Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Os ativistas argentinos Paula Giménez e Lucas Aguilera, recém-liberados após dias de detenção na Líbia, relataram em entrevista à rádio argentina AM 530 os acontecimentos que viveram durante a missão do Comboio Terrestre Sumud Magreb.
O grupo reunia cerca de 500 voluntários de diversos países. O objetivo era transportar ambulâncias, medicamentos, equipamentos médicos e ajuda humanitária por via terrestre até Gaza. Segundo os organizadores, tratava-se de uma iniciativa estritamente civil e pacífica.
Prisão violenta e incomunicabilidade
De acordo com os relatos, a detenção ocorreu quando a caravana aguardava negociações em um posto de controle. Os ativistas afirmam que homens sem identificação cercaram os veículos, utilizaram violência física, confiscaram passaportes, medicamentos, equipamentos e todo o material transportado.
Após a prisão, os integrantes do comboio foram separados, interrogados sem a presença de advogados ou tradutores independentes e obrigados a assinar documentos em árabe cujo conteúdo desconheciam.
Segundo os depoimentos, os primeiros dias transcorreram em absoluto isolamento, sem qualquer contato com familiares, advogados ou autoridades consulares.
Celas, greves de fome e denúncias
Os entrevistados descrevem condições extremamente precárias de detenção: celas pequenas, superlotação, ausência de higiene, privação de comunicação e incerteza sobre o próprio destino.
Como forma de protesto, os presos iniciaram duas greves de fome. A segunda teria durado quatro dias sem ingestão de água nem alimentos, provocando desmaios, convulsões e graves quadros de hipoglicemia entre alguns detidos.
Somente após a repercussão internacional e a mobilização de organizações de direitos humanos os ativistas afirmam ter conseguido estabelecer os primeiros contatos com representantes consulares.
Geopolítica por trás da detenção
Para Lucas Aguilera e Paula Giménez, a prisão ultrapassou uma simples ação policial. Eles acreditam que a retenção do grupo foi utilizada como instrumento de negociação política em meio às complexas disputas envolvendo o leste da Líbia, o Egito, a Turquia e países europeus.
Segundo os ativistas, diplomatas chegaram a afirmar que o caso havia adquirido uma dimensão geopolítica, tornando-se parte das relações internacionais na região.
Os entrevistados também sustentam que o bloqueio à ajuda humanitária começa muito antes das fronteiras de Gaza, envolvendo pressões exercidas sobre diferentes governos para impedir a chegada de missões civis.
A ajuda humanitária transformada em ameaça
Durante os interrogatórios, Lucas Aguilera, médico veterinário, afirma ter explicado que o grupo levava inclusive medicamentos veterinários e um plano sanitário voltado à recuperação da produção agrícola e pecuária palestina.
Segundo ele, a destruição de plantações de oliveiras e de rebanhos compromete não apenas a economia palestina, mas também sua identidade cultural e sua segurança alimentar.
Para os integrantes do comboio, criminalizar missões humanitárias representa uma inversão de valores: enquanto armamentos atravessam fronteiras com relativa facilidade, ambulâncias, alimentos e medicamentos passam a ser tratados como ameaça.
Mobilização internacional
Os ativistas atribuem sua libertação à intensa pressão internacional promovida por movimentos sociais, organizações de direitos humanos, familiares e campanhas realizadas em diversos países.
Na avaliação deles, a solidariedade internacional foi decisiva para romper o silêncio que cercava sua prisão e garantir sua posterior deportação.
O episódio amplia o debate sobre as dificuldades enfrentadas por iniciativas civis que tentam levar assistência humanitária à população de Gaza e evidencia como a crise humanitária palestina permanece inserida em uma complexa disputa geopolítica que ultrapassa em muito as fronteiras do território palestino.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo

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