Bombardear um canal de televisão. Mais um crime israelense com chancela da Otan.

Mirko Casale (Introdução cômica):

O jornalismo está de luto! O regime iraniano ultrapassou todas as normas da ética e da decência e bombardeou intencionalmente a sede de um canal de televisão israelense.

Como profissionais da imprensa que somos, condenamos sem hesitação esse ataque covarde e nos solidarizamos com nossos colegas israelenses. O companheirismo entre jornalistas não depende de fronteira… nem de ideologia…

Ah, não foi um bombardeio iraniano contra um canal israelense, e sim um bombardeio israelense contra um canal iraniano? OK.

Um golpe duro, mas necessário contra a propaganda do Irã. Para combater as mensagens de ódio impulsionadas a partir de Teerã, a aviação israelense bombardeou com grande precisão um canal de televisão iraniano, tratando de reduzir as vítimas ao mínimo.

Como profissionais de imprensa que somos, conclamamos a nossos colegas do Irã a exercer um jornalismo responsável que evite este tipo de trágicas, mas justificáveis, ações por parte de Israel.

E agora, vamos seguir com nossa seção de solidariedades seletivas.

Mirko Casale:

Os crimes israelenses destas últimas décadas, com ênfase nos cometidos nos passados 20 meses, são tão variados e monstruosos que bombardear intencionalmente um canal de televisão poderia parecer um a mais entre tantos.

Ao fim e ao cabo, Tel Aviv assassinou mais de duas centenas de jornalistas palestinos desde outubro de 2023. Quase três por semana. Depois de bombardear instalações nucleares, militares e, como não, tratando-se de forças israelenses, edifícios residenciais por todo o Irã, Tel Aviv decidiu bombardear a sede da televisão da nação persa. E o fez em plena transmissão ao vivo, com o que o fato ficou registrado em vídeo.

Voz da locutora Saha Memani:

Este é o som da agressão contra a pátria, o agressor da verdade e da justiça. O que estão ouvindo, o som que ouviram, no polvorento espaço do estúdio…

Mirko Casale:

De acordo com a Organização de Rádio e Televisão do Irã, quatro projéteis israelenses impactaram o edifício e deixaram pelo menos três vítimas mortais. No entanto, isto não impediu que as transmissões continuassem.

Poucos minutos depois do bombardeio, a mesma mulher que vimos antes no momento em que as transmissões foram interrompidas as retomou em outro estúdio e se mostrou desafiante ante as forças israelenses. Determinação que foi muito comentada nas redes sociais. Inclusive na forma de caricatura.

Obviamente, se Sahar Emami fosse britânica, francesa, estadunidense ou, quem sabe, israelense, os grandes meios ocidentais já a teriam entrevistado dezenas de vezes para que contasse sua experiência. E nos dias de hoje saberíamos até os mínimos detalhes sobre sua biografia.

Porém Sahar é iraniana e vítima de um bombardeio israelense. Por isso, apesar do chocante das imagens, sua passagem pelos meios hegemônicos foi apenas incidental.

Certamente, para romper um pouco com certos estereótipos midiáticos sobre o Irã, não está demais mencionar que a apresentadora não é meramente uma leitora de tele-prompter com véu. E sim, uma engenheira agrônoma com especialização em ciência alimentícia.

Agora, vamos continuar pelo caminho em que vínhamos. Porque, não podemos crer que a maioria da mídia do “mundo livre” ignorou ou passou com as pontas dos pés pela notícia do bombardeio. Não! Também houve aqueles que, a sua maneira, o justificaram. Assim como ouviram!

Alguns destacaram em suas manchetes que Tel Aviv havia alertado previamente sobre o ataque. Talvez insinuando de alguma maneira que, por um lado, a única “democracia” do Oriente Médio não bombardeia meios de comunicação de forma selvagem, senão que o fazem civilizadamente, pedindo licença.

Por outro, deixando entrar no cabeçalho que os que permaneceram no canal iraniano depois desse alerta o fizeram por sua conta e risco, e talvez até mesmo queriam ser bombardeados. Mais ou menos como faria um advogado de um violador destacando durante o julgamento que seu defendido teve o detalhe de enviar um ramo de rosas e um envelope perfumado à vítima para anunciar sua chegada.

Encantador, não é mesmo?

Vocês que são jovens, talvez, possam pensar que com o ataque premeditado de Tel Aviv à sede central de um meio de comunicação estatal, desbloqueou-se um novo nível de imoralidade de parte da chamada comunidade internacional. Mas, o certo é que não!

É que este caso está quase calcado em todos os aspectos no bombardeio da OTAN contra a televisão iugoslava em 1999. Quando a Aliança Atlântica bombardeou a sede da rádio-televisão sérvia em Belgrado, a mídia e os porta-vozes otanistas argumentaram, como hoje Tel Aviv argumenta, que o ataque foi devido ao caráter propagandístico do meio.

E, como fazia certa mídia antes e faz agora, culparam ao próprio canal bombardeado pelos 16 trabalhadores assassinados, por não haver obedecido ao alerta de evacuação emitido pelos agressores.

Como podem ver, com muita frequência, a OTAN e a entidade israelense são, como se diz, muito parecidos.

Talvez vocês se perguntem agora por que, com tudo o que está ocorrendo no Oriente Médio, estamos abordando um item tão pontual e, para os padrões dos crimes israelenses, comparativamente não tão grave.

Por que não falar das ameaças de Trump de envolver os EUA de cheio na guerra e assassinar o chefe de Estado iraniano? Ou comentar as declarações do Chancelar alemão, segundo as quais, Netanyahu estaria fazendo o trabalho sujo para o norte global? Ou a proibição de Tel Aviv de que seus cidadãos abandonem o território? O que soa especialmente cínico vindo de autoridades que há décadas acusam o Hamás de usar civis como escudos.

São todos temas interessantes e transcendentes que não se podem perder, e não vamos perder, de vista. Mas, o bombardeio de um canal de televisão com seus trabalhadores dentro é um tema que, além de constituir um crime de guerra, por óbvios motivos, nos toca muito de perto.

Como muitos de vocês sabem, nosso programa é gravado e transmitido de Moscou, na sede central de RT em Espanhol, um canal que vem sendo constantemente acusado pela mídia e porta-vozes ocidentais de ser um veículo de propaganda e, desde 2022, de propaganda bélica, para acentuar ainda mais.

Portanto, para os que trabalhamos aqui, não é exagerado ver-nos especialmente refletidos em bombardeios contra estúdios centrais de televisão, nem fazer-nos a pergunta sobre qual seria a reação do muito mal-chamado Primeiro Mundo se, por exemplo, nosso canal fosse atacado por drones lançados a partir de Kiev, ou traficado e montados em caminhões para acioná-los na capital russa. Como ocorreu há algumas semanas em outras regiões.

Se sofrêssemos um ataque semelhante ao da sala de concertos Crockus City Hall em Moscou em março de 2024, com supostos lobos solitários metralhando loucamente em todas as direções, sem ao menos terem totalmente claro o porquê. Eles condenariam veementemente o ocorrido, dedicando uma amplíssima cobertura ao tema, ou fingiriam desgosto sem poder evitar um desabafo do tipo: que horrível, mas eles fizeram por merecer seu castigo?

Redefiniriam suas alianças internacionais, propondo-se por fim que, talvez, usar nostálgicos do nazismo ou lumpen-jihadistas contra rivais geopolíticos é inaceitável desde todos os pontos de vista? Ou se desmarcariam dos fatos apenas publicamente, entre falsas expressões de aflição, enquanto que, em privado, celebram o ocorrido?

Pessoalmente, eu tenho tão clara a resposta como a convicção de que a grande maioria de vocês também.

Só para reafirmar em conclusão, e me atrevo a dizer que falo pelas pessoas que trabalham neste e em outros meios submetidos ao mesmo nível de escárnio pelos autoproclamados “defensores” do mundo baseado em regras, a certeza de conhecer perfeitamente a resposta a essas interrogações, longe de nos acovardar, nos impulsiona a continuar onde estamos e fazendo o que fazemos.

Tradução e legendas: JAIR DE SOUZA


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