Editorial: Lourenço Amantino verá crescer as sementes da sua luta ancestral

Leitores e leitoras do Portal Desacato e audiência do JTT Agora, bom dia.

 
O que significa um indígena para os não indígenas? Que significado tem um indígena para o sistema branco, ocidental e cristão? Que utilidade vê na população indígena o gestor do lucro capitalista? No governo de Jair Bolsonaro, do antiministro Ricardo Salles, da musa do veneno, a empresária Tereza Cristina, o indígena é um acontecimento incômodo, infértil para seus propósitos destruidores do meio-ambiente e geradores de investimentos insanos que derretem a fogo o futuro da Mãe Terra.
 
Ainda na terceira década do século XXI os povos originários lutam para que demarquem um mísero pedaço do todo que lhes pertencia e lhes foi roubado. Os povos indígenas precisaram e precisam lutar sozinhos para preservar os animais, a flora, o ar e as águas. Sua luta é desigual, seus deuses não têm a força do deus da cruz e a espada que os cativou para roubar sua terra e dizimá-lo por mais de 500 anos.
 
Esses seres incômodos para o governo mais insensível da última centúria sobrevivem apesar dos interesses das transnacionais e das oligarquias locais. As ferramentas de destruição e as armas de morte da civilização não indígena os atingem e eles resistem. No entanto, apesar da sua rebeldia contra a injustiça e sua resistência histórica, o não indígena, século após século encontra uma arma invisível, fatal, que se empossa dos corpos para contaminá-los. Em tempos de invasão colonial as pestes vinham conservadas em roupas que davam aos indígenas para que desaparecessem comunidades inteiras.
 
Hoje é o novo coronavírus trazido de terras longínquas. Esse inimigo terminal atingiu Lourenço Amantino, cacique da Terra Indígena Sêgu, em Constantina, Rio Grande do Sul. Tempo atrás, entrevistamos o cacique para o programa Vida Em Resistência que Desacato realiza junto ao Conselho Indigenista Missionário da Região Sul. Seu Lourenço seria novamente entrevistado para um programa especial que estamos elaborando, mas, a doença dessa estrutura genocida matou ele. Foi o primeiro cacique Kaingang a morrer vítima do COVID-19.
 
Porém, saiba o Povo Kaingang que mantemos o compromisso de entrevistar os anciãos das comunidades, e um dia, que há de chegar, eles e os filhos, e os filhos dos filhos, verão sua terra cultivada, haverá beleza e esplendor, água e ares limpos, e os frutos e as espécies louvarão sua luta, e desde a Casa de Tupé–Deus, Lourenço Amantino verá crescer as sementes da sua luta ancestral. E Desacato estará lá, registrando a vitória dessa vida em resistência.
 
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