A educação pública na mira: o autoritarismo contra o pensamento crítico

Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.
Ao longo da história, regimes autoritários compreenderam que dominar uma sociedade exige, antes de tudo, controlar a produção do conhecimento. Não basta perseguir adversários políticos; é preciso enfraquecer escolas, universidades, professores, pesquisadores, artistas e intelectuais. A censura à educação e à cultura sempre foi uma ferramenta para limitar a liberdade e impedir a formação de cidadãos críticos.
Na Alemanha nazista, Adolf Hitler transformou universidades em instrumentos de propaganda do regime. Professores considerados “indesejáveis” foram expulsos, presos ou obrigados ao exílio. Intelectuais judeus, socialistas, comunistas e democratas passaram a ser perseguidos. Em 10 de maio de 1933, milhares de livros foram queimados em praças públicas, simbolizando a tentativa de destruir o pensamento livre e substituir a ciência pela obediência ao Estado. As Ciências Humanas foram submetidas ao controle ideológico, enquanto a História, a Filosofia e a Sociologia passaram a servir aos interesses do nazismo.

A perseguição à educação crítica foi um dos pilares da consolidação do regime nazista. O objetivo era impedir que a população desenvolvesse instrumentos para questionar o autoritarismo, o racismo e a violência institucional. Onde o pensamento crítico desaparece, a democracia perde espaço para a intolerância.
Essa experiência histórica permanece atual. Sempre que governos ou movimentos políticos atacam professores, universidades, intelectuais e pesquisadores, procuram também enfraquecer a capacidade da sociedade de refletir criticamente sobre sua realidade.
No Brasil, durante o governo de Jair Bolsonaro, a educação pública, as universidades federais, a produção científica e os setores da cultura tornaram-se alvo de frequentes ataques políticos. Houve cortes orçamentários que afetaram instituições de ensino e pesquisa, críticas constantes às Ciências Humanas, questionamentos à autonomia universitária e acusações recorrentes de “doutrinação ideológica” dirigidas a professores. Artistas, pesquisadores e intelectuais também passaram a ocupar o centro de uma intensa disputa política e cultural. Diversas entidades científicas, universidades e organizações da sociedade civil manifestaram preocupação com os impactos dessas iniciativas sobre a liberdade de pesquisa, a liberdade de cátedra e a produção do conhecimento.
As Ciências Humanas não ensinam o que pensar, mas como pensar. História, Filosofia, Sociologia e Geografia desenvolvem a capacidade de interpretar documentos, confrontar versões dos fatos, compreender as desigualdades sociais e defender os direitos humanos. São disciplinas fundamentais para formar cidadãos capazes de resistir ao negacionismo, à desinformação e às diversas formas de autoritarismo.
Defender uma educação pública, gratuita, crítica e laica é defender a democracia. Garantir a autonomia universitária e a liberdade de cátedra dos professores significa assegurar que o ensino e a pesquisa possam ser desenvolvidos sem censura, perseguições políticas ou intimidações ideológicas.
A história demonstra que o autoritarismo começa perseguindo ideias antes de perseguir pessoas. Começa censurando livros antes de prender escritores. Começa atacando professores antes de silenciar toda a sociedade. Defender a educação pública é defender a liberdade, a ciência, a cultura e o direito de cada cidadão pensar por si mesmo.
“A educação pública, crítica e laica é uma das maiores conquistas da democracia. Onde livros são censurados, professores perseguidos e o pensamento crítico criminalizado, a liberdade corre o risco de se transformar apenas em lembrança. Defender a escola pública é defender o futuro da democracia.”
 Livros:
Pedagogia da Autonomia (Paulo Freire): Obra fundamental do patrono da educação brasileira. Nela, o autor reflete sobre o ensino como um ato político, defendendo o rigor crítico, o diálogo e a recusa ao autoritarismo e às lógicas que limitam a liberdade do sujeito.
Diálogos Interdisciplinares sobre a Personalidade Autoritária e a Educação: Uma análise potente que utiliza a Teoria Crítica (como os estudos de Theodor Adorno) para questionar as formas contemporâneas de dominação, os discursos autoritários e a racionalidade técnica.
Educar Para Que: Contra O Autoritarismo Da Relação Pedagógica Na Escola (Reinaldo Matias Fleuri): Questiona de forma direta as práticas tradicionais que impõem o poder de forma arbitrária e discute como construir relações pedagógicas baseadas no respeito e na emancipação.
 Documentários:
Escola Sem Censura (Ricardo Severo e Rodrigo Duque Estrada): Aborda o avanço das pautas conservadoras no Brasil e narra o processo de perseguição, vigilância e censura sofrido por professores que tentam debater a realidade com seus alunos.
A Educação Proibida (Germán Doin): Um manifesto visual que critica fortemente o modelo tradicional de ensino (herança prussiana). Ele expõe como a imposição de regras padronizadas sufoca a criatividade e o pensamento livre, e propõe práticas mais humanas.
A Escola Toma Partido (Carlos Pronzato): Analisa criticamente o movimento “Escola Sem Partido”, discutindo os riscos da censura em sala de aula e a tentativa de esvaziar a escola de seu papel democrático, plural e político.
Nunca Me Sonharam: Mostra o cotidiano e as aspirações de jovens do ensino médio da rede pública brasileira. O filme é um retrato sensível sobre quem são os alunos e as tensões que enfrentam diante de um sistema educacional muitas vezes engessado e distante de suas realidades.
Filmes:
A Onda (2008): Uma dramatização baseada em um experimento real onde um professor, para ensinar sobre autoritarismo a seus alunos, cria um movimento com regras rígidas de disciplina e união. O filme ilustra, de forma assustadora, como o fascismo e o pensamento cego podem se instalar rapidamente em uma comunidade escolar.
Escritores da Liberdade (2007): Baseado em fatos reais, mostra uma professora em uma escola marcada por violência e tensões raciais. Ela enfrenta a resistência do próprio sistema escolar ao abandonar os métodos tradicionais e dar voz aos alunos, transformando a escrita em um instrumento de resistência.
Sociedade dos Poetas Mortos (1989): Um clássico que retrata um professor de literatura que utiliza métodos não convencionais em um colégio tradicional e repressor. Ele inspira seus alunos a pensarem por si mesmos e a desafiarem o conformismo imposto pela instituição e pelas famílias.
Marcos Aurélio Gomes Ribeiro é professor de História contemporânea do Brasil e Pesquisador do movimento sindical e Operário brasileiro.

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