Clara Charf. Por Flávio Carvalho.

Por Flávio Carvalho.

Neste dia, quando o PT prestou merecida homenagem à bravíssima militante Clara Charf, chamou atenção pelo tom da nota pública sobre o seu falecimento: “Clara, mulher de Marighella”…

“Mulher de” é uma expressão que denota (sem grande alarde e de restrita percepção) um reforço linguístico ao sutil machismo possessivo: “ela é mulher dele”.

Sem ele, ela existiria? Claro que sim. “Mas não foi essa a intenção, Flavio e a sua chatice”. Claro, companheiro. Nunca é essa a intenção. E talvez por isso mesmo, seguimos do jeito que seguimos.

Passaria absolutamente despercebido, não fosse pelo fato de que algumas companheiras feministas protestaram, no ato.

Mesmo que não se tratasse de uma mulher que enfrentou a ditadura militar, que teve que se exilar em Cuba para não ser assassinada pela repressão brasileira, que teve papel fundamental na criação do partido que ousou enfrentar a ditadura… Mesmo que não fosse tudo isso e mais um pouco, e por mais que se pretenda legitimamente evocar a memória do também valente e honroso Marighella, esta mulher tem uma vida que fala por si própria. Em memória à sua história e a ela não estar aqui agora para dizer o que pensa sobre tudo isso, pensemos mais nela, por favor, sem precisar de mais recursos de linguagem, por mais nobre que lhes pareçam.

Dirão os mais alienados (alguns menos também), que é uma bobagem remarcar esse detalhe.

Não é. Pois o machismo estrutural, o mesmo que mata (por sentimento de posse) é aquele que se enraíza nas minúcias da linguagem. Se não custa nada evitar (pois, afinal, o que nos custa? Sejamos sinceros!), evitemos.

Igual que a famosa sopa de letrinhas do movimento LGBTQIAP+. Custa tanto para algumas pessoas… E se o esforço for o mínimo, diante de sabermos que cada letra representa uma luta de anos para sobreviver, cada uma pessoa que ela representa? Não será o “incômodo” vosso exatamente o sinal claro de que a resistência (machista, sutil, estrutural, perversa) opera assim, dentro de ti?

Na semana passada, faleceu Diane Keaton. Atriz premiada, profissional de mérito reconhecido em anos de atuação, ativista feminista… A imensa maioria dos jornais fez questão de mencionar seu nome (com direito a foto do “seu homem”; ironia, pois jamais dizemos assim) como A Ex-Mulher de Woody Allen.

Não companheiros, não é um mero detalhe.

Jamais se refiram à pessoa que convive comigo, à minha companheira de vida (e de lutas), como “A Mulher De”. Além de ser ela mesma, com vida própria e história de vida que fala por si (antes e depois de nos conhecermos), o relacionamento igualitário entre duas pessoas que lutam contra o machismo cotidiano (o meu inclusive e principalmente; pois é preciso admitir equívocos, pois negando a sua existência jamais se superará) passa fundamentalmente pelas grandes questões.

Mas também pelas “pequenas”. De grão em grão, O Galo enche o papo.

Viva Clara.

Aquele abraço.

@1flaviocarvalho, sociólogo, ex consultor internacional da OIM e da UNESCO, eleito vice-presidente do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, em 2010. Recebeu a Ordem do Rio Branco, no Governo Lula, em 2011.

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