No dia 17 de junho, Irã e EUA assinaram oficialmente o Memorando de Entendimento de Islamabad, conforme nomenclatura do governo de Teerã. Pelos Estados Unidos, o presidente Donald Trump assinou o documento eletronicamente; pela República Islâmica do Irã, o presidente Masoud Pezeshkian também assinou o documento de forma digital. Pelo país mediador (Paquistão), o Primeiro-Ministro Shehbaz Sharif, assinou e endossou formalmente o memorando na qualidade de mediador oficial do conflito.
Não se sabe se o entendimento irá progredir, já que o presidente dos EUA mente até pelos cotovelos e muda de ideia várias vezes ao dia. Além do fato de que a agressão ao Irã compõe uma estratégia mais geral dos EUA, de ataque aos BRICs, mirando principalmente seus principais inimigos, China e Rússia. Mas a análise cuidadosa dos 14 pontos do memorando é a prova cabal de que o Irã impôs uma derrota total aos EUA, ainda que não definitiva. Na prática, este memorando preliminar atua como um cessar-fogo imediato e estabelece um roteiro diplomático. Os pontos mais críticos envolvem:
- O fim das hostilidades militares diretas e indiretas (incluindo o Sul do Líbano).
- A liberação do tráfego comercial de petróleo e a retirada das minas no Estreito de Ormuz.
- A criação de um fundo de reconstrução de pelo menos US$ 300 bilhões para o Irã.
- O compromisso do Irã de não desenvolver armas nucleares, mantendo o status quo de seu enriquecimento atual até o tratado definitivo.
A partir da assinatura formal, iniciou-se uma janela de 60 dias para que as equipes técnicas e diplomáticas de ambos os países negociassem os detalhes mais complexos e sensíveis, visando a redação e aprovação do tratado de paz definitivo, que deverá ser chancelado pelo Conselho de Segurança da ONU. O acordo é previsto para duas etapas. Nos primeiros trinta dias, está previsto o alívio das sanções e o pagamento de pelo menos metade do dinheiro devido ao Irã de bens confiscados.
O montante total de recursos iranianos bloqueados no exterior e o mecanismo utilizado para o seu congelamento envolvem uma complexa teia de sanções econômicas e geopolíticas. O valor total dos ativos do Irã retidos no exterior é estimado em cerca de US$ 120 bilhões. Os dados variam a partir das fontes, mas o valor mínimo é US$ 100 bilhões. O que é uma verdadeira fortuna, considerando que o PIB do Irã em 2025 foi de aproximadamente US$ 356,51 bilhões.
Esse é o montante total estimado em ativos líquidos, ou seja, dinheiro em espécie depositado em contas bancárias internacionais, decorrente principalmente de vendas de petróleo e gás natural que o Irã realizou antes do endurecimento das sanções. Esse dinheiro pode ser movimentado quase imediatamente se houver autorização. Tem outra parte em ativos imobilizados, ou seja, recursos que estão na forma de imóveis, propriedades e fundos de investimento de longo prazo que estão congelados há décadas, praticamente desde a Revolução de 1979, e que têm recuperação muito mais complexa. Ao nível do Memorando de Islamabad, o Irã exigiu inicialmente a liberação de US$ 24 bilhões, com liberação imediata de cerca de US$ 12 bilhões, visando aliviar uma dramática crise cambial e econômica interna.
A maior parte do dinheiro confiscado não está guardada em bancos dentro dos Estados Unidos, mas sim em instituições financeiras de países parceiros comerciais do Irã. O bloqueio ocorre por meio de um mecanismo conhecido como sanções secundárias. Por exemplo, o Irã vendeu grandes volumes de petróleo e gás para nações como China, Índia, Coreia do Sul, Japão e Iraque. Os pagamentos foram depositados em contas bancárias desses respectivos países compradores, que agora estão com dificuldades para transacionar com o Irã.
Como é conhecido, quase todas as transações internacionais de grande porte dependem do sistema de compensação em dólar e de bancos que possuem filiais ou negócios nos EUA. O Departamento do Tesouro dos EUA notifica os bancos estrangeiros de que, se eles processarem ou transferirem qualquer valor para o governo do Irã, serão completamente banidos do sistema financeiro americano e perderão o direito de transacionar em dólares. Diante da escolha entre manter o acesso ao gigantesco mercado americano (baseado no dólar) ou liberar os fundos do Irã, as instituições financeiras internacionais optam por congelar os recursos iranianos em suas contas.
A imensa maioria do dinheiro bloqueado está retida desde 2018. Foi o ano em que o governo dos EUA se retirou unilateralmente do acordo nuclear de 2015 (JCPOA) e restabeleceu sanções severas sobre o setor energético e financeiro do Irã, impedindo o país de repatriar o dinheiro de suas exportações de petróleo. Os fundos líquidos do Irã estão distribuídos principalmente entre a China (maior volume, acumulados pela compra contínua de petróleo iraniano ao longo dos anos), Coreia do Sul (cerca de US$ 7 bilhões em contas de bancos sul-coreanos), Catar (cerca de US$ 6 bilhões), mais Iraque, Índia e Japão, que também acumulam bilhões de dólares em contas locais referentes a pagamentos de importação de energia que nunca puderam ser enviados a Teerã.
É reconhecido pela maioria dos analistas que dificilmente o acordo vai progredir, porque o seu sucesso (mesmo não alcançando a totalidade das cláusulas) significaria uma humilhação completa para os EUA. No entanto, independentemente do que ocorrer, a existência em si do memorando significa uma grande reviravolta geopolítica no Oriente Médio, com o Irã emergindo como a grande potência regional. Essa constatação é fruto do que aconteceu na realidade do terreno da guerra. O império norte-americano – que em 2025 gastou mais em defesa do que os 6 países seguintes somados, incluindo China e Rússia – juntamente com o seu “porta-aviões”, Israel, apostou tudo contra o Irã, ficando inclusive sem munições. E o país persa resistiu bravamente. A resistência iraniana combinou valentia extrema com fina inteligência estratégica, fruto de milênios de guerras e dificuldades as mais variadas.
Se a guerra for retomada a situação iria ficar cada vez mais difícil para os EUA, principalmente pelo seu impacto na economia mundial, elemento chave da estratégia do Irã, ao controlar o Estreito de Ormuz. Donald Trump, declarou no dia da assinatura do memorando que as reservas estratégicas de petróleo dos EUA (SPR) durariam cerca de 4 semanas. Nesse caso Trump não estava mentindo: várias outras fontes reportaram que o SPR se esgotaria na primeira ou segunda semana de julho.
Os EUA estão usando todo o seu poder de manipulação da mídia mundial para esconder da opinião pública um fato essencial: sofreram, possivelmente, a maior derrota estratégica da sua história. Donald Trump, ao invés de fazer o Irã voltar à Idade da Pedra, como ameaçou em 1º de abril de 2026, 77 dias depois, em 17 de junho de 2026, estava assinando o Memorando de Entendimento de Islamabad, com o rabo entre as pernas.
O Irã, que foi atacado à traição, em meio a uma negociação com os EUA, venceu em todos os aspectos. O que não significa que o prejuízo humano e econômico não tenha sido aterrador para o país. Mas o povo iraniano estava preparado para enfrentar tudo, em nome da sua soberania e dignidade. Em menos de 4 meses, até a assinatura do Memorando de Entendimento, o Irã emergiu como a grande potência regional no Oeste da Ásia e uma das maiores potências do sul global, admirada em todos os quadrantes pela sua coragem, determinação e coerência. A conquista do Irã não somente é importante em si, mas também pelo exemplo que está dando aos países atrasados economicamente do sul global, oprimidos pelo império norte-americano e sem coragem para enfrentá-lo.
O governo iraniano sabe que a assinatura de um memorando de entendimento não garante nada. O que Trump fez ao assinar o documento foi ganhar tempo, em função do agravamento da crise econômica mundial, deflagrada pela redução da oferta de petróleo. A ideia é acalmar os mercados globais de energia e os mercados de bônus e, ao mesmo tempo, ganhar tempo para reabastecer as forças armadas norte-americanas nos próximos meses. Não faltarão pretextos para reiniciar a guerra, já que os 14 pontos do memorando, são praticamente a pauta de reivindicações do Irã. Trump quer ao mesmo tempo disfarçar uma derrota estrondosa no terreno de guerra e evitar outra grande derrota nas urnas, nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro. Esta última parece também inevitável.
Essa guerra pode retomar a qualquer momento porque as suas verdadeiras motivações permanecem. Essa é uma guerra de vida ou morte contra a aliança estratégica entre Rússia-China, que inclusive foi fortalecida pela agressão ao Irã. É uma guerra que está sendo travada também contra os BRICS e todo o Sul Global. Isso tudo permanece, por isso a guerra pode retomar a qualquer momento, sob pretextos diferentes.
José Álvaro Cardoso é membro do DIEESE/SC, economista, escritor e apresentador da coluna Análise da Economia, no JTT do Portal Desacato.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
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