A Bolívia vencerá

O que aconteceu com a Bolívia? Várias perguntas, algumas respostas. Reportagem especial de www.purochamuyo.com na Bolívia. Edição a cargo de Darío Bursztyn.

Publicado originalmente em https://purochamuyo.com/

Tradução e edição em português: Tali Feld Gleiser.

As mobilizações, assembleias e bloqueios que começaram há 50 dias — como os define Antonio Abal Oña, “50 dias que comoveram o continente” — têm sua origem nos 20 anos de neoliberalismo e nos processos de mudança forjados, posteriormente, no Estado Plurinacional.

A principal fonte de receita do país, até o golpe de 2019, era a exportação de gás. Entre 1.500 e 1.600 milhões de dólares por ano eram destinados ao Brasil e outra quantia semelhante à Argentina. O Plano Nacional do Lítio pretendia aproveitar essas enormes reservas — especialmente no salar de Uyuni — e processar o carbonato de lítio e seus derivados, a fim de agregar valor a um elemento-chave utilizado na produção de baterias recarregáveis tanto para veículos quanto para dispositivos eletrônicos.

Além disso, com investimento estatal, em um momento em que os recursos próprios do país ultrapassavam 8.000 milhões de dólares, foi planejada a transformação da matriz energética do país para reduzir a dependência dos hidrocarbonetos e ampliá-la por meio da energia que seria produzida pelas usinas hidrelétricas (em particular El Carrizal, no departamento de Beni, e Iviruzu, em Cochabamba); assim como energia solar, eólica (em Santa Cruz) e nuclear. Esse conjunto de iniciativas fazia parte do Plano Bicentenário.

Tudo ficou no ar, paralisado. A matriz energética dependente de combustíveis fósseis é uma das pedras angulares do escândalo político e social que o país vive devido ao aumento exponencial do custo dos combustíveis.

Quando, em 2020, Luis Arce assumiu a presidência, ele não retomou o Plano Nacional do Lítio como estava previsto — o que poderia ter gerado 2.500 milhões de dólares até 2022 ou 2023 —, mas sim delegou essa exploração aos seus filhos. De fato, ele também não retomou o acordo de medicina nuclear assinado com a Federação Russa, cujas instalações estavam sendo construídas em El Alto.

A escassez de divisas se agravou no final de seu mandato, e “a crise atual eclodiu em agosto de 2025 com as eleições, que foram marcadas pelas proibições”, afirma Aquilardo Caricari, líder intercultural e cultivador de coca do Trópico de Cochabamba.

Foto: APC Bolivia

Sem chances para os candidatos mais ou menos próximos ao MAS, a presidência foi decidida no segundo turno entre um candidato neoliberal e outro ainda mais neoliberal. Rodrigo Paz — com seu vice, o ex-policial Lara —, de um lado, e Tuto Quiroga, ainda mais à direita, do outro, mas o povo votou nessas opções.

O conjunto de organizações ligadas ao ex-presidente Evo Morales convocou ao boicote: no segundo turno, a abstenção chegou a 14,3%, com 5% de votos em branco e nulos.

Durante a campanha e ao assumir o cargo, Rodrigo Paz prometeu não retirar o subsídio aos combustíveis nem recorrer a organismos internacionais de crédito para se financiar. “A metamorfose discursiva foi notável, porque ele fez exatamente o contrário”, explica Aquilardo Caricari em entrevista ao site www.purochamuyo.com. “Ele aumentou o preço da gasolina em 60% e do diesel em 160%, o que contribuiu para um aumento generalizado dos preços.

Em dezembro, 60 dias após assumir o cargo, o governo promulgou o decreto 5503 com a intenção de desmantelar as bases do modelo econômico com intervenção estatal em vigor desde 2006. Um dos pontos centrais desse decreto era que os contratos de investimento estratégico não passassem pela Assembleia Plurinacional, mas fossem aprovados por decreto do Poder Executivo. Por “investimento estrangeiro” deve-se entender “colocar as mãos no lítio boliviano”.

E então começaram, simultaneamente, os fortes protestos para revogar o Decreto 5503, com bloqueios de estradas em seis dos nove departamentos, liderados por organizações como a Central Operária Boliviana (COB). O governo recuou e revogou esse decreto, mas lançou outros, “contornou — como se diz na Bolívia — o decreto repudiado, e assim manteve o corte nos subsídios aos combustíveis, beneficiando a elite econômica, em particular do leste do país, como, por exemplo, com a eliminação do imposto sobre grandes fortunas”.

Caricari destaca que, em um mesmo movimento de poucos meses, em março de 2026, o presidente aprofundou sua aliança com os EUA e assinou o Escudo das Américas, um símbolo definitivo de mais políticas neoliberais.

Para aprovar esses novos decretos, “ele simula diálogos com espaços que, na prática, não são representativos, e assim chega às vésperas dos protestos que já duram 50 dias, com a apresentação de 10 projetos de lei (Eleitoral; Lei da Eletricidade; Lei de Hidrocarbonetos; Lei de Investimentos; Lei de Mineração; Lei da Economia Verde; Lei dos Empreendedores; Lei da Justiça; Lei de Segurança Nacional; e Lei de Redução do Estado e da Burocracia) sob o argumento de “reformular o modelo de desenvolvimento do país”.

Talvez a mais provocativa tenha sido a Lei 1720, promulgada em abril de 2026, “que visa transformar pequenas propriedades rurais tituladas em propriedades de médio porte, o que abria as portas para a reconcentração de terras e destruía a reforma agrária, sob o argumento de que os agricultores poderiam ter acesso a créditos, diversos auxílios e ‘liberar as terras’…

A Lei 1720 foi alvo de críticas generalizadas por violar a Constituição do Estado Plurinacional, que estabelece que a pequena propriedade é um patrimônio familiar inembargável. A marcha no departamento de Pando envolveu 60% da população e se estendeu a outros departamentos por mais de 20 dias, e Rodrigo Paz foi obrigado a revogá-la”.

Explodem os protestos e bloqueios

“Nesse contexto, o petição da COB e das organizações camponesas exige um aumento emergencial de 20% nos salários, devido à perda de poder aquisitivo resultante da desvalorização, e convoca uma greve mobilizada por tempo indeterminado”.

Por sua vez, as Federações Camponesas Túpac Katari realizam uma assembleia popular em El Alto, vizinha da cidade de La Paz, onde vivem 600 mil pessoas, e apresentam seu próprio Catálogo de 10 pontos: exigem, entre outras reivindicações, combustível de qualidade, pois o que está sendo importado pelo governo de Paz (que chamam de “combustível de baixa qualidade”) danifica seus meios de transporte, mas também clamam pela redução das diárias dos legisladores e pela regularização fundiária.

O líder Aquilardo Caricari explica que “é no departamento de La Paz que começam os bloqueios, juntamente com El Alto, mas as reivindicações já não são setoriais; em vez disso, pedem que o presidente se afaste, pois traiu a confiança”. Curiosamente, os maiores protestos, marchas e pedidos de renúncia vêm dos cinco departamentos onde Rodrigo Paz venceu amplamente as eleições em agosto e outubro de 2025: Oruro, Cochabamba, Potosí, Chuquisaca e La Paz, embora a reação da cidade de El Alto, onde ele obteve 76% dos votos, seja ainda mais notável”.

A mobilização se intensificou e o governo “tentou montar uma Mesa de Diálogo para desmantelar os bloqueios, buscando criminalizar os protestos e seus líderes, além de articular-se com organizações paralelas, mas fracassou, o que levou ao aumento da presença do aparato repressivo, resultando em 10 mortos e dezenas de feridos. Paz e o establishment interpretaram mal a situação, pensando que se tratava de uma ação isolada ou setorial da COB ou dos camponeses, mas tem sido um movimento popular com apoio majoritário. Parte dessa narrativa é que os bloqueios impediram a passagem de ambulâncias para atender pacientes, algo que o povo boliviano não considera crível, pois há inúmeras experiências de luta nas estradas e vias de acesso, e eles sabem a quem não deixam passar”.

Por outro lado, aponta Caricari, “a velha política boliviana teve que ressuscitar as milícias cidadãs parapoliciais, pois há pouco apoio da polícia e dos militares às políticas do governo. Também por isso reapareceram os conselhos comunitários filofascistas. Para eles e para Rodrigo Paz, em sintonia com os EUA, é preciso um inimigo visível — que seria Evo Morales — e vinculá-lo ao que chamam de narcoterrorismo, que, segundo a narrativa construída, seria o que estaria financiando as mobilizações”.

Com o passar das semanas, “o governo passou a cogitar a implantação do Estado de Exceção — que em outros países é chamado de Estado de Sítio —, o que permitiria a repressão com armas regulamentares e daria cobertura legal aos repressores diante de eventuais processos judiciais… mas também é verdade que sua implementação levaria a um confronto brutal, a um massacre. Por isso, optaram pela cooptação dos líderes. É por isso que querem dialogar com os líderes e não com as bases”. O diálogo com Aquilardo Caricari ocorreu horas antes da assinatura do acordo para suspender os bloqueios, que, por fim, foi assinado por Mario Argollo, da Central Obrera Boliviana.

Acabar com o “Viver Bem”

“O objetivo claro de Paz é desmantelar o Estado Plurinacional e convocar uma nova Assembleia Constituinte. O ‘Viver Bem’, um dos princípios da filosofia aimará incorporados à Constituição em 2009, é o que o povo defende”, afirma Caricari. Nesse sentido, o jornalista e ex-cônsul na Argentina, Antonio Abal Oña, destacou que os modelos ocidentais de estruturação da sociedade não têm espaço em um Estado Plurinacional, que não é definido apenas pela Constituição Política do Estado, mas é uma construção histórica reconhecida apenas em 2009, após cinco séculos de vida material”.

Aricari não hesita em afirmar que “eles querem agora o que não conseguiram no golpe de 2019, quando Jeanine Añez, que ocupava a segunda vice-presidência do Senado, se autoproclamou presidente do Estado. E quando Luis Camacho e seus seguidores pisotearam a wiphala. Naquela ocasião, o governo argentino, liderado por Mauricio Macri [e com Patricia Bullrich como ministra], colaborou com material repressivo, especialmente gás lacrimogêneo. Hoje, sob o pretexto do envio de ajuda humanitária, o governo de Javier Milei enviou estrategistas e material repressivo, o que foi confirmado por fontes policiais da Bolívia. Em meio a essa crise, Rodrigo Paz comprou 68 milhões de dólares em materiais para repressão. Há uma coordenação clara entre o governo de extrema direita argentino e o de Paz, e ambos — como já foi dito — fazem parte do Escudo das Américas, que no início de junho foi acionado para classificar as mobilizações e bloqueios em massa como uma tentativa de derrubar Paz”.

Existe solução para o aumento vertiginoso do preço da gasolina e a estrangeirização do lítio?

Aquilardo Caricari, próximo ao ex-presidente Evo Morales, afirma que a situação econômica crítica não se manifesta apenas pela escalada dos preços e pelo aumento brutal dos combustíveis, mas também pela depreciação dos salários dos professores, pelos estudantes que abandonam a escolaridade e pelos universitários que deixam seus cursos para trabalhar e ajudar suas famílias. “Em 14 anos de governo do MAS, houve avanços na redução da pobreza extrema, e o plano era erradicá-la até 2025. Mas a Bolívia é um alvo cobiçado por seus recursos. Para se apropriar deles, Washington lançou essa narrativa do narcoterrorismo e montou um novo Plano Condor de articulação entre as democracias autoritárias. A existência das redes sociais é uma proteção que não permite que haja desaparecidos e que isso passe despercebido, como teria acontecido no antigo Plano Condor das ditaduras, embora hoje não faltem violações dos direitos humanos”.

As assembleias das federações

As assembleias são realizadas com base em um estatuto. No caso da COB e da Federação Camponesa Túpac Katari, essas assembleias são ampliadas. “É um cenário orgânico, mas não apenas para os filiados às organizações. E são eventos de grande mobilização, com dirigentes designados, não com toda a base, representada por eles. Em El Alto, por exemplo, elas estão sendo realizadas em avenidas, coliseus e campos esportivos. É claro que a mídia nega essa dinâmica, afirma que não há muita gente participando, construindo uma narrativa sem sentido, porque há milhares de participantes em cada uma, mas são delegados e delegadas. Por isso, o papel das redes sociais é fundamental. Cada um é um repórter em tempo real; são os meios alternativos que ajudam a dar visibilidade ao que está acontecendo, pois os meios hegemônicos estão do lado do governo. É importante destacar que a expansão das redes sociais ocorreu em paralelo ao crescimento do poder aquisitivo e que, embora houvesse um nível limitado de alfabetização digital na época do golpe de 2019, hoje o povo se apropriou dessa ferramenta: podemos reverter a narrativa quando divulgamos nas redes sociais… aliás, isso é heterogêneo, pois depende do acesso à internet”.

O que acontece se Rodrigo Paz renunciar?

Se o presidente renunciar em um país que, de fato, já está ingovernável, seu vice assumiria o cargo. Se este não assumir, deve assumir o presidente do Senado e, se ele também não o fizer, o presidente da Câmara dos Deputados. Caso ele também não assuma, caberá a ele convocar eleições a serem realizadas em 90 dias. Foi essa ordem jurídica que Añez descumpriu em novembro de 2019, selando seu mandato com os massacres de Sacaba e Senkata, que deixaram 22 mortos e mais de 200 civis feridos.

Por que nada pode ser feito sem o movimento camponês?

“O instrumento político que deu início à mudança de época na Bolívia surgiu nos movimentos camponeses, no início dos anos 80, e culminou na criação da Assembleia das Nacionalidades.

Esse ator social é o protagonista central e mais coerente dos acontecimentos na Bolívia, apesar de os congressos que duravam três dias e contavam com debates intensos — o que marcava a vida orgânica desse instrumento político — terem se perdido, em parte, com a chegada de Evo Morales ao governo. “Uma cooptação progressiva do funcionamento por parte das decisões do Executivo”, explica ao site www.purochamuyo.com o ex-cônsul na Argentina, Antonio Abal Oña, com quem conversamos horas antes da assinatura do acordo entre a COB e o Executivo.

Uma análise abrangente aponta que as federações camponesas têm sido bastante contestatórias e que houve uma política para afastar líderes camponeses dos cargos, que foram ocupados por “profissionais”, incluindo figuras que vinham do MIR ou que haviam pertencido ao partido ADN [fundado pelo ditador Hugo Bánzer]. Pessoas “que sabem fazer as coisas”, como afirmou um alto funcionário do governo. A fraqueza do instrumento político nascido com as Assembleias das Nacionalidades manifestou-se em uma aposta no suprastrutural, no clientelismo nos cargos e em uma jovem tecnocracia.

Abal sustenta que “o papel da Central Operária Boliviana ficou degradado e somente graças ao impulso dos movimentos populares há uma lenta recuperação, marcada pela rearticulação da COB com os movimentos; mas, sem dúvida, a vanguarda são os camponeses e as Federações de La Paz, Cochabamba, Oruro e do norte de Potosí. Víamos os apelos insistentes ao governo e do próprio governo por uma “pacificação” sem lista de reivindicações e, com o passar das semanas, a COB foi deixando para trás o pedido de renúncia de Rodrigo Paz. A greve por tempo indeterminado, aprovada tanto pela COB quanto pelas Federações Tupac Katari só foi cumprida pelas organizações camponesas. Vários afiliados não a cumpriram, especialmente nas áreas urbanas. Os trabalhadores da indústria, motoristas, professores e profissionais da saúde não aderiram plenamente à medida, e se não houver greve nas cidades…”

Em uma mensagem final, ao tomar conhecimento da assinatura, Abal Oña declarou: “O ‘acordo’ entre o governo e a liderança da COB demonstrou a falta de complementaridade entre duas realidades existentes em nosso país: uma classe trabalhadora enfraquecida e fechada em si mesma, deixando de lado a necessária aliança com os povos indígenas; esse abandono nos mostra os limites da acumulação de força do movimento popular, que, de forma animadora, vimos emergir em cinco meses de uma verdadeira façanha heróica”.

O Estado Plurinacional é necessariamente de complementaridade e reciprocidade, e os camponeses — algo que deve ser debatido a partir da Nossa América — são uma nação, não uma classe. Pois carregam consigo centenas, milhares de anos de práticas culturais. Este acordo foi assinado: dias antes, o governo assinou um acordo com dois representantes das minas nacionalizadas pertencentes à COMIBOL (Huanuni e Colquiri), que são o coração da Central Operária Boliviana, e então ficou claro que o dirigente da COB, Mario Argollo, teria que seguir o mesmo caminho. Algumas estradas poderão ser liberadas, mas o movimento camponês mantém os bloqueios e continuará com as reuniões e assembleias… mais cedo ou mais tarde, as traições serão desmascaradas.


A defesa do Estado Plurinacional tem sido o motor mobilizador dos protestos e bloqueios, sem a necessidade de declarações explícitas, mas sim pela presença concreta dessa reivindicação. Por outro lado, como nunca antes, veio à tona o caráter racista da sociedade, um aspecto que a futura COB não pode ignorar, pois… não há dúvida de que sua reorganização e fortalecimento são necessários”.


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