Cresce pressão para inclusão de ‘ultraprocessados’ em discussão de cúpula da ONU

Especialistas elaboraram documento que sintetiza evidências sobre o poder nocivo dos alimentos ultraprocessados para a saúde

Documento sintetiza evidências científicas sobre o poder nocivo dos alimentos ultraprocessados. Foto: Pixabay

Por Giorgia Cavicchioli.

Mais de 80 cientistas, representantes de governo e da sociedade civil se reuniram e elaboraram um documento que sintetiza evidências científicas sobre o poder nocivo dos alimentos ultraprocessados e será enviado a atores-chave da Cúpula de Sistemas Alimentares, da Organização das Nações Unidas (ONU). O evento vai discutir pontos críticos de sistemas alimentares no mês de setembro de 2021 e terá foco na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Porém, apesar das robustas evidências científicas sobre os impactos negativos da produção e consumo de alimentos ultraprocessados na saúde humana e planetária, o tema não tem sido tratado com a urgência necessária.

Pensando nisso, o grupo de especialistas brasileiros vai pedir à Organização das Nações Unidas (ONU) que o tema “alimentos ultraprocessados” seja tratado com a devida relevância nas discussões.

Os brasileiros se reuniram em um evento organizado pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) e pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, ambos da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). A reunião gerou o texto que será enviado à ONU.

De acordo com a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e atual professora titular da Cátedra, Tereza Campello, que faz parte do grupo de cientistas, “os sistemas alimentares são os maiores responsáveis, hoje, na agenda de impacto na saúde humana”.

Grupo de especialistas brasileiros pede à ONU que o tema “alimentos ultraprocessados” seja tratado com a devida relevância nas discussões  / Foto: CEE Fiocruz

“Não tem nada que tenha maior impacto em doenças não transmissíveis. E tem um impacto gigantesco no meio ambiente pouco tratado”, diz. Ela lembra ainda que isso não se deve apenas ao gado, mas a muitas outras questões, e que a Cúpula não está tratando o processamento dos alimentos com a devida atenção.

“Eles não foram abordados ainda nos documentos e o nosso esforço é para que isso aconteça. Nós temos a expectativa que a Cúpula de Sistemas Alimentares vá incorporar uma crítica dura à forma como os alimentos estão sendo, na verdade, desconstituídos. A gente sequer considera ultraprocessados como alimento”, avalia.

Segundo a ex-ministra, a grande preocupação não são os alimentos industrializados em si, mas a desconfiguração do alimento a um ponto que o corpo humano não consegue mais nem reconhecer aquilo que está sendo ingerido como um alimento.

De acordo com a pesquisadora da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, Ana Paula Bortoletto, a própria formulação dos produtos já vem com a visão de maximizar os lucros das empresas.

“São produtos que utilizam pouco ou quase nada de alimento em si, mas sim subprodutos que a indústria utiliza com a adição de aditivos que vão modificar a textura, a cor, o cheiro do produto para parecer que é o de verdade”, diz.

“As pesquisas mostram que o consumo de ultraprocessados contribui para o aumento do ganho de peso e obesidade, por exemplo, está associado à pessoa poder desenvolver outras doenças crônicas como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer… também afeta crianças e adolescentes, inclusive com doenças respiratórias, como asma, e até dados de mortalidade prematura”, afirma a pesquisadora.

Pesquisas mostram que o consumo de ultraprocessados está associado a doenças crônicas como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer / Pixabay

Para o grupo, a indústria precisa ser regulada, garantindo informação para a população com a rotulagem e preservando a saúde da população e o meio ambiente. Segundo Campello, é preciso discutir por quais motivos a indústria tem interesse em “desenhar” esse tipo de produto.

“Não é porque ‘produzimos para acabar com a fome no mundo’. Não só não acabaram, como a fome só piora. Na verdade, o objetivo da indústria é vender mais, mais e mais, produtos baratos e que potencializam seu lucro, e produtos que gerem um nível de insaciedade na sociedade a ponto de ele ser consumido praticamente sem controle”, explica. Para ela, é uma ilusão achar que a indústria vai se auto regular.

Além disso, Bortoletto diz que existe uma necessidade alta de o tema ser discutido agora pela sobrecarga do sistema de saúde e pelos impactos no meio ambiente. Segundo ela, algumas medidas isoladas já foram tomadas nesse sentido, mas elas consideravam apenas um aspecto do problema ou eram minimizadas por pressões econômicas para que não avançassem.

“Eu acho que essa urgência é necessária porque a gente observa as tendências de aumento de doenças crônicas não transmissíveis e dos efeitos das mudanças climáticas no meio ambiente acontecerem em uma velocidade cada vez maior. Os dados que a gente tem, tanto do Brasil como do resto do mundo, é que nós não estamos adotando medidas efetivas para reverter esse cenário”, argumenta.

O lançamento do documento foi na quinta-feira (24) no “Diálogo sobre ultraprocessados: soluções para sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis” por meio de uma transmissão pelo canal do YouTube da Faculdade de Saúde Pública/USP.

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