Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.O ano de 1968 ocupa um lugar central na história das lutas democráticas no Brasil. Em meio ao endurecimento da ditadura empresarial-militar instalada após o golpe de 1964, estudantes, trabalhadores, artistas, intelectuais e diversos setores da sociedade civil passaram a protagonizar grandes mobilizações contra a repressão, a censura e a retirada das liberdades democráticas.
Um dos episódios mais marcantes desse período ocorreu em 21 de junho de 1968, data que ficou conhecida como a “Sexta-Feira Sangrenta”. Naquele dia, milhares de estudantes e trabalhadores ocuparam as ruas do centro do Rio de Janeiro para protestar contra a violência do regime. A resposta do governo foi brutal. A Polícia Militar, apoiada por outras forças repressivas, reprimiu violentamente os manifestantes. O saldo foi trágico: dezenas de feridos, centenas de presos e pelo menos 28 mortos, em um dos mais violentos massacres promovidos pela ditadura militar brasileira contra a população civil.
A revolta provocada pela repressão fortaleceu ainda mais o movimento democrático. Cinco dias depois, em 26 de junho de 1968, ocorreu a histórica Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. A manifestação reuniu cerca de cem mil pessoas em um protesto pacífico que exigia o fim da violência estatal, a restauração das liberdades democráticas e o respeito aos direitos humanos. O ato representou um dos maiores desafios públicos enfrentados pela ditadura até aquele momento.
O movimento estudantil esteve na linha de frente dessas mobilizações. Após o assassinato do estudante Edson Luís, em março de 1968, a indignação tomou conta das escolas e universidades. A juventude passou a denunciar a repressão, defender uma educação pública de qualidade e exigir participação democrática na vida política do país.
Passadas décadas, ainda persistem discursos que tentam desqualificar estudantes que se mobilizam por direitos sociais, chamando-os de “vagabundos”, “baderneiros” ou “inimigos da pátria”. Trata-se de uma narrativa historicamente utilizada por setores conservadores e autoritários para criminalizar a participação popular. O mesmo argumento foi empregado pela ditadura para justificar perseguições, prisões, torturas e assassinatos de jovens que ousavam questionar o regime.
A história demonstra exatamente o contrário. Os estudantes que enfrentaram a ditadura estavam entre os mais importantes defensores da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos sociais. Sua luta esteve profundamente conectada às reivindicações da classe trabalhadora, dos sindicatos e dos movimentos populares que resistiam ao autoritarismo.
A memória da Sexta-Feira Sangrenta e da Passeata dos Cem Mil permanece atual porque recorda que a democracia não é uma concessão dos poderosos, mas uma conquista construída pela mobilização coletiva. Defender o direito de organização, de manifestação e de acesso à educação pública continua sendo uma tarefa fundamental para todos aqueles que acreditam em uma sociedade mais justa, democrática e igualitária.
Indicações de leitura
1968: O Ano que Não Terminou – Zuenir Ventura.
Combate nas Trevas – Jacob Gorender.
Brasil: Nunca Mais.
A História do Sindicalismo Brasileiro nos Anos de Chumbo – Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.
Documentários
Cidadão Boilesen.
Hércules 56.
O Dia que Durou 21 Anos.
Filmes
Batismo de Sangue.
Pra Frente, Brasil.
Ainda Estou Aqui.
Marcos Aurélio Gomes Ribeiro – Professor de História Contemporânea do Brasil e pesquisador do movimento sindical e operário brasileiro.
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