Biografias interiores para geografias imperfeitas (XII). Por Marco Vasques.

 

Foto: Italo Melo no Pexels

Por Marco Vasques, para Desacato.info.

TIA ZULMA

É provável que Tia Zulma seja a moradora mais antiga de Guaiúba. Para quem não conhece, trata-se de um bairro da pequena cidade de Imbituba, litoral de Santa Catarina. Bairro cortado ao meio pela BR-101 e por um trilho que liga Imbituba a Laguna e a Tubarão. Nas extremidades, é circundado por águas. De um lado, uma imensa lagoa, do outro, o mar aberto com seu azul ondulante. Na prática, é um lugar cercado por águas e atravessado pela pressa do aço.

O pequeno bairro tinha tudo para ser um destes lugares idílicos, já que sua beleza natural é de arrancar os olhos da carne. No entanto, apesar disso, o abandono social e político fez do local um espaço com ar pesado, com casas que revelam a presença de tristezas interiores agigantadas. As moradas são tristes por fora e, por dentro, carregadas de uma escuridão quase insuportável.

Aos 87 anos, Tia Zulma é a última de uma geração que praticamente fundou o bairro. A pequena casa ao fundo de um terreno, enorme para os padrões de hoje, permanece firme, com sua chaminé emitindo, já ao amanhecer, sinais de que a lenha está em brasa e o café, sendo preparado. Nenhum morador, seja dos mais antigos aos mais jovens, conhece o verdadeiro nome dela, pois ela é assim chamada desde sempre. É possível inclusive que os próprios familiares desconheçam sua real identidade.

Tia Zulma segue a tradição de manter o interior de sua casa numa luminosidade sombria. Há quem diga que goza de iluminações próprias. É impossível entrar nos escuros e cantos quase invisíveis de sua residência. Ela, com seu sorriso, com sua alegria e seus gestos sempre em festa, distorce o olhar dos convidados ou visitantes para um canto de luz que nenhuma ciência ou tratado poético seria capaz de captar. A força que Tia Zulma no auge da idade emana faz com que sua própria carne, abatida pelas quase nove décadas de vida, exale um perfume e uma força incomum. Não, não se trata de nenhuma metáfora ou de glorificação da velhice. Ela tem um espírito contagiante e, quando abre a boca, mesmo que desprovida de dentes para falar, para gesticular, para conversar, é capaz de seduzir o ouvinte. A impressão que se tem é que Tia Zulma não conversa com as pessoas, mas encanta corpos.

Já presenciou de tudo: suicídio, assassinato, traições, crimes passionais, separações, fugas, acidentes, casamentos, pescarias das grandes, abundância na plantação e na criação dos animais, escassez dos peixes na atualidade, fuga de praticamente toda a família para a cidade. E encarou tudo com naturalidade. Nunca reclamou ao ver quase toda a família se encantar com as oportunidades da cidade grande, mas ironizava quando tinha a chance de dizer que ela própria era sua cidade. Outras vezes, em tom mais sério, alertava aos filhos que para se viver é preciso ter o que comer, onde dormir e a quem amar. O resto, continuava, é penduricalho.

Tia Zulma nunca estudou e não leu um único livro. Contudo, está muito longe de ser uma mulher ignorante e sem cultura. Aprendeu tudo com a vida e com a natureza. É uma velhinha antenada a tudo o que acontece em seu bairro, na sua cidade e mais recentemente no seu país. Ela tem a pele carcomida pelo tempo, uma casa simples e de pouca luz, a boca precária de dentes, os cabelos macerados pela fumaça do fogão a lenha, o andar alquebrado e gestos quase centenários, mas a verdadeira identidade de Tia Zulma está em seus olhos, olhos que nasceram para nunca morrer.

 

Marco Vasques é poeta e crítico de teatro. Mestre e Doutor em Teatro pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), com pesquisa em Flávio de Carvalho. É autor dos seguintes livros: Elegias Urbanas (poemas, Bem-te-vi, 2005), Flauta sem Boca (poemas, Letras Contemporâneas, 2010), Anatomia da Pedra & Tsunamis (poemas, Redoma, 2014), Harmonias do Inferno (contos, Letras Contemporâneas, 2010), Carnaval de Cinzas (contos, Redoma, 2015) entre outros. Ao lado de Rubens da Cunha é editor do Caixa de Pont[o] – jornal brasileiro de teatro. Presidiu, em 2020, o Fórum Setorial Permanente de Teatro da cidade de Florianópolis e foi membro do Conselho Municipal de Políticas Culturais. Foi colunista do jornal Folha da Cidade. Atualmente é colunista do Portal Desacato.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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