Militância na corda Bamba, Mente Encurralada

O Adoecimento Mental como Estratégia de Desmobilização da Militância Brasileira

 


Por Vanessa Brasil*

A máxima freiriana de que a organização popular é um ato de amor e de coragem ganha contornos violentos no Brasil de hoje. Lutar pela transformação social virou um exercício limítrofe de sobrevivência. Quando a gente pauta a saúde mental da militância, não dá mais para aceitar que tratem o assunto como um desvio privado, uma fragilidade individual ou, pior, um “luxo pequeno-burguês”. Estamos falando do resultado direto de um bombardeio institucional planejado. O esgotamento das lideranças e o esfacelamento emocional das bases não são acidentes de percurso. São táticas. O sistema usa o nosso cansaço e o nosso desespero para nos desmobilizar.

A militância brasileira hoje opera sob a lógica do trauma em cascata. Não existe tempo para o luto, para a regeneração ou para celebrar as pequenas vitórias da base. A engrenagem do poder nos impõe uma rotina de trincheiras puramente defensivas, onde passamos a vida tentando impedir que o retrocesso destrua o pouco que já conquistamos. Essa necessidade de reagir a cada massacre transforma a ação política em um eterno enxugar de gelo, e isso esgota as mentes mais fortes do nosso front.

Esse sofrimento psicossocial é alimentado por uma máquina legislativa e econômica que ataca de forma coordenada que tenta inviabilizar a luta. Cada projeto de lei regressivo que avança no Congresso atua como um gatilho de estresse crônico na ponta. Veja o caso de ofensivas perversas como o chamado “PDL da Pedofilia” e outros projetos que instrumentalizam pautas de costumes. Eles não guardam nenhuma relação com a proteção real de vulneráveis; funcionam como cortinas de fumaça institucionais e ferramentas de violência psicológica explícita para encurralar, criminalizar e desumanizar a comunidade LGBTQIA+ e o movimento feminista, empurrando ativistas para um estado de pânico e alertas constantes.

Ao mesmo tempo, o travamento deliberado de pautas de dignidade básica, como a urgência pelo fim da escala 6×1, escancara a face mais cruel da lógica de acumulação. A manutenção dessa jornada esgotante sabota o tempo de vida da classe trabalhadora para garantir margem de lucro e impedindo que a sociedade tenha tempo para se organizar. Quando as instituições dão as costas ao clamor popular contra a exaustão física, o recado psíquico é devastador: o sistema está dizendo, com todas as letras, que o seu cansaço não importa, e que devemos nos calar para preservar nossa sanidade.

Essa mesma lógica de espoliação se estende aos ataques sistemáticos contra os povos indígenas e comunidades quilombolas, sufocando direitos territoriais históricos enquanto o avanço do agronegócio e a criminalização da Reforma Agrária avançam. O desmonte das salvaguardas do meio ambiente e a entrega da nossa soberania ao mercado financeiro exigem da militância ambiental e camponesa uma energia vital que as suas condições materiais mal conseguem sustentar. É o ecocídio institucionalizado virando política oficial.

Mas o colapso nervoso dos ativistas não se explica pelo divã tradicional. Ele se explica pelas condições concretas de existência no nosso tempo. A principal causa do adoecimento é a contradição brutal entre a urgência da dor social que a gente acolhe e a total escassez de recursos para saná-la. É o trauma vicariante na pele: o impacto profundo de testemunhar diariamente a fome, a violência policial e a violação de direitos humanos e o medo de perde a vida na luta.

O militante absorve a dor da sua base protetora, mas não tem a máquina do Estado para resolver a demanda. A fricção dessa impotência gera uma sobrecarga de frustração que rapidamente vira ansiedade generalizada e depressão.

Para piorar, existe um abismo intransponível entre os operadores políticos que debatem a miséria em gabinetes climatizados e as lideranças sociais invisibilizadas que constroem a resistência no cotidiano. O ativista de base lida com a informalidade, o desemprego, a perseguição em seus territórios, a falta de dinheiro para a passagem de ônibus ou para o botijão de gás. Conciliar jornadas duplas ou triplas de trabalho precarizado com a dedicação orgânica ao movimento social destrói qualquer possibilidade de repouso sobretudo para as mulheres.

E as redes digitais amplificaram isso ao limite com a cultura da urgência permanente. O cérebro do militante passa a operar em modo de fuga ou luta 24 horas por dia. Desconectar por algumas horas é lido, internamente, como deserção ou falta de compromisso, gerando culpa ou autoculpabilização implosiva e o resultado é o burnout ativista. O pior é que, muitas vezes, o ambiente interno dos movimentos reproduz lógicas punitivas de vigilância mútua e cobrança por uma infalibilidade irreal, onde o erro não é acolhido como aprendizado, mas transformado em motivo de isolamento ou exclusão.

O impacto desse adoecimento coletivo na eficácia da nossa luta é catastrófico, e atende perfeitamente aos interesses das classes dominantes que utilizam o método cansaço contra nossas lutas. Psiquicamente exausta, a militância perde a capacidade de formular horizontes estratégicos de longo prazo. Passamos a reagir apenas aos estímulos imediatos da pauta do dia ditada pelo adversário. É uma urgência reativa que inviabiliza o pensamento crítico profundo, a formação teórica sólida e o planejamento de ações ofensivas.

Caímos no desamparo aprendido, aquele estado psicológico em que, após sucessivos traumas e derrotas institucionais, a pessoa passa a acreditar que nenhuma ação sua será capaz de alterar a realidade sem a interferência das instituições burocráticas. O desamparo drena a combatividade, transforma a indignação em apatia crônica e esvazia as fileiras dos movimentos sociais. Lideranças históricas são forçadas a se afastar por colapsos de saúde, e novas bases recuam assustadas pelo custo humano da dedicação política, tornando difícil novas adesões para a organização. Quando o tecido organizativo se despedaça pelo cansaço, o individualismo e o ego ganha terreno, fragmentando a solidariedade unificada de classe.

Por tudo isso, a saúde mental precisa deixar de ser tratada como tabu ou vaidade e precisamos falar sobre isso dentro da perspectiva das linhas de frente de luta. O cuidado com a mente e com o corpo das lideranças e das bases deve ser alçado ao status de estratégia de autodefesa coletiva e princípio organizativo inegociável. Não haverá emancipação social se as ferramentas humanas da mudança forem trituradas no processo.

Precisamos urgentemente institucionalizar o acolhimento dentro dos nossos espaços, redefinir as métricas de dedicação política para banir de vez a romantização do sacrifício autodestrutivo e criar redes de apoio material concreto que sustentem quem dá a vida pela base. Sobreviver com sanidade, construir espaços de afeto, lazer comum e escuta profunda entre companheiros são os primeiros atos de rebeldia necessários para vencermos.

Organizar a esperança exige, antes de tudo, garantir que o coração e a mente de quem marcha continuem pulsando firmes contra a barbárie.

*Coordenadora Nacional do Movimento Vida Além do Trabalho, pesquisadora e educadora Popular.

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