Por Gustavo Veiga.
O presidente cubano Miguel Díaz-Canel confirmou em uma coletiva de imprensa o que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia antecipado em 5 de março diante de Messi e de seus companheiros do Inter Miami: que os dois governos iniciaram conversas para superar antigos conflitos bilaterais. A diferença evidente no momento escolhido e nos interlocutores a quem a mensagem foi dirigida indica não apenas uma disparidade de estilos. Também se destaca o tom triunfalista e intimidador do magnata imobiliário que se tornou líder do Partido Republicano. A política externa dos Estados Unidos — como já afirmou seu secretário de Estado, Marco Rubio — é impor “a paz pela força” em qualquer lugar do planeta, mas até agora o único resultado foi exportar guerras.
Os Estados Unidos mantêm um bloqueio econômico contra a ilha desde o triunfo da Revolução e o sustentam há mais de seis décadas. Violam resoluções das Nações Unidas contra essa medida unilateral, cujo levantamento foi votado na Assembleia da ONU 33 vezes consecutivas até 2025, com esmagadoras vitórias diplomáticas de Havana.
Esse fato é tão incontestável quanto a decisão de Cuba de dialogar em pé de igualdade, com respeito à sua soberania e ao seu sistema político. Díaz-Canel, também primeiro-secretário do Partido Comunista, declarou:
“Devemos construir espaços de entendimento e nos afastar da confrontação.”
Está muito claro que não será simples. As negociações, que, segundo o chefe de Estado, também foram promovidas por Raúl Castro, são conduzidas com discrição e buscam um diálogo que, para a ilha, deve respeitar “a igualdade e a autodeterminação”.
O presidente também fez anúncios muito importantes sobre a situação crítica que Cuba vive devido ao aprofundamento do bloqueio. Por esse caminho, os Estados Unidos sempre buscaram devolver a ilha à condição de colônia anterior à própria Revolução.
“Hoje podemos confirmar que há mais de três meses nenhum navio de petróleo chega ao nosso país”, informou Díaz-Canel, e admitiu que “funcionários cubanos mantiveram recentemente conversas com representantes do governo dos Estados Unidos”. Nesse diálogo ainda embrionário entre as duas nações vizinhas, o presidente destacou que “um grupo de atores internacionais favoreceu esses intercâmbios”.
Como se desenvolveu esse processo que, segundo Cuba, ainda se encontra nas fases iniciais?
“Os objetivos são determinar os problemas bilaterais que precisam de solução, quais são os caminhos e qual é a vontade de solucioná-los”, comentou o chefe de Estado.
Díaz-Canel forneceu essas informações sobre política externa, mas também se referiu a problemas internos que afetam a economia, a crise energética e a falta de petróleo enfrentada pelo país, desde que os Estados Unidos atacaram a Venezuela, apreenderam esse recurso e sequestraram seu presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores.
“Estamos gerando eletricidade com petróleo nacional e energias renováveis. O Sistema Eletroenergético Nacional está em uma situação de instabilidade devido ao déficit de combustível. O impacto do bloqueio energético é violento. O problema não ocorre apenas em Havana, porque em outros territórios também teve efeitos”, explicou o presidente. Ainda assim, reconheceu que “estamos vivendo uma situação para a qual já vínhamos nos preparando e implementamos medidas”.
Algumas das alternativas para amenizar a crise que provoca apagões recorrentes, segundo o informado no encontro com jornalistas, são:
“Antes do fim de março, estarão sincronizados outros 100 megawatts de energia fotovoltaica. Nos próximos dias, entrarão em funcionamento as primeiras baterias associadas aos parques solares, que servirão para regular a frequência do SEN (Sistema Eletroenergético Nacional)”.
Além disso, segundo Díaz-Canel, “nos próximos dias chegarão ao país os primeiros 100 veículos elétricos destinados ao serviço de hemodiálise”.
Conhece-se o custo humano que o aprofundamento do bloqueio teve, com suas consequências para a saúde, a educação, o transporte e as atividades nos centros produtivos da ilha.
“Isso provoca irritação na população porque afeta os serviços básicos”, descreveu. E lamentou “que haja pessoas que, em meio a esse mal-estar que pode ser legítimo, culpem a Revolução e o governo, o que é injusto, porque a culpa é do bloqueio energético”.
Outra medida anunciada pelo presidente é que será incentivada “a participação dos cubanos residentes no exterior na vida econômica do país”. O anúncio detalhado será feito na próxima segunda-feira pelo vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva Fraga, jovem deputado da Assembleia Nacional do Poder Popular com perfil técnico e voz emergente do governo em temas energéticos.
O dado que aponta com maior precisão para as conversas em curso entre Estados Unidos e Cuba está relacionado ao ataque sofrido por um navio da guarda costeira da ilha em 25 de fevereiro. O episódio resultou na morte de cinco integrantes de um grupo comando que tentava se infiltrar em território cubano e deixou um oficial local gravemente ferido. Outros membros da embarcação foram detidos e, segundo Havana, reconheceram que buscavam desestabilizar o governo. A embarcação estava registrada no estado da Flórida, nos Estados Unidos.
Díaz-Canel, citado pela agência de notícias cubana Prensa Latina, referiu-se a esse episódio e comentou uma possibilidade que teria sido impensável antes da abertura desse diálogo. Disse que seu país aguarda uma “possível visita” de um grupo de especialistas do FBI para participar do esclarecimento dos fatos junto ao Ministério do Interior.
Na longa coletiva, o presidente acrescentou que seu governo tomou a decisão de “libertar 51 pessoas condenadas à prisão, em consonância com a vocação humanista da Revolução”.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





