David Bowie, o Barulho Branco e a luta contra o Monstro dos Privilégios. Por Flávio Carvalho.

Por Flávio Carvalho, para Desacato.info.

“Obtendo meus êxitos por um anuncio de Benetton. Busco olhos africanos. Iluminados pelo fogo de Los Angeles. Black Tie, Barulho Branco. Tenho uma cara, não somente uma raça. Eu tenho você, menina. Lamentos fascistas… Quem tem o sangue? Quem possui a arma? Olho-te nos olhos e sei que não me matarás”. (Bowie).

O Clube de Leitura de David Bowie é, atualmente, um dos livros mais vendidos em todo o mundo. Em um dos breves capítulos, o autor trata de Black Tie, White Noise (Back Tie, Barulho Branco), canção que deu nome a um disco de Bowie. Analisa a canção a partir do momento histórico em que foi composta: o protesto negro nas ruas dos Estados Unidos pela morte de Rodney King, em 1992, que coincidiu com a noite de núpcias do astro do rock com a modelo somalí chamada Imán. Ninguém sabe ao certo quem delira mais, se David Bowie ou John O’Conell, o autor do livro. A mim, muito me inspirou. Como já se verá.

O certo é que a narrativa vai mais ou menos assim, no capítulo sobre um dos melhores livros que haveria sido lido por Bowie: Da próxima vez o fogo, de James Baldwin.

Na noite de núpcias, Bowie olha fixamente para a sua esposa e começa a questionar o seu próprio amor. Por ser um homem branco, casado com uma mulher negra, menciona o exotismo multiculturalizante dos anúncios da Benneton, marca de moda famosa por haver sido pioneira na publicidade capitalista (exageradamente multicolorida). Inclusive na cor da pele dos modelos fotográficos. David Bowie, “branco bem intencionado e de mentalidade aberta” (segundo o autor), sente medo (pelo protesto nas ruas, ali perto?). E precisa repetir-se, olhando fixamente nos olhos da amada: ela não me matará! Até onde Imán guarda em si as dores do racismo e o amor impedirá que assassine o seu recém-casado marido branco? De onde saiu esse medo todo, absurdo, numa pessoa tão inteligente como David Bowie?

O barulho branco na cabeça de David Bowie não é bobagem. Por mais que o discurso deste livro, tentando psicanalisar uma música do astro do rock, sim, seja uma grande besteira. Ou será que não?

O que importa é falar da crise interior, do medo sorrateiro na cabeça de qualquer branco “bem intencionado e de mentalidade aberta”, de perder privilégios. Ao ponto de um branco hiper-privilegiado como David Bowie preocupar-se ao fazer amor com sua recente esposa, olhando profundamente nos seus olhos, naquele momento de carícia extrema, se estaria ameaçado no privilégio máximo de qualquer pessoa: o permanecer vivo, numa sociedade capaz de assassinar crianças negras, como se sua vida negra não importasse nada.

Esse é o debate principal, subjetivo, na luta antirracista. E, como já podem perceber, é um debate segregado, entre brancos. Não porque os negros assim o provocaram. É coisa de branco mesmo. Porque nunca foram os negros que se autoprovocaram para serem vistos como negros. Já não se perde mais tempo com discussões intermináveis sobre quem seria a vítima e o algoz. Se isso ainda não está claro para você, leitor, por favor, pare de ler este texto e volte para qualquer texto mais simples, de onde nunca deverias haver saído.

Não se trata de buscar na culpa, aquele sentimento cristão, elevado na Bíblia a um dos máximos expoentes da cultura ocidental. Não. Se já não importasse quem foram os brancos que inventaram o racismo (quando, onde e como), sobressai uma certeza: não foi um negro que o inventou. Isso é evidente! E, portanto, não caberá nunca a um negro entrar na cabeça de um branco para perder seu precioso tempo, analisando a profundidade do privilégio e do preço que haveria de pagar-se historicamente por ele. É um problema, sim, a ser assumido por e pelos brancos. Os negros já tem, tiveram e terão suficientes outros problemas para resolver. Somos os brancos, nós, portanto, que teremos que nos virar entre nós mesmos para tentar (nessa ordem): perceber, assumir (!), decodificar / dissecar, analisar, dialogar, e provocar cumplicidades na hora de enfrentar e resolver esse problema. A alteridade nos ajudará.

Tampouco cabe aqui perder outra forma de tempo: o que é branco e o que é negro nas nossas sociedades capitalistas, ocidentais, contemporâneas? Vou tentar facilitar. Autodefinição, pelo menos, por favor. Sentimento. Você é o que você sente e como se sente. A partir daí, tudo se debate, longe dos velhos racionalismos. Vale mais o que sente do que o que dizem que deverias sentir.

Com um único cuidado: o autoengano. A pior mentira é aquela que se conta para si mesmo. E cada vez mais, na luta antirracista, até mesmo o antirracismo pode aportar novo privilégio a qualquer branco antirracista. Parece incrível, mas não é. Autocuidado, atenção.

Em um estranho paralelismo, é o mesmo que dizer-se homem feminista, e assim ampliar o seu espectro de sedução entre as mulheres. Hoje é mais bem-visto o que antes não se era…

Assim, voltando à sutileza dos privilégios, quanto mais branco você se sentir, mais perceberá na vivência da sua pele (nas experiências, nas histórias de vida, em todos os âmbitos da nossa branca vida), o problema do racismo ao revés. O racismo que mata é o mesmo que beneficia.

Eu só sugiro, modestamente, uma regra básica. Buscar a novidade do sentimento, mais que do pensamento (racional). É hora de provar, em caso de dúvida, qualquer novo caminho.

O privilégio branco, principalmente naquelas etapas mais complexas e significativas da nossa formação como ser humano, infância, adolescência, início da fase adulta, sedução, paquera, namoros e rejeições, experiências amorosas, descobertas das formas de relacionar-se sexualmente, consolidação das amizades e inimizades, a selva em que transformaram-se alguns pátios de nossas escolas, tirar pra dançar, ser tirado pra dançar, não ser tirado pra dançar, querer e não ser… É preciso sair do privilégio, como se pudesse sair de você sem poder deixar de ser você. Para assim perceber, na imensa dificuldade de sentir-se como parte do mundo negro, a maravilhosa forma de como o privilégio ofereceu-se pra você. Pra mim.

Isso não é psicologismo puro. É forma de perceber-se como consciência coletiva, em construção e desconstrução. Porque tudo que pode ser construído, pode se desconstruir.

Em que medida a consciência determina a vida? Em que medida a vida determina a consciência? Quem veio antes, o ovo ou a galinha? Eu sou ser social porque sou só eu?

Sobre o racismo, te convido a refletir, repensar, analisar, aprofundar, muito mais que opinar. Qualquer pessoa negra poderá falar sobre o monstro do racismo muito melhor que um branco como eu. A mim só me cabe identificar o monstro e não ter medo na hora de lutar contra ele (não esquecendo que se luta melhor na medida em que se conhece “o inimigo” ou reconhece o oponente como eu mesmo). O pior problema é ter medo de enfrentar o medo. Como poderia haver sentido medo o artista Bowie, ou imaginado o escritor O’Conell? Perguntaram ou pararam pra escutar ativamente o que teria a pessoa, Imán (muito mais que a mulher de David) o que ela teria a dizer, sentir, refletir sobre tudo isso? E se tudo isso fosse ainda mais absurdamente espantoso para ela?

E sobre a literatura, pra concluir, costumo dizer para ler-se mais a obra, diretamente, do que as menções sobre ela. Menos falar-se de James Baldwin e mais ler os seus livros.

Da próxima vez o fogo, de James Baldwin, é o livro que repito que deveria ser lido. O capítulo que se chama “Carta desde uma região da minha mente”, que eu traduziria por “desde uma região do meu sentimento” – mas, como eu já disse: quem sou eu para fazer isso? – explica muitíssimo melhor do que eu a construção do imperativo “negro” por quem se sentia o “outro” (o “negro é o outro; e não eu, que penso ser superior a ele”). Colonialismo, enfim.

A função de um branco antirracista não é falar por um grande escritor como Baldwin. É ler, reivindicar, recomendar, ajudar e apoiar a que seja mais e melhor reconhecido, e então calar-se e escutar (de forma ativa) principalmente qualquer pessoa negra que tenha a dizer algo ou qualquer coisa sobre isso. Contra o Barulho Branco mais silêncio, simplesmente.

Com paciência, quanto mais silêncio você fizer, mais possibilidade dará de que o outro fale.

Já falei demais. E como não sei falar inglês, David Bowie eu adoro (pra dançar).

Aquele abraço. Let’s Dance.

PS.: Entrevistado para a revista Playboy, em 1976, Bowie se definiu como um inglesinho branco que faz uma espécie de Soul Music artificial (restos de música étnica sobreviventes da época de música de elevador), segundo suas próprias palavras. Havia declarado recentemente que nunca chegaria aos pés da presença cênica e da música negra que fazia Diana Ross. Isso dito pelo artista que, no dia 7 de outubro de 1987 realizou um show na Platz der Republik, ao lado do Muro de Berlim. Segundo a Revista Time, o show foi programado para ser escutado do outro lado do muro, em Berlim Oriental (comunista), e foi um dos maiores incentivos aos jovens berlinenses – de ambos os lados – para a derrubada do muro, dois anos depois.

@1flaviocarvalho. @quixotemacunaima. Sociólogo e escritor.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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