Por François Dubet.
O desprezo não é apenas mais um sentimento, mas o combustível das forças de direita que ameaçam a democracia. Sutil e maleável, ele se espalha pela sociedade, atravessando classes, gêneros e geografias. Compreender seu funcionamento é fundamental para evitar seus efeitos devastadores sobre o tecido social.
Multiforme e contraditório, o sentimento de desprezo ultrapassa o mero desprezo de classe e se transforma na energia emocional das forças e dos movimentos que ameaçam as democracias. De fato, o desprezo (ou aquilo que entendemos como tal) está em toda parte. Ele neutraliza as críticas à exploração, eixo central do pensamento e da ação das esquerdas, que há algum tempo vêm sendo ameaçadas pelos populismos.
Não há greve, mobilização, manifestação ou pesquisa de opinião que não denuncie o desprezo dos dirigentes e das elites. “Motoristas, estão mentindo para vocês! Cidadãos, eles os desprezam!”, proclamava uma faixa dos Coletes Amarelos. O sentimento de desprezo surge e se desenvolve não apenas entre aqueles que são evidentemente mais dominados e discriminados. Categorias inteiras são desprezadas — professores, profissionais da saúde, agricultores — assim como minorias, moradores de bairros populares e de territórios esquecidos. Os eleitores são desprezados, assim como os “franceses tradicionais” que veem seu mundo desaparecer, e também os telespectadores que aderem às denúncias contra o “desprezo das elites”.
Cada um de nós pode sentir-se desprezado quando a administração pública carece de poder ou quando é poderosa demais, complicada, lenta, intrusiva ou distante. Somos desprezados quando humoristas nos ofendem ou quando se autocensuram para não ofender ninguém. Evidentemente, partidos políticos e movimentos sociais impulsionam esses sentimentos de desprezo. Denunciamos o desprezo dos cidadãos ao mesmo tempo em que desprezamos nossos adversários. O desprezo e a raiva se aglutinam na diatribe contra as elites, os “especialistas”, os “intelectuais” ou os “ricos”. Na política, o desprezo é maleável. Pode ser de direita ou de esquerda: tudo depende de suas vítimas, de seus autores e dos partidos que o mobilizam.
Desprezados e desprezadores
O sentimento de desprezo consegue se insinuar justamente porque se baseia em mecanismos sutis. Mantém a distância sem insultar e sem odiar. Instala-se sem agressividade. Como não precisa de justificativas, pode expressar-se em um gesto, em um olhar ou até mesmo em uma cortesia “excessivamente amável para ser sincera”. A pessoa desprezada sabe que está sendo desprezada, mas ao mesmo tempo corre sempre o risco de parecer paranoica ou perseguida se disser isso em voz alta. O desprezo é mais ativo que a desconsideração, que simplesmente deixa de ver. “A desconsideração é a borracha; o desprezo é o lápis”, escreveu Christian Vigouroux.
O desprezo olha nos olhos; mas é preciso reconhecer que a diferença é muito sutil, pois sou desprezado quando me veem demais ou me veem mal, mas também quando sou invisível. Estejamos do lado do desprezado ou do desprezador — frequentemente de ambos ao mesmo tempo —, o desprezo é um sentimento íntimo e inconfessável. É uma emoção corrosiva. O desprezo é pior do que o ódio, porque ignora seu objeto, enquanto o ódio o reconhece e frequentemente lhe concede mais poder do que ele possui. Sua força é ainda mais estranha porque, nas sociedades democráticas, constitui uma ameaça ao princípio da dignidade igualitária entre as pessoas. Apesar das desigualdades sociais, ninguém deveria desprezar ninguém. “Eu o condeno”, diz o juiz; “Eu lhe dou uma ordem”, diz o chefe; “mas não o desprezo”.
As feridas do desprezo jamais cicatrizam. Sem mencionar os relatos dos chamados “desertores de classe”, que se tornaram um verdadeiro gênero literário, podemos citar Balzac, Céline, Flaubert, Maupassant, As Palavras de Sartre e centenas de romances, filmes e entrevistas. O desprezo é uma emoção profunda, violenta e perversa porque se expressa discretamente: um silêncio ou um comentário sobre a roupa, a maneira de falar ou o sotaque. Podemos sentir-nos vítimas de sexismo, racismo ou desprezo de classe sem jamais termos sido agredidos diretamente, assim como podemos desprezar alguém sem sequer desejá-lo conscientemente. Por meio das redes sociais e da internet, o desprezo e as irritações íntimas ganham acesso ao espaço público.
Embora nada indique com certeza que sejamos mais desprezados hoje do que ontem, é provável que o encontro entre a busca por reconhecimento e as redes sociais tenha transformado o desprezo em uma das emoções mais banais e mais denunciadas da atualidade. Mas o desprezo não é apenas íntimo; é também uma emoção coletiva e uma paixão política. Na França, os Coletes Amarelos e os manifestantes que rejeitaram a reforma previdenciária consideram-se desprezados. Após as eleições legislativas de julho de 2024, a manchete do jornal Libération foi simplesmente: “O Desprezo”. Os eleitores da extrema-direita de Marine Le Pen sentem-se desprezados, assim como os militantes da esquerda da Frente Popular. As mulheres e as pessoas LGBT afirmam que suas vozes são desprezadas, tal como os habitantes das periferias e das áreas rurais.
Esse reinado do desprezo é ainda mais surpreendente porque os dirigentes se esforçam para não dar a impressão de desprezar ninguém. Sua comunicação é controlada e sua imagem é construída por profissionais que buscam aproximá-los da população. No entanto, não há protesto em que o desprezo não seja denunciado. O presidente francês Emmanuel Macron — jovem, altamente instruído, rico e tão seguro de si que parece arrogante — simboliza essa civilização do desprezo. Uma de suas frases mais conhecidas foi: “Uma estação de trem é um lugar onde se encontram pessoas que tiveram sucesso e pessoas que não são ninguém”.
Podemos nos consolar comparando os dirigentes franceses, relativamente civilizados, com líderes como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei ou Viktor Orbán, que transformaram o insulto e a agressão em argumentos políticos cotidianos, em nome do desprezo que seus eleitores alegadamente sofrem. Mas o fenômeno não se limita à direita. Líderes progressistas também foram acusados de desprezar eleitores da extrema-direita, considerados “enganados” ou “deploráveis”, como sugeriram Hillary Clinton e Joe Biden.
O desprezo se propaga para além das divisões entre classes sociais, gêneros e identidades culturais porque é menos um vínculo social do que uma corrente de emoções. Cada pessoa é simultaneamente desprezada e desprezadora. Aqueles que sofrem desprezo frequentemente desprezam outros para recuperar alguma dignidade. Os líderes políticos desprezam os eleitores, mas também são desprezados por eles. Os diplomados desprezam os derrotados pela seleção escolar; mas os professores são desprezados pelos ministérios, pela mídia, pelos pais e pelos alunos. Trabalhadores pouco qualificados são desprezados pelas elites, mas não raro desprezam estrangeiros ainda mais pobres do que eles. Mulheres e minorias são desprezadas por homens brancos que, por sua vez, sentem-se desprezados e esquecem seus privilégios. É nesse terreno que Trump mobiliza homens contra mulheres, brancos contra migrantes e não diplomados contra as elites.
Uma sociologia do desprezo
O desprezo alimenta o ressentimento e fragmenta a sociedade, na qual cada indivíduo acaba sendo simultaneamente desprezado e desprezador. Ele corrói a democracia, especialmente quando observamos o quanto regimes autoritários e demagógicos alimentam constantemente as paixões mais tristes. O reino do desprezo não desaparecerá com uma simples mudança de governo, pois deriva de transformações profundas da estrutura social, dos regimes de desigualdade, das mutações culturais e da própria definição da subjetividade dos indivíduos. Uma sociologia do desprezo deve ser uma sociologia geral, pois o desprezo cristaliza o encontro entre relações de dominação e concepções culturais sobre o que um indivíduo deveria ser. Ele é o reflexo negativo do funcionamento de nossas sociedades.
O desprezo de classe continua existindo, mas o crescimento desse sentimento decorre paradoxalmente do longo esgotamento da sociedade industrial e das relações de classe que a estruturavam. Diferentemente da antiga classe trabalhadora, os novos proletários já não estão protegidos por um sentimento de orgulho coletivo nem por identidades compartilhadas. Não são mais vistos como o núcleo da sociedade nem como os protagonistas da transformação histórica.
Sentem-se desprezados aqueles que percebem apenas a passagem do trem da história, permanecendo à margem das grandes cidades, dos setores dinâmicos da economia, da inovação e das novas competências. Sentem-se excluídos das mudanças, da globalização e das novas tecnologias. Já não encontram abrigo no Estado-nação ao qual antes recorriam.
Também se sentem desprezados os profissionais de instituições cuja autoridade está em declínio. Na França, o professor da Terceira República não recebia salários elevados, mas possuía prestígio e autoridade. De certo modo, encarnava a República. Hoje, essa autoridade simbólica está em declínio. Assim, educadores sentem-se desprezados não necessariamente porque o sejam de fato, mas porque passaram a ser trabalhadores assalariados como quaisquer outros. O mesmo processo atinge profissionais da saúde e do trabalho social. As vocações associadas ao progresso, à nação, ao sacrifício e à emancipação passaram a ser vistas apenas como profissões mais ou menos qualificadas.
Feridas narcísicas
O reinado do desprezo não se explica apenas pelas transformações da estrutura social e das instituições. Ele também resulta da profunda mutação das subjetividades. Quanto mais se exige que os indivíduos sejam livres, autônomos, responsáveis e singulares, mais eles se sentem ameaçados pela possibilidade de serem desprezados caso fracassem. Quando não conseguem corresponder aos próprios projetos, sua autoestima se deteriora e a sensação de desprezo aumenta. Nesse caso, o desprezo decorre menos da desintegração das antigas formas de integração social do que da valorização extrema do indivíduo e das provas que ele deve enfrentar. As redes sociais intensificam esse processo, pois incentivam a exposição pública ao mesmo tempo em que ampliam o julgamento alheio.
“Desprezam-me porque minha verdadeira identidade não é reconhecida.” Diante da legítima necessidade de reconhecimento, corre-se o risco de entrar numa guerra silenciosa de identidades, na qual até mesmo grupos majoritários e dominantes se sentem ameaçados quando deixam de ser a norma cultural, sexual ou religiosa. Quando sua posição deixa de parecer natural, sentem-se desprezados por um “wokismo” muitas vezes imaginário, e esse sentimento impulsiona alianças entre conservadorismo cultural e liberalismo econômico radical.
Com frequência, o desprezo corrói e denuncia, mas não age; não transforma indignação em responsabilidade. Assim, busca-se vingança contra o “sistema”, e muitos meios de comunicação e intelectuais tornam-se porta-vozes desse ressentimento. Embora não possa ser reduzido ao ressentimento ou à discriminação, é evidente que o desprezo constitui a emoção central dos partidos de estilo populista, que procuram construir um “povo” definido ?????? de tudo por seus inimigos, em vez de por reivindicações, conflitos e projetos negociáveis.
O desprezo é o combustível dos demagogos e dos tiranos. Seu reinado pode conduzir ao pior, como já ocorre em muitos países. Quem se sente desprezado busca vingar-se daqueles que o desprezam, mesmo que isso implique defender verdades alternativas em nome do “respeito” devido a cada indivíduo. Por que minha opinião sobre física quântica ou citomegalovírus seria menos respeitável — e, portanto, menos válida — do que a dos cientistas? Contudo, o desprezo também pode impulsionar a ação, o protesto e a crítica. Parafraseando o historiador Eric Hobsbawm, ele pode ser a energia dos “rebeldes primitivos”. A questão é saber como transformá-lo em uma força democrática. Para isso, é preciso compreender essa emoção sem tomá-la como a voz autêntica do povo ou de qualquer indivíduo indignado. É necessário explicar como ela se forma e como funciona, para tentar controlar seus efeitos devastadores.
François Dubet é sociólogo francês e autor de diversas obras sobre desigualdade, justiça social e democracia.
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