Bolsonaro indica general para assumir presidência da Petrobras

Joaquim Silva e Luna, ex-ministro da Defesa de Temer, deverá ser o novo chefe da Petrobras, em lugar de Roberto Castello Branco. Anúncio foi feito pelas redes sociais de Bolsonaro, após repercussão negativa dos aumentos dos combustíveis

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

São Paulo – O presidente Jair Bolsonaro anunciou em suas redes sociais, nesta sexta-feira (19), a indicação do general Joaquim Silva e Luna, atual diretor da Itaipu Binacional, para presidir a Petrobras. Se a indicação for confirmada pelo Conselho de Administração da estatal, o militar substituirá Roberto Castello Branco, no cargo desde o início do atual governo. O conselho da Petrobras emitiu nota afirmando que “Castello Branco e demais diretores-executivos da empresa têm mandato vigente até 20 de março”. Bolsonaro anuncia a troca depois criticar os aumentos sucessivos nos combustíveis, pressionado pelo aumento da reprovação popular e por uma iminente greve de caminhoneiros.

Castello Branco foi indicado ao cargo pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de quem recebeu a missão de preparar a maior estatal brasileira para privatização. Em nota para anunciar a demissão, o governo não explica a motivação e trata a medida com “normalidade”. “O governo decidiu indicar o senhor Joaquim Silva e Luna para cumprir uma nova missão, como conselheiro de administração e presidente da Petrobras, após o encerramento do ciclo, superior a dois anos, do atual presidente, senhor Roberto Castello Branco”, diz o documento assinado pelo Ministério de Minas e Energia.

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Olho em 2022

Já na quinta-feira (18), Bolsonaro mostrou incômodo com a reação às altas acumuladas dos preços dos combustíveis – gasolina, 34,4% e diesel, 27,7%, apenas em 2021. Em sua live semanal, reclamou dos reajustes sucessivos e disse que “alguma coisa” ia mudar na Petrobras. Bolsonaro teme ainda que os caminhoneiros convoquem uma greve nacional.

Em 2018, então candidato à Presidência, Bolsonaro incentivou os caminhoneiros à greve basicamente com as mesmas reivindicações contra a Petrobras. O movimento durou 10 dias, entre o final de maio e o início de junho daquele ano. O presidente não quer agora o mesmo desgaste que a greve provocou ao governo de Dilma Rousseff. Por isso, também ontem, ele anunciou que vai zerar por dois meses os impostos federais sobre o diesel. E por tempo indeterminado sobre o gás de cozinha, a partir de 1º de março.

O militar da Petrobras

Luna e Silva faria daqui a uma semana dois anos no cargo de diretor-geral pelo lado brasileiro da Itaipu, onde uma nova vaga foi aberta. O general já foi ministro da Defesa durante o governo do ex-presidente Michel Temer, em 2018. Antes, chegou a ocupar o posto de secretário-geral do mesmo ministério, na gestão de Aldo Rebelo, ainda no governo de Dilma Rousseff.

Se confirmada indicação de Silva e Luna para presidir o conselho de administração da Petrobras, o general será o primeiro militar a assumir a estatal desde 1989. Na ocasião, sob o governo de José Sarney (1985-90), o oficial da Marinha Orlando Galvão Filho ocupou o cargo. A estatal foi comandada por militares durante a maior parte do período ditatorial. Entre eles, pelo general Ernesto Geisel, de 1969 a 1973, e que viria a se tornar presidente da República (1974-79).

Petroleiros: não basta demitir

Em nota à imprensa, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) destacou que a gestão de Roberto Castello Branco, “desastrosa”, beneficiou apenas acionistas da Petrobras. E termina após manifestação da categoria contra a venda de refinarias e aumento nos preços dos combustíveis.

A FUP afirma ainda que a demissão de Castello Branco é oportunidade de a estatal retomar seu caráter público. E também de reforçar sua posição entre as grandes petroleiras do mundo.

Leia a Íntegra

A demissão do presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, determinada pelo governo federal, acionista majoritário e controlador da empresa, poderia ser a chance de a maior companhia do Brasil retomar seu papel de locomotiva do desenvolvimento econômico e social do país, avaliam a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus sindicatos. Para a Federação, no entanto, a indicação do general Joaquim Silva e Luna, atual diretor da Itaipu Binacional, como novo presidente da Petrobrás gera dúvidas sobre a condução da nova política de preços da empresa.

“De nada adianta a mudança na cadeira, se não houver mudança da política de preços desastrosa”, diz o coordenador geral da FUP, Deyvid Bacelar, lembrando que Castello Branco cai logo após os petroleiros realizarem manifestação contra a venda de refinaria e contra o aumento dos preços dos combustíveis.

A população brasileira vem sofrendo com a manutenção, pela gestão Castello Branco, da nefasta política de Preço de Paridade de Importação (PPI). Uma política que reajusta gasolina, óleo diesel e gás de cozinha com base no preço internacional do petróleo e na cotação do dólar – mesmo quando esses combustíveis são produzidos no país, com óleo brasileiro. Resultado: combustíveis caros, fretes e alimentos em alta, inflação subindo.

Para a FUP, a saída de Castello Branco é a oportunidade de a Petrobrás reforçar sua posição integrada e verticalizada, “do poço ao posto”, como são as grandes petroleiras do mundo. Fortalecendo suas operações nos diversos segmentos da cadeia de petróleo, gás natural e energia. Gerando empregos, negócios e renda, investindo em alta tecnologia e na capacitação de seu corpo técnico. Assim como fortalecendo a indústria brasileira fornecedora de bens e serviços.

Gestão desastrosa

Além disso, a gestão de Castello Branco, que aparentemente beneficiava os acionistas da Petrobrás, é desastrosa para a companhia em médio e longo prazos. Com efeito futuro no seu valor de mercado.

Com a venda de ativos importantes para o negócio da Petrobrás, como a BR Distribuidora, a Liquigás, campos de petróleo e gás natural, transportadoras de gás natural, como a TAG, termelétricas e usinas eólicas, a gestão de Castello Branco transformava a Petrobrás numa mera produtora e exportadora de petróleo, reduzindo seu valor no longo prazo e seu papel na economia nacional.

O mais recente desastre econômico e financeiro cometido por Castello Branco foi a venda da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, para o Fundo Mubadala, de Abu Dhabi, anunciada no início deste mês. A venda integra um programa de desinvestimento da empresa que abre mão de sua liderança no refino brasileiro alegando a criação de uma concorrência – o que é falacioso.

A venda da RLAM, fechada apressadamente e sem necessidade num momento de pandemia e crise econômica global, renderá à Petrobrás US$ 1,65 bilhão. No entanto, cálculos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) mostram que a planta vale entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões. O banco BTG também pontuou que a RLAM foi vendida por um valor pelo menos 35% menor do que valeria. Prejuízo para a Petrobrás e para o Brasil.

Com a queda de Roberto Castello Branco, a FUP e seus sindicatos esperam que a Petrobrás retome seu protagonismo na economia brasileira. Sobretudo diante da incompetência do governo federal de adotar medidas justas e socialmente responsáveis para a retomada econômica do país em um momento tão grave quando o da pandemia de Covid-19.

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