Por Urda Alice Klueger.
Em 1970, eu vivia aquele maravilhoso tempo dos 18 anos. Nas rádios, ouvíamos Roberto Carlos e The Beatles, e a televisão acabara de chegar, trazendo as imagens da Guerra do Vietnã e do Movimento Hippie.
Foi bem aí que Zagalo montou uma Seleção como nunca haverá outra: Félix, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Carlos Alberto, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. (Estou surpresa! Escrevi o nome de todos eles de uma assentada só, sem parar para pensar! Ah! A importância que eles tiveram para o meu coração!)
Bem, como eu já disse, nunca mais haverá uma Seleção como aquela! Quem se lembra, se lembra: foram dias de total glória para a nossa alma brasileira!
Com dias de antecipação, para se ambientar à altitude, nossa Seleção seguiu para a Cidade do México, e quando a Copa começou, deixou-nos, a nós, pobres mortais, sacralizados de prazer com a sua atuação em campo. Era uma Seleção que jogava com a leveza com que se dançam balés, com a esperteza que têm os mágicos, com uma beleza e uma graciosidade que o mundo ainda não conhecia. A cada partida, pura Arte acontecia nos gramados mexicanos, e tínhamos o prazer de ver tudo acontecer numa Copa do Mundo, ao vivo pela primeira vez, através da telinha que, naquele ano, adentrara a quase todos os lares.
Estavam eles lá longe; torcíamos dentro das nossas casas – mas não ficaram eles muito tempo sem a grande torcida ao vivo que mereciam: nuestros hermanos mexicanos, tão logo foram desclassificados, passaram, decididamente, a torcer pelo Brasil, com corpo, alma e olas, e até hoje tenho o maior carinho pelo povo mexicano, por causa do seu apoio incondicional à nossa Seleção, naquela época.
Trinta e dois anos depois, lembro de cada partida, de quase todos os resultados. Sem dúvida, os jogos mais difíceis foram contra a Inglaterra (1 x 0 para nós, gol de Jairzinho), Uruguai e Itália. Sofríamos terrivelmente a cada jogo, mas por pouco tempo: logo aparecia no campo um furacão chamado Jairzinho, que subia pela ponta direita com tal impetuosidade que não havia inimigo que o contivesse, e não parava enquanto a bola não estivesse balançando as redes do adversário. E a cada jogo o balé de beleza e leveza se renovava, e nós, em plena ditadura, podíamos respirar fundo e esquecer dos problemas, e ser absurdamente felizes sob as bênçãos daqueles onze anjos bailarinos, que resgatavam para nós a alegria de viver e a dignidade de um povo.
Como eu já disse lá no começo, nunca mais haverá uma Seleção como aquela! Ela nos trouxe o tricampeonato mundial de futebol, mas não foi só isso: ela nos trouxe prazer, alegria, beleza, emoção e, nos nossos corações, tornou-se inolvidável. Com certeza, o meu mundo e a minha vida ficaram muito mais bonitos depois daqueles dias de orgástico encantamento!
Blumenau, 28 de abril de 2002.
Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutora em Geografia.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





