Educação, mídia e narcisismo: pilares da identidade opressora sionista. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Os livros didáticos israelenses promovem dois objetivos fundamentais: o apagamento sistemático da história palestina e a preparação de futuros militares.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Em meados do século passado, a humanidade começou a se perguntar por que o nazismo foi tão aceito na sociedade alemã. Afinal, Hitler não agiu sozinho; teve o respaldo dos cidadãos do país que governava. Era aquilo que Hannah Arendt chamou de “banalização do mal”.

No contexto atual, podemos nos questionar sobre como é possível a existência de Israel enquanto tal, ou seja, um Estado que, há oito décadas, pratica genocídio contra o povo palestino. Obviamente, não se trata de uma resposta simples. Mas podemos pensar a constituição da identidade coletiva israelense a partir de três pilares interconectados: o sistema educacional, os discursos midiáticos e aquilo que Berenice Bento, professora da Universidade de Brasília (UnB), qualifica como “estrutura psíquica narcisista coletiva”.

Conforme apontado por Nurit Peled-Elhanan no livro “Ideologia e propaganda na educação”, o sistema de ensino israelense é o primeiro instrumento de doutrinação, com os livros didáticos promovendo dois objetivos fundamentais: o apagamento sistemático da história palestina e a preparação de futuros militares. Desse modo, é fomentada uma engenharia educacional baseada na falsa narrativa de continuidade histórica entre o antigo Reino de Israel e o atual Estado sionista, ao mesmo tempo que forma cidadãos que naturalizam o serviço militar obrigatório como instrumento de ocupação dos territórios palestinos.

Com forte viés etnocêntrico e sem fronteiras definidas entre conhecimento disciplinar e propaganda política, os livros didáticos consideram os judeus como únicos “israelenses legítimos”, enquanto os árabes-palestinos são representados por meio de estereótipos racistas: massas sujas, terroristas em potencial, fundamentalistas religiosos e uma ameaça demográfica a ser eliminada para evitar “outro Auschwitz”.

Este projeto educacional encontra forte eco nos discursos midiáticos hegemônicos em Israel, que consolidam a visão de mundo implantada nas escolas. A mídia local enquadra as ações estatais como necessárias para a defesa e segurança nacional, legitimando a violência contra palestinos e silenciando vozes dissidentes. As narrativas jornalísticas focam incessantemente na ameaça representada por grupos como o Hamas, apresentando as operações militares israelenses como “respostas defensivas” e não como “iniciativas de agressão”. Tal construção midiática reforça uma identidade coletiva obsessivamente centrada na necessidade de proteção, justificando moralmente a ocupação e a violência estrutural. Desse modo, a constante exposição a essas narrativas de ameaça fortalece a adesão ao projeto sionista e, por outro lado, dificulta a aceitação de críticas, criando um círculo virtuoso de apoio às políticas estatais mais extremas.

Esses dois pilares – educação e mídia – alimentam e são alimentados pela terceira dimensão da constituição da identidade sionista: a estrutura psíquica narcisista coletiva analisada por Berenice Bento. Essa configuração psicológica coletiva manifesta-se por meio de quatro características principais: a vitimização permanente, que instrumentaliza o Holocausto como justificativa eterna para a opressão; a ausência de empatia, que nega a humanidade palestina e trata vidas como descartáveis; a mentira compulsiva (gaslighting), que inverte responsabilidades e apresenta Israel como “única democracia do Oriente Médio”; e, finalmente, a máscara positiva, que projeta uma imagem moderna e progressista enquanto o país pratica apartheid e genocídio.

Não por acaso, a convergência desses três pilares – doutrinação educacional, manipulação midiática e estrutura narcisista coletiva – produz resultados concretos e assustadores, embora não necessariamente surpreendentes, em se tratando de sionismo. Pesquisas recentes indicam que 47% dos israelenses apoiam o assassinato de todos os palestinos em Gaza, 82% apoiam a limpeza étnica contínua, e 56% dos judeus israelenses desejam a expulsão de todos os palestinos que residem em Israel. Entre os mais jovens, esse número sobe para 66%, demonstrando como a engenharia identitária só se aprofunda com as novas gerações.

É importante destacar que os números em questão não representam meramente opiniões políticas. Como argumentado neste texto, são o produto final de décadas de manipulação sistêmica por meio das instituições educacionais, dos aparatos midiáticos e da construção de uma psicologia coletiva patológica. Portanto, compreender essa tríade de mecanismos é essencial para desmontar a máquina de produção de consentimento para o genocídio e imaginar futuros de liberdade e justiça para palestinos e também para israelenses.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

 

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