O que poderia explicar que o nome de Jesus esteja sendo usado como bandeira por gente que se enquadra inteiramente no grupo daqueles contra os quais ele lutou o tempo todo? Se, como observamos nos relatos dos Evangelhos, em sua vida, Jesus demonstrou ter sempre total identificação com os anseios e aspirações dos setores mais carentes e explorados da sociedade, por que são justamente os causadores do sofrimento desse povo os que se aproveitam de seu nome?
O certo é que a maioria dos proprietários das igrejas (na verdade, empresas) ditas neopentecostais, colocam as instituições que eles dirigem para promover a avareza típica dos que sempre se locupletaram com a exploração dos mais humildes, justamente aqueles a quem Jesus se dedicou plenamente em seu tempo.
Ainda que nos Evangelhos esteja mais do que evidente que sua prioridade era tomar partido pelos que vivem em condições de carência e necessidade, os empresários exploradores da fé inverteram a lógica do Nazareno e passaram a considerar que a graça do Senhor estaria estampada na opulência e riqueza acumulada por alguém, e não mais por sua dedicação às causas humanitárias por ele propugnadas e praticadas permanentemente. Porém, na pilantresca interpretação desses mercadores da fé, a riqueza e a opulência passaram a servir como provas do recebimento da graça do Senhor.
Para amparar suas artimanhas interpretativas, os empresários da religião abandonaram por inteiro os termos dos Evangelhos onde a vida e o comportamento de Jesus são narrados. Portanto, é como se Jesus nada tivesse acrescentado de novo na maneira de sentir e avaliar o mundo. Todas as retificações feitas por ele sobre os absurdos constantes nos textos do Velho Testamento vêm sendo ignorados, de modo a sempre favorecer aos ricos e poderosos.
Quem não se recorda de que Jesus expulsou do Templo aqueles espertalhões que se aproveitavam da boa fé da comunidade para comercializar produtos e, com isso, aumentar suas fortunas pessoais? Também costuma ser sobejamente esquecida aquela passagem em que ele pede a um rico que pretende acompanhá-lo que venda todos os seus bens e reparta o arrecadado com o povo. Assim como quando ele argumenta que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”.
Sabemos que quase todas essas empresas-igrejas se originaram a partir de iniciativas de imperialistas dos Estados Unidos relacionadas com a Guerra Fria. Sua principal tarefa era atuar no sentido de moldar a consciência dos povos periféricos para a aceitação do domínio estadunidense. Com este propósito, elas foram criadas e disseminadas pelo Brasil e países similares. E, com vista a tornar factível sua atuação, recorreram a duas variantes pseudoteológicas que representam verdadeiros golpes no fígado do Jesus estampado nos Evangelhos: as famigeradas Teologia da Prosperidade e a Teologia do Domínio. Nessas doutrinas, o que se propaga e impulsa é exatamente o oposto de tudo o que se conhece das pregações do próprio Jesus.
Além disso, como prova de sua descarada associação com os projetos do imperialismo estadunidense a nível internacional, essas empresas-igrejas estão entre os principais apoiadores das atividades genocidas que o Estado de Israel está perpetrando contra o humilde povo palestino, em Gaza e também na Cisjordânia. A argumentação falaciosa usada para justificar esse posicionamento claramente indecente é que aquela terra onde o humilde povo palestino vinha vivendo há milênios foi reservada por Deus para os brancos europeus de ascendência judaica, os quais sofriam perseguições e matanças em vários países da Europa, repetindo, da Europa, em massacres praticados por outros europeus, nunca pelos palestinos.
De nada adianta que, nos textos dos Evangelhos, Jesus tinha condenado veementemente a possibilidade de que Deus tivesse um povo escolhido, ao qual seriam concedidos privilégios especiais em detrimento dos outros povos. Logicamente, Jesus jamais concordaria com uma insinuação tão cruel, racista e diabólica como essa. Nenhum Deus digno de assim ser tido poderia discriminar uns para beneficiar outros. Conforme Jesus esclareceu, fariam parte de seu povo todos os que adotassem e seguissem suas orientações quanto à prática do bem, sem nunca ter feito menção à dependência de uma fortuita origem nacional ou étnica.
Por isso, é uma verdadeira monstruosidade constatar que empresas-igrejas que se dizem cristãs estejam na linha de frente do apoio ao genocídio que está sendo cometido contra o indefeso povo palestino. É um verdadeiro crime que alguém tenha o descaramento de usar o nome de Jesus para justificar o horrendo massacre de crianças e mulheres na Palestina ocupada; declarar-se fiel a ele e calar-se quando todas as casas, escolas e hospitais da população palestina de Gaza estão sendo destruídos pelas forças militares do Estado de Israel; permanecer indiferente ao ver que toda a população civil está sendo exterminada por meio da fome, devido ao bloqueio de Israel à entrada de água e alimentos.
Absolutamente ninguém que se considere de verdade um seguidor dos ensinamentos de Jesus pode concordar com tamanha perversidade e monstruosidade. Pode-se até entender que os seguidores humildes dessas empresas-igrejas tenham sido iludidos pelas manipulações de pastores picaretas. A fragilidade e vulnerabilidade dessa gente podem servir para explicar tal coisa. Mas, é inadmissível que os senhores proprietários dessas máquinas de manipulação da fé sejam perdoados. Eles sabiam e sabem muito bem toda a maldade e perversidade em que estão envolvidos dos pés à cabeça.
Então, seria muito justo que qualquer um, ao se deparar com esses exploradores da fé popular, não tenha nenhum receio de lhe dizer de alto e bom tom: Em nome de Jesus, passa, Satanás!
Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.
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