
Esta não é uma descoberta recente. Nem é uma descoberta semiótica desconhecida. Steve Bannon, ex-conselheiro estrela de Donald Trump, definiu a estratégia em cinco palavras: “Inundar a Zona com Merda”. Um conceito bastante gráfico que se aplica a qualquer região do planeta que não esteja alinhada com os interesses da potência dominante, os Estados Unidos. Dentro e fora do país. Isso está acontecendo hoje com o Irã, está acontecendo com Cuba — e aconteceu com a Venezuela — e também aconteceu nos EUA, ainda que virtualmente. Em 18 de outubro de 2025, o presidente dos EUA publicou um vídeo produzido por inteligência artificial em suas redes sociais, mostrando-o pilotando um avião de guerra que lançou excrementos sobre manifestantes que protestavam contra seu governo. Foi um jogo de mau gosto transformado em política de Estado.
Merda, nas palavras de Bannon, é envenenamento por informação. Cuba sofre com esse embargo desde antes de John F. Kennedy assinar a Ordem Executiva 3447, em 3 de fevereiro de 1962. A CIA vem planejando isso há décadas, e seu conjunto de medidas punitivas contra a Revolução incluiu de tudo, desde descreditar o país até as tentativas fracassadas de assassinato contra Fidel Castro, que falharam centenas de vezes.
O Programa de Ação Secreta do General Dwight D. Eisenhower, que governou os Estados Unidos entre 1953 e 1961, consistia em “incitar, apoiar e, se possível, dirigir ações, dentro e fora de Cuba, por grupos selecionados de cubanos que pudessem realizar qualquer missão por iniciativa própria”. Essa foi apenas uma parte do plano, que consistiu em 67 anos de agressão por parte de Washington, utilizando todos os meios à sua disposição.
Mas estamos no século XXI. Uma época de guerra híbrida, massacres sistemáticos orquestrados com a precisão da inteligência artificial e disputas sobre o significado de alterar ou consolidar padrões de comportamento por meio de algoritmos.
Como argumenta o filósofo mexicano Fernando Buen Abad, “o imperialismo está travando contra Cuba a mais prolongada, sistemática e sofisticada Guerra Cognitiva no inventário da dominação semiótica de nosso tempo. Não está sendo travada meramente contra um território, nem contra um governo; está sendo travada contra uma possibilidade histórica do pensamento humano”.
O intelectual atribui à ilha algo mais do que o óbvio: um país com seu próprio sistema político, econômico e social. “Trata-se de uma semiótica emancipadora, uma arquitetura simbólica que condensa a experiência da dignidade organizada. Atacar Cuba é atacar a hipótese da liberdade consciente”, escreveu ele em outubro de 2025.
Desde que os revolucionários da Sierra Maestra triunfaram sobre a ditadura de Fulgencio Batista em 1º de janeiro de 1959, a CIA tem lançado armas bacteriológicas letais sobre a ilha, não a imundície da imaginação escatológica de Trump. O vírus da peste suína africana foi liberado em 1971. Isso levou ao abate de meio milhão de porcos para impedir a propagação da epidemia. E não seria o único. A dengue hemorrágica também se espalhou pela população, segundo relatórios do governo cubano. A esses ataques, somam-se os danos deliberados a usinas de açúcar e plantações, bem como outros danos consideráveis ??à infraestrutura hoteleira, incluindo ataques com vítimas fatais. O turista italiano Fabio Di Celmo morreu em setembro de 1997 vítima de uma bomba plantada por um grupo terrorista liderado pelo agente cubano da CIA, Luis Posada Carriles.
As armas empunhadas por ideólogos da extrema-direita global, como Bannon, o francês Alain de Benoist e o blogueiro americano com ligações com a Casa Branca, Curtis Yarvin, são as que alimentam a guerra cultural. A colonização do pensamento pode operar de várias maneiras — apelando às emoções sendo uma delas — e é aqui que entra em jogo uma técnica psicológica e de Programação Neurolinguística (PNL), o reenquadramento. Altera a interpretação dos eventos, modificando o comportamento das pessoas.
Buen Abad, membro da Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade (RedH), argumenta que “uma máquina de dessemantização foi arquitetada contra Cuba, cujo objetivo não é a destruição física, mas sim esvaziar semanticamente os signos da Revolução, fazendo com que ‘soberania’ signifique isolamento, ‘socialismo’ signifique atraso e ‘revolução’ signifique ditadura. O imperialismo semiótico consiste precisamente em impor o dicionário da dominação como se fosse uma língua universal.” (http://www.cubadebate.cu/opinion/2025/10/21/guerra-cognitiva-contra-cuba/)
Há ampla evidência de que os Estados Unidos falharam em subjugar Cuba, apesar da invasão da Baía dos Porcos, do ataque ao navio francês La Coubre no porto de Havana, que deixou dezenas de mortos e feridos, das infiltrações de barcos como a de fevereiro passado, de uma guerra econômica que, entre outras medidas, consistiu na imposição de 244 sanções à ilha em um único ano (2019), como fez Trump, do bloqueio histórico condenado pelas Nações Unidas e, agora, do atual embargo de petróleo que inclui medidas coercitivas contra países que possam desafiá-lo.
A guerra cognitiva destinada a impor uma versão distorcida da verdade, adaptada aos EUA, também foi detalhada em um relatório do Observatório de Guerra Não Convencional contra Cuba. Publicado há uma semana, o relatório indica que o monitoramento de 193 artigos de veículos de mídia financiados por estrangeiros, entre 23 de fevereiro e 3 de março de 2026, “revela como uma operação de guerra cognitiva de alta intensidade está sendo travada contra Cuba, usando o incidente da lancha em Villa Clara como seu mais recente laboratório de agitação”.
A investigação, publicada no site Razones de Cuba, cita três elementos que coincidem no tempo e no espaço para desacreditar o governo da ilha e corroer a resiliência psicológica da população: a criação de notícias falsas, a guerra psicológica por saturação e o uso de fontes anônimas rotuladas como “especialistas” para contrastá-las com fontes oficiais cubanas “sem oferecer um único fato técnico”, como afirma o relatório. Conclui: “O sentimento dominante detectado nesta análise é o de Hostilidade Informacional de Alta Intensidade”.

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