
Tem uma lógica perversa em transformar o cuidado com quem não tem onde dormir em fonte de renda. Mas é exatamente isso que a Polícia Civil afirma ter encontrado dentro da Secretaria de Assistência Social da gestão Topázio Neto. Abrigo, comida, atendimento de saúde, o mínimo dos mínimos pra quem vive na rua de Florianópolis, teria virado peça de um esquema de corrupção. A Operação Backstage, na segunda fase desde terça-feira (23), mira justo aí: no último fio de proteção dos que já não têm quase nada
A investigação, tocada pela 1ª Delegacia de Combate à Corrupção da DEIC, aponta que um chamamento público teria sido desenhado sob encomenda. O destinatário era a Associação Alberto de Souza, que ficaria com a gestão da Passarela da Cidadania e do Restaurante Popular. Já os concorrentes, teriam levado pareceres falsos, só pra constar que houve disputa. Em junho de 2025, a entidade favorecida assinou um primeiro contrato de R$ 3,3 milhões por 90 dias. Logo depois, outro e desta vez de quase R$ 21 milhões, por um ano. A Justiça afastou 13 pessoas e suspendeu 15 contratos. Os investigados respondem por falsidade ideológica, tráfico de influência, corrupção e organização criminosa.
A Operação Backstage, em termos mais entendíveis, é filha da Operação Pecados Capitais, que desde 2024 vasculha a gestão dos serviços sociais da cidade e já prendeu Marcos André Pena Ramos, pastor da Igreja Batista Creia (antiga Igreja Batista Central do Kobrasol) e Jeferson Amaral da Silva Melo, ex-secretário adjunto de Assistência Social de Florianópolis (entre 2020 e 2023).
A entidade da vez substituiu outras duas: NURREVI (Núcleo de Recuperação e Reabilitação de Vidas) e AMINC (Associação de Assistência Social e Educacional Amor Incondicional), que também já tinham entrado na mira. Ou seja: muda a sigla na fachada, enquanto o método continua o mesmo. A assistência aos mais pobres operando menos como política pública e mais como mercado cativo para quem orbita o poder municipal.
A saída na hora certa
Aí entra o detalhe de calendário que a prefeitura vai ter que explicar. No dia 12 de junho, onze dias antes da operação, a secretária Luciane dos Passos pediu pra sair. A versão oficial fala em transferência para a Defesa Civil do Estado, onde ela é servidora. Mas os bastidores que a imprensa local ouviu já apontavam outra coisa: insatisfação da cúpula da prefeitura com a gestão dela, sobretudo no atendimento à população em situação de rua. Justamente a área no centro da investigação.
E aqui é preciso ter cuidado. A pergunta que importa não é sobre culpa: nenhuma fonte aponta Luciane como investigada, e sugerir o contrário seria leviano. A pergunta é sobre o que se sabia. Quem no topo da prefeitura sabia o que vinha pela frente? Sair de consciência tranquila é uma coisa. Sair limpo de um esquema montado sob a própria gestão é outra, e essa resposta não cabe à secretária, mas sim à investigação.
No lugar dela assumiu, em caráter temporário, o até então adjunto Raphael Martins, presidente do partido Republicanos na Capital. Mais uma cadeira preenchida pela velha lógica do loteamento partidário que organiza a gestão Topázio, onde a Assistência Social tramita dentro do “clube do bolinha”. Vale o registro, pra não pairar dúvida: nenhuma fonte pública nomeia os servidores afastados, e o “secretário adjunto” citado pela polícia não foi vinculado a nome nenhum até o fechamento desta matéria.
O que ainda falta responder
Procurada, a Prefeitura de Florianópolis disse que ainda não teve acesso ao processo e que vai se manifestar quando souber mais. A Associação Alberto de Souza não respondeu até a publicação. O espaço continua aberto pras duas.
Enquanto isso, a cidade fica com as perguntas penduradas. Por que os serviços para quem vive na rua viram, de novo e de novo, palco de suspeita de desvio? Quantos contratos ainda serão assinados antes que o chamamento público em Floripa deixe de ser só uma formalidade de fachada? E quanto do dinheiro que deveria chegar a quem não tem onde dormir terminou no lugar errado?
Esta reportagem aguarda atualizações conforme o Diário Oficial do Município publicar os atos de afastamento e novas informações forem confirmadas.
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