Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: conheça a história da Valdete Lima da Rocinha

Aos 80 anos, Valdete é um grande nome da imprensa e do Movimento Negro no Brasil

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“Eu quero voltar sempre preta”, essa é a frase que Carolina Maria de Jesus, escritora paulista, usou há décadas para definir o orgulho de ser uma mulher negra. Catando papel e juntando cruzeiros para sustentar os filhos, ela viu nas palavras uma alternativa de expor as dores e as delícias de habitar em uma identidade racializada e feminina.

Em outro lugar do mapa do Brasil, mas especificamente na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, uma outra mulher negra utiliza suas escuras mãos para reescrever a história do seu povo. Valdete Lima, que completa 80 anos neste julho das pretas, sempre passou suas observações para o papel.

Criada na maior favela do Brasil, Valdete sempre quis ser jornalista. Ainda na adolescência, escreveu um artigo para a Revista Realidade sobre a gravidez na adolescência na favela. No entanto, foi só depois do casamento e do nascimento das filhas que o sonho pode começar a fazer parte da realidade. Valdete iniciou a graduação aos 35 anos. E como nada na vida é fácil, ela enfrentou desafios neste processo.

Valdete Lima entrou para faculdade de jornalismo aos 35 anos Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Apenas 14% das mulheres negras do Brasil são graduadas, de acordo com o IBGE. Apesar das políticas afirmativas, acessar e permanecer no ensino superior é um grande desafio. A valorização da intelectualidade da mulher preta foi um demorado processo ao longo da história. Se hoje é difícil, imagine na época de Dona Valdete.

Terminada a faculdade, o exercício da profissão foi atravessado pelo racismo. Entre uma pauta e outra, Valdete precisou arrombar algumas portas para fazer seu trabalho com excelência.

“Certa vez fui entrevistar o presidente do Rotary Club em Copacabana. Cheguei na porta do edifício; o porteiro me olhando e eu olhando para ele. Não abaixei a cabeça. Nunca abaixei a cabeça para ninguém. Ele cansou de ficar me olhando e falou: “A sua entrada não é aqui não. Sua entrada é por lá”. Aí eu falei: “Por que você está dizendo que minha entrada é por lá? Não tenho nada contra serviçal. Inclusive minha mãe foi lavadeira e cozinheira de família rica. Mas eu sou jornalista, vim entrevistar fulano de tal “”, relembra Valdete.

A ousadia e o dom com as palavras atravessaram as fronteiras. Valdete viveu em Nova York por 17 anos aprendendo com o movimento negro americano novas formas de se comunicar. Lá trabalhou em todo tipo de serviço e se apaixonou pelo grande amor de sua vida. Foi a vontade de conhecer os netos que fez com que ela retornasse para o Brasil. Aliás, quando perguntado sobre a maior virtude de ser mulher negra, a família foi a resposta.

“Trabalhei muito para criar minhas crianças. Fazia revisão, trabalhava como editora. Eu tenho um orgulho imenso. Minhas filhas são negras. Meus netos são lindos. Nós temos que reescrever nossa história, Nathália. Quem escreveu nossa história foi o branco. E hoje, quantos intelectuais negros nós temos? É a coisa mais linda que já vi. Uma negritude toda com seus cabelos próprios. Eu tenho muito orgulho da minha vida. Acho que é um dever nosso: hoje, ser jovem e abrir caminhos para quem estiver vindo.”, afirma dona Valdete.

Oitenta anos não são oitenta dias. Valdete presenciou muitas transformações sociais e iniciativas pela igualdade racial. Apesar de reconhecer os avanços, ela ainda sente falta da presença da mulher negra na política brasileira. E não é à toa: mulheres negras representam apenas 6% das candidatas eleitas no país.

Na Rocinha, Valdete é revisora do jornal Fala Roça Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

“Tem uma diferença da minha época para cá. Mas acho que tem que ter mais negras na política. Não só Benedita, não só Margareth, como Ministra da Cultura. Você vê hoje o negro em tudo quanto é lugar. Chegamos em um patamar que, sim, o negro entrou devagarinho no mercado. Mas na política está faltando. Não abro mão disso não. Temos que ter deputadas, senadoras, governadoras. Ou até – que eu sei que a elite brasileira branca não vai deixar – uma presidente negra. Por que não?”, almeja Valdete.

Entre palavras e histórias, Valdete nos ensina que legado se constrói em vida e que voltar sempre preta mais que uma virtude: é um presente da ancestralidade.


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