercadorias e empresas
R.F. Como incide este fato nas relações no Mercosul?
Este fato demonstra o complexas que são as relações no Mercosul. Porque hoje o Mercosul apenas garante o livre trânsito de mercadorias e empresas. Se não se faz uma reconsideração disso, pelo menos de tipo socioeconômico, essa relação não funciona. Por exemplo, o Paraguai tem o 80% do salário pago conforme os direitos trabalhistas e, o outro 20%, é por fora. Isso é uma aberração no século 21.
E o negócio pactado não foi embora para Ásia, África, não, o negócio continua estando na nossa região. A planta da Toyota fica na Argentina, na cidade de Zárate. As empresas abrem e fecham sem importar-se com as pessoas e já nada pode nos assombrar.
O futuro governo da Frente Ampla já está apoiando os trabalhadores
R.F. O futuro governo da Frente Ampla, liderado por Yamandú Orsi, colocou-se à disposição dos trabalhadores demitidos?
Nós já falamos com Juan Castillo (futuro Ministro de Trabalho) e ele está visitando as plantas e está vendo como vai pegar esta batata quente, mas, demonstrando que não fazer corpo mole com o problema.
As forças sindicais participam da luta dos trabalhadores/as demitidos/as pela Yazaki
Coletiva de imprensa do Presidente do PIT/CNT, Marcelo Abadala, em 31/1/25
R.F.¿A sociedade organizada está apoiando os trabalhadores/as?
C.M. Nós, com a Unión Nacional de Trabajadores del Metal y Ramas Afines, paralisamos o país na semana que passou, apoiados por todos os sindicatos, e fomos ao Ministério de Trabalho. Tivemos a participação do PIT/CNT, apoiando, tantos nas plantas, como nos locais onde se serviu comida para os demitidos. A Igreja e outros setores da sociedade nos visitaram para dar seu apoio e ajuda. Enquanto isso seguimos em luta permanente, com assembleias, mobilizações e reuniões com todas as esferas envolvidas.

Transcrição e imagem de capa: Tali Feld Gleiser
Tradução: Redação