Por Nacho Ibáñez.
Em um comunicado lido à imprensa, o secretário-geral da Presidência, Oumar Samba Ba, anunciou, em 22 de maio, a demissão de todos os ministros do governo do Senegal, incluindo o primeiro-ministro Ousmane Sonko.
Dois dias depois, o presidente Bassirou Diomaye Faye confirmou a nomeação de Ahmadou Al Aminou Mohamed Lo como novo primeiro-ministro. Longe de ser uma simples mudança de gabinete, a decisão simboliza a ruptura definitiva da relação entre os dois líderes que conseguiram tirar Macky Sall do poder em 2024.
Após o anúncio da demissão, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar nas principais cidades do país, especialmente em Dakar. Muitos se dirigiram à residência de Sonko, que proferiu um discurso aos presentes, no qual procurou transmitir tranquilidade e declarou que “vamos arrasar”.
Enquanto isso, os manifestantes o aclamavam com gritos de “presidente”. Tudo isso parece evidenciar sua intenção de se candidatar às eleições presidenciais de 2029.
Sonko parece já estar se movendo nessa direção, e o primeiro passo foi assumir a presidência da Assembleia Nacional após a renúncia de Malick Ndiaye no domingo, 24 de maio.
Presumivelmente, Ndiaye teria renunciado ao cargo para facilitar a eleição de Sonko, um de seus aliados mais próximos. De fato, nesta mesma terça-feira, o parlamento elegeu Sonko como presidente da Assembleia Nacional graças ao apoio de 132 dos 165 deputados, sustentado tanto pela maioria absoluta de seu partido, Patriotas Africanos do Senegal pelo Trabalho, Ética e Fraternidade (PASTEF), quanto pelo forte controle político que ele mantém sobre a formação.
Com isso, não só se aprofunda a rivalidade entre Sonko e Faye, como também se revela uma divisão dentro do partido e a clara inclinação das bases e dos principais dirigentes por Sonko, seu líder e fundador.
Agora, o novo primeiro-ministro deverá ser aprovado por um parlamento no qual os partidários de Sonko são maioria. Por isso, Faye teria escolhido para o cargo alguém que também é próximo do próprio Sonko, pelo que resta saber se este último optará por uma via mais combativa ou se decidirá deixá-lo governar até as próximas eleições.
Faye e Sonko, da aliança ao confronto
Faye é presidente do Senegal desde abril de 2024, dias depois de ter saído da prisão por acusações de difamação e desacato. Sua eleição foi patrocinada pelo próprio Sonko, inelegível como candidato à presidência devido a várias condenações judiciais. No entanto, Faye não conta com o carisma e o apoio popular de Sonko, considerado um líder pan-africanista e anti-establishment.
O apoio de Sonko foi fundamental para entender a eleição de Faye, que posteriormente o nomeou primeiro-ministro. Com isso, formou-se uma dupla de governo que despertou grandes expectativas entre uma população senegalesa cansada do domínio político e econômico das elites.
A nomeação de Sonko suscitou sérias dúvidas sobre quem seria realmente o verdadeiro líder do país. Por esse motivo, o presidente senegalês tem tentado, neste período, demonstrar certa independência na tomada de decisões, o que alimentou o ressentimento mútuo até culminar em uma ruptura definitiva.
Assim, enquanto Faye representa uma postura mais pragmática e moderada, que prioriza políticas para tranquilizar o mercado e os investimentos estrangeiros, Sonko adota uma linha mais soberanista, rejeitando imposições externas e exigindo a renegociação da dívida e a revisão dos contratos de energia e mineração.
Embora as tensões tenham começado logo após a chegada ao poder, elas ganharam especial relevância no início de 2026, quando a ruptura começou a se tornar evidente. Em março, Faye alertou que o governo corria “risco de colapso”, embora tenha destacado que Sonko permaneceria no cargo enquanto continuasse “fazendo bem seu trabalho”.
Naquele mesmo mês, o agora ex-primeiro-ministro respondeu afirmando que, “se o presidente não estiver alinhado com seu partido”, o país entraria em uma situação de “divisão do poder brando” e que, “se ocorrer uma ruptura mais clara, voltaremos a ser um partido de oposição”. Dessa forma, ele não apenas destacava suas divergências com Faye, mas também demonstrava sua posição de liderança indiscutível e sua autoridade dentro do PASTEF.
Embora a decisão de destituir Sonko já tivesse sido tomada anteriormente, o golpe final teria ocorrido no próprio dia da destituição, quando ele proferiu um discurso na Assembleia Nacional no qual questionava abertamente as decisões do presidente e criticava ferozmente sua gestão dos fundos públicos.
Durante esse período, ambos também foram definindo suas posições em relação ao futuro político. Já em novembro de 2025, a Assembleia Nacional aprovou uma reforma do Código Eleitoral que reduzia os crimes que inabilitam um candidato, o que permitirá a futura candidatura de Sonko.
No entanto, em vez de sua aprovação definitiva, Faye solicitou ao parlamento uma revisão do texto para resolver certas ambiguidades, o que atrasou uma promulgação definitiva que agora se encontra mais em dúvida do que nunca. Por outro lado, Faye reativou nas últimas semanas a atividade política da coalizão “Diomaye presidente”, com marchas de apoio em várias localidades do país.
Nesse cenário, a ruptura entre as duas figuras abre um período de forte incerteza política no Senegal, no qual a estabilidade institucional dependerá da capacidade dos dois blocos de superar suas diferenças até as eleições de 2029.
A evolução dos acontecimentos sugere uma luta pelo poder dentro do PASTEF, com Sonko tentando reafirmar seu controle sobre a base militante, a estrutura do partido e o capital simbólico acumulado ao longo dos anos.
Com isso, ele consolidaria a percepção de que o projeto político continua girando em torno de sua figura, colocando Faye em uma posição de presidente formal, mas potencialmente condicionado pelo peso político de seu antigo mentor.

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