Democratização da Comunicação (6): A batalha cultural. Por Raul Fitipaldi.

Estamos perdendo a guerra cultural e nem todas as escolhas que fazemos apontam a mudar o rumo do conflito.

Por Raul Fitipaldi, para Desacato.info.

Como se fosse pouco o cenário assimétrico, abissal, que asfixia econômica e estruturalmente às mídias excluídas do bolo federal, estadual e municipal, precisam enfrentar a duríssima batalha cultural, ou melhor, guerra cultural, para colocar um tamanho mais adequado às circunstâncias. A ausência histórica de investimentos mínimos nas áreas de educação e cultura do Brasil, espaços diferentes e complementares, alimentou a construção de uma sociedade acrítica e com dificuldades de discernimento sobre si própria, como temos falado em outros artigos. O resultado dessa indiferença institucional também prejudica às mídias que chamo de excluídas e que são colocadas na categoria de alternativas ou independentes.

Quando o Estado permite que as mídias monopólicas, como é o caso exponencial do conglomerado Globo, desenhem uma caricatura de país, determinando como deve ser tal ou qual povo, como deve sentir e pensar, que deve consumir e como deve falar, a “liberdade de expressão” se transforma em um cárcere onde a percepção da realidade é substituída por um mundo paralelo, porém, matriz. Essa matriz inibe a credibilidade de qualquer pensamento, discurso ou formato discordante. Aí começa uma batalha entre a realidade e a ficção imposta que deturpa a identidade do povo. A respeitável audiência se vê coagida a acreditar e repetir publicamente o que determinam os grandes conglomerados que, com suas propriedades cruzadas (de rádios, jornais, revistas, tevês, sítios web) a cercam e fecham qualquer janela ao mundo real e que lhe é próprio e verdadeiro.

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Ninguém se atreverá a acreditar no que as mídias pequenas dizem se isso não foi dito ou não tem reverberação na mídia monopólica. A mídia monopólica estabelece o lato sensu, a opinião publicada no sentido amplo e incontestável, porque culturalmente domina os espaços, as mentes e os sentimentos.

Vou colocar um par de situações vividas pelo Portal Desacato para ilustrar o que estou falando. Em um determinado período eleitoral, há poucos anos atrás, Desacato teve, de primeira mão, a informação que mudaria o rumo do processo. Publicamos de imediato a notícia e muita gente leu, era metade da manhã. Perto do meio-dia a notícia já estava nos jornalões nacionais. Uma vereadora do interior do estado que tinha lido a notícia em Desacato perguntou: essa notícia que Desacato publicou é verdadeira? Uma importante dirigente lhe respondeu, sim, saiu na Folha. Ou seja, saiu no jornal de São Paulo 2 horas depois que no portal que tem sede na cidade do fato, com as fontes do lado, porém, a credibilidade era da Folha. Pela mesma razão, tempo atrás, nenhum dirigente que fosse falar, em auditório qualquer, deixava de comprar o jornalão paulista para saber como conduzir sua fala.

O Brasil está informativa e culturalmente formatado pelo eixo Rio-São Paulo, ou melhor, por seus monopólios comunicacionais. Por interesses econômicos e “vagabundagem intelectual” as oligarquias locais, donas dos veículos de estados e municípios de fora do eixo são repetidores complacentes e, muitas vezes contratualmente (franquias), da caricatura criada pelas corporações dos grandes centros. Estes também, por sua vez, repetem a caricatura política, econômica e cultural que vem dos países centrais.

Como poderia a mídia excluída reverter os resultados desta guerra cultural, comercial e noticiosa SEM a participação reguladora do estado? Sem a distribuição equitativa dos recursos da mídia oficial? Sem um interesse, além do formal, para que a cultura brasileira e a verdade sejam preservadas? Sem a clareza de que a comunicação irrestrita e diversa é um direito humano? Sem ter clareza da urgência de obtermos um nível mínimo de Soberania Comunicacional? Sem colocar como prioridade os povos excluídos?

Estamos perdendo a guerra cultural e nem todas as escolhas que fazemos apontam a mudar o rumo do conflito.

Enquanto escrevo isto um colega da Rádio Nacional da Argentina me envia este recorte que coloco abaixo:

Você não vai ver jamais esse recorte nas capas dos jornalões. Preciso escrever algo mais sobre a guerra cultural?

Imagem, edição e publicação: Tali Feld Gleiser

 

 

 

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