Por Roberto Liebgott, Cimi Sul – Equipe Porto Alegre.
Ao olhar o dia que se anunciava, refletido por pequenos fachos dos raios de sol, sobrepostos à suave brisa, quase fria – numa manhã de maio – dei-me conta de que “estavam faltando eles – Francisco e Pepe – e a saudade deles doía em mim”.
Dei-me conta de que as ideias no mundo circularão e se tornarão menos sensíveis, pois seus bons pensadores já não estão nessa dimensão.
Eles eram mensageiros da esperança, cativavam e alimentavam os ideais de bondade e justiça através de palavras, gestos, testemunhos e ensinamentos.
Dei-me conta de que eram sonhadores a nos provocar sonhos, a estimular a beleza da vida e a lutar contra os males dos homens – a ganância, acumulação, a exclusão, o egoísmo desmedido, o racismo estrutural, a xenofobia, o machismo, a intolerância de gênero e sexo.
Dei-me conta, todavia, de que os sonhos não morrem, persistirão, e de que sonhar “um sonho bom” é preciso, que os “sonhos não se sonham só”, são coletivos, comunitários e por causas comuns.
Lembrei-me da cultura e dos costumes dos Mbya Guarani, que têm os sonhos como condutores de vida e, inclusive, para ser ter um nome, que dará sentido à existência, é necessário que os Karaí, ou as Kunhã Karaí – líderes espirituais – sonhem.
Lembrei-me de que o sonho, nessa perspectiva, nunca será individualizado, já que compõe a cosmovisão, abriga o sagrado e o comunitário, portanto não é solitário, não se pode sonhar só – se sonha juntos.
Lembrei-me de que esse sonho vincula-se ao cotidiano da vida, à organização social, aos aprendizados, aos saberes, ele tem causa, mas nunca às individuais, mesquinhas e oportunistas
Lembrei-me de que o sonho do Karaí ou da Kunhã Karaí, que dará personalidade aos nascidos, exige a reciprocidade nas relações entre pessoas e as coletividades.
Ou seja, todos, de algum modo, participam, sem exceção, da ritualização da vida, a começar pelo preparo da terra na semeadura, cultivo e colheita do Milho Novo.
O Milho compõe, junto com o Petynguá – cachimbo sagrado – elemento essencial no ritual do batismo, que somente realizar-se-á depois do sonho.
O sonho, nesse ambiente sagrado, tem causa e corresponsabilidade, chamando a todos e todas para um puxirão – mutirão – na colheita das espigas compostas de boas sementes.
Elas serão entregues, por cada um e cada uma, no ritual que batizará e formará a criança, dando-lhe a condição de ser adulta e autônoma.
Este é o resultado do sonho de uma causa comum, quando a semente plantada não pode ser artificial, é imprescindível o cultivo da própria semente.
Aquela que é originária, deixada fértil pelos ancestrais, enquanto as híbridas, ou transgênicas, são estéreis, sufocam o sagrado e o modo de ser-viver Mbya Guarani.
Há, nesse contexto, uma certeza inquestionável: de que os sonhos irradiados, transmitidos e estimulados, não são inúteis, fazem compreender os caminhos da esperança.
Os Mbya Guarani orientam a que nunca se sonhe só, mas em mutirão, em torno de uma boa causa comum: o Bem Viver na Terra Sem Mal.
E, num tempo de partidas e despedidas, a saudade deles continuará a doer em mim! Mas virá, como sempre, o raiar de um outro dia, quando haverá de penetrar, pela janela de meu quarto, a suave brisa da manhã!
Porto Alegre (RS), 19 de maio de 2025.
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