Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.A guerra de Canudos, não pertence apenas ao passado. Embora tenha ocorrido há mais de um século, suas consequências continuam presentes no Brasil contemporâneo. O massacre promovido pelo Estado contra milhares de sertanejos pobres revela marcas profundas da formação social brasileira: a desigualdade, a violência contra os mais vulneráveis e a criminalização dos movimentos populares.
Liderados por Antônio Conselheiro, homens e mulheres construíram no sertão baiano uma comunidade baseada na solidariedade e no trabalho coletivo. Canudos nasceu da miséria, da seca e do abandono político vivido pela população sertaneja após a proclamação da República. Enquanto as elites falavam em progresso e modernização, o povo pobre seguia sem terra, sem direitos e sem assistência do Estado. A existência de Canudos assustou os grandes proprietários rurais e os setores dominantes, que passaram a enxergar aquela experiência popular como uma ameaça à ordem social.
A destruição de Canudos inaugurou uma lógica que ainda persiste no Brasil: tratar os pobres organizados como inimigos internos. Na época, jornais e autoridades chamavam os sertanejos de fanáticos, bárbaros e perigosos. Hoje, em muitos momentos, trabalhadores sem terra, moradores de periferias, povos indígenas e movimentos sociais continuam sendo retratados de forma semelhante por setores conservadores da sociedade e da mídia. A criminalização da pobreza e da luta popular permanece como herança histórica daquele massacre.
Outro aspecto contemporâneo de Canudos está na desigualdade regional e social do país. O sertão nordestino, cenário da guerra, ainda enfrenta problemas históricos relacionados à concentração de terra, à pobreza e à falta de investimentos públicos. A exclusão social que levou milhares de pessoas a buscar refúgio em Canudos não desapareceu completamente. Ela se manifesta atualmente no desemprego, na fome, na precarização do trabalho e no abandono das populações mais pobres.
A violência do Estado também continua sendo uma questão central. Em Canudos, o Exército foi enviado para destruir brasileiros considerados indesejáveis pelas elites políticas. Nos dias atuais, operações violentas em periferias urbanas, repressões contra manifestações populares e conflitos no campo mostram que parte da estrutura estatal ainda atua de forma desigual contra determinados grupos sociais. A lógica da força muitas vezes substitui o diálogo e a garantia de direitos.
Ao escrever Os Sertões, Euclides da Cunha denunciou a brutalidade cometida contra o povo sertanejo e eternizou a resistência de Canudos. Sua obra continua atual porque nos ajuda a compreender um Brasil marcado pela exclusão social e pela concentração de poder. A frase “Canudos não se rendeu” ultrapassou o episódio histórico e tornou-se símbolo da resistência popular diante da opressão.
Relembrar Canudos nos dias de hoje é refletir sobre um país que ainda convive com profundas desigualdades sociais e com a marginalização de parcelas da população. A história daquele arraial destruído no sertão baiano continua ecoando em cada luta por terra, moradia, dignidade e justiça social no Brasil contemporâneo.
Marcos Aurélio Gomes Ribeiro é professor de História contemporânea do Brasil
Instagram: @Marcoszadoque
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