Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Uma das principais vitórias recentes da campanha internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) foi tema da entrevista concedida por Andressa Oliveira Soares ao programa JTT, apresentado por Raul Fitipaldi. Advogada, doutora em Direito Internacional pela USP e coordenadora para a América Latina e o Caribe do Movimento BDS, Andressa analisou o significado político da interrupção das exportações diretas de petróleo brasileiro para Israel, ao mesmo tempo em que alertou para os desafios que ainda permanecem.
A entrevista mostrou que o resultado não surgiu de uma decisão espontânea do Estado brasileiro, mas de uma intensa mobilização conduzida por organizações da sociedade civil, sindicatos petroleiros, pesquisadores e ativistas que denunciaram o papel do Brasil como um dos principais fornecedores de petróleo bruto ao Estado israelense desde 2023.
Segundo Andressa, a campanha ganhou força após uma investigação da organização Oil Change International revelar o crescimento das exportações brasileiras de petróleo para Israel apos 7 de outobro. A partir desses dados, o movimento BDS articulou iniciativas de pressão política, dialogou com o governo federal, promoveu campanhas públicas e contou com o apoio decisivo das federações nacionais dos petroleiros.
O esforço produziu um resultado concreto: os dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo divulgados em 2026 mostraram que, em 2025, o Brasil deixou de realizar exportações diretas de petróleo para Israel, interrompendo uma tendência de crescimento iniciada ainda durante o governo Bolsonaro e mantida nos primeiros anos do governo Lula.
Para a coordenadora do BDS, essa mudança demonstra que a pressão popular continua sendo capaz de alterar decisões políticas mesmo diante da resistência de setores do Estado.
Uma vitória ainda incompleta
Apesar do avanço, Andressa destacou que o movimento considera a conquista apenas parcial.
Ela lembrou que não existe um decreto oficial proibindo as exportações, como ocorreu na Colômbia, o que significa que a suspensão atual pode ser revertida a qualquer momento. O objetivo da campanha é transformar a interrupção prática em uma sanção formal do Estado brasileiro.
Na avaliação do BDS, esse tipo de medida não constitui uma sanção unilateral semelhante às impostas por grandes potências contra outros países, mas sim uma obrigação decorrente do Direito Internacional diante de situações reconhecidas pela comunidade internacional como plausíveis atos de genocídio.
Andressa também recordou que o próprio Brasil possui um precedente histórico: em 1985, durante o governo José Sarney, foi editado um decreto proibindo exportações de petróleo para a África do Sul em razão do apartheid. Para ela, esse precedente demonstra que medidas semelhantes podem ser adotadas novamente.
O desafio da triangulação
Outro ponto levantado durante a entrevista foi a possibilidade de empresas estarem utilizando países intermediários para mascarar o destino final do petróleo brasileiro.
Pesquisas conduzidas por organizações parceiras do movimento apontam suspeitas de operações conhecidas como triangulação comercial, nas quais o petróleo seria oficialmente vendido para outro país europeu antes de seguir para Israel.
Segundo Andressa, embora essa prática ainda esteja sob investigação, ela revela tanto a dificuldade de fiscalização quanto o impacto da campanha internacional, já que empresas seriam obrigadas a criar mecanismos mais complexos para manter o fornecimento.
O papel do Itamaraty
Questionada por Raul Fitipaldi sobre a atuação do Itamaraty, Andressa reconheceu que o Ministério das Relações Exteriores costuma adotar posições bastante conservadoras em temas ligados à Palestina.
Ela explicou, entretanto, que o movimento procura atuar simultaneamente em diferentes espaços institucionais — Executivo, Parlamento e sociedade civil — sem depender exclusivamente da diplomacia brasileira.
Na sua avaliação, nenhuma mudança estrutural ocorre apenas por negociações de gabinete. O fator decisivo continua sendo a mobilização social organizada, capaz de criar pressão política suficiente para influenciar decisões do Estado.
A extrema-direita e a causa palestina
Outro tema abordado foi o avanço da extrema-direita na América Latina.
Andressa afirmou que governos alinhados ao sionismo representam um dos principais desafios enfrentados atualmente pelo movimento BDS, citando como exemplo mudanças recentes na Colômbia e alertando para o fortalecimento de candidaturas brasileiras que defendem maior aproximação com Israel.
Para ela, organizações populares precisam fortalecer suas redes de resistência independentemente dos ciclos eleitorais, ampliando campanhas de boicote, solidariedade e defesa dos direitos humanos.
Também defendeu que candidaturas comprometidas com a democracia assumam posições claras sobre a Palestina, argumentando que a neutralidade diante do conflito acaba favorecendo a manutenção do status quo.
Comunicação também é território de disputa
Nos momentos finais da entrevista, Raul Fitipaldi chamou atenção para outro aspecto frequentemente ignorado: o bloqueio enfrentado por veículos independentes que realizam cobertura crítica sobre a Palestina.
O jornalista defendeu que a comunicação deveria integrar de forma mais explícita as campanhas do movimento BDS, denunciando mecanismos de censura, desmonetização e restrição de alcance impostos por grandes plataformas digitais.
Andressa reconheceu a importância da reflexão e destacou que diversas organizações e ativistas já enfrentam processos de criminalização, perseguições e tentativas de silenciamento em diferentes países.
Mobilização permanente
Ao encerrar a conversa, Andressa convidou o público a acompanhar as campanhas do BDS Brasil pelas redes sociais e participar das iniciativas organizadas pelo movimento.
A entrevista deixou claro que a interrupção das exportações diretas de petróleo representa uma conquista significativa para a campanha internacional de boicote. Ao mesmo tempo, evidencia que a consolidação dessa vitória dependerá da formalização de medidas estatais, da fiscalização sobre possíveis mecanismos de triangulação comercial e da continuidade da pressão exercida pela sociedade civil.
Mais do que celebrar um resultado específico, a dirigente do BDS apresentou a mobilização popular como elemento central para transformar avanços pontuais em mudanças permanentes na política externa brasileira em relação à Palestina.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:
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