Nova associação fortalece mobilização por inclusão e direito à cidade em Florianópolis

Nova entidade criada em Florianópolis reúne diferentes tipos de deficiência e busca fortalecer a mobilização por direitos, acessibilidade e participação social

A luta por acessibilidade e inclusão ganhou um novo capítulo em Florianópolis. Após oito meses de articulação e mobilização, o grupo “Juntos Abrimos Caminhos” transformou-se oficialmente em associação, consolidando uma iniciativa que reúne pessoas com diferentes tipos de deficiência em torno de uma pauta comum: o direito à cidade, à mobilidade e à cidadania plena.

O tema foi debatido no programa JTT, apresentado por Raul Fitipaldi e Luíza Soeiro, com a participação de Maria de Lourdes Bitarães, presidente da recém-criada Associação Juntos Abrimos Caminhos (AJAC); Felipe Fernandes, diretor administrativo da entidade; e Lino Peres, presidente do Instituto Cidade e Território (ITCidades) e apresentador de Cidade Coletiva, programa do Portal Desacato.

Para Maria de Lourdes, cadeirante e uma das idealizadoras do movimento, a criação da associação representa a transformação de experiências individuais de exclusão em uma força coletiva capaz de pressionar o poder público por mudanças concretas.

“Da nossa dor, tornamo-nos um oceano. E o oceano ninguém mais segura”, afirmou durante a entrevista.

Segundo ela, a associação nasceu da necessidade de enfrentar obstáculos que fazem parte do cotidiano de milhares de pessoas com deficiência: calçadas inacessíveis, barreiras arquitetônicas, dificuldades no transporte público, falta de sinalização adequada e atitudes discriminatórias. “A acessibilidade não é favor. É direito”, ressaltou.

Uma associação para todas as deficiências

Um dos diferenciais da AJAC é seu caráter abrangente. Ao contrário de muitas entidades que atuam com grupos específicos, a nova associação reúne pessoas com deficiência física, visual, auditiva, intelectual, autistas e pessoas com deficiências consideradas invisíveis.

Maria de Lourdes destacou que a proposta é construir uma organização interdeficiências, capaz de articular demandas comuns sem perder de vista as especificidades de cada grupo.

A iniciativa vem atraindo apoiadores de diversas regiões do país e já começa a estabelecer conexões com organizações de outros estados e até da América Latina.

Lino Peres observou que a entidade surge em um contexto marcado por inúmeras dificuldades urbanas e sociais enfrentadas pelas pessoas com deficiência.

“A cidade precisa ser pensada a partir daqueles que mais encontram barreiras para circular: pessoas com deficiência, idosos e crianças. Quando a cidade funciona para eles, funciona para todos”, afirmou.

Direito à cidade ainda é negado

Durante o debate, os participantes apontaram que Florianópolis ainda está distante de garantir condições adequadas de mobilidade e acessibilidade.

Felipe Fernandes, pessoa autista e diretor administrativo da associação, destacou que o direito à cidade permanece limitado para grande parte da população com deficiência.

Segundo ele, problemas como calçadas deterioradas, ausência de passeios públicos, pontos de ônibus inadequados, transporte coletivo precário e sinalização deficiente continuam fazendo parte da rotina de milhares de moradores.

“São questões que parecem pequenas para quem não vive essa realidade, mas que podem impedir uma pessoa de estudar, trabalhar ou simplesmente circular pela cidade”, explicou.

Felipe citou como exemplo a existência de pisos táteis instalados fora dos padrões técnicos ou sem contraste visual adequado, comprometendo sua função para pessoas com baixa visão.

Falta de planejamento e exclusão urbana

O debate também abordou problemas estruturais do planejamento urbano da capital catarinense. Raul Fitipaldi e Lino Peres discutiram os impactos da coexistência de rodovias estaduais dentro da malha urbana, situação que cria obstáculos adicionais para pedestres e pessoas com mobilidade reduzida.

Segundo Lino, o crescimento da cidade ocorreu sem o devido planejamento para integrar mobilidade, segurança e acessibilidade. O resultado são vias de alta velocidade atravessando áreas residenciais, ausência de calçadas adequadas e dificuldades para travessia segura.

O urbanista argumentou que existe uma “cegueira social” em relação às necessidades das pessoas com deficiência, fazendo com que muitas decisões urbanísticas sejam tomadas sem considerar aqueles que enfrentam maiores dificuldades de deslocamento.

Mobilização e participação popular

Para os integrantes da associação, a criação da AJAC representa apenas o início de uma caminhada mais ampla.

A entidade pretende atuar na fiscalização das políticas públicas, na formulação de propostas legislativas e na mobilização social em defesa dos direitos das pessoas com deficiência.

Entre as iniciativas já em andamento está a elaboração de um projeto de lei que reúne diversas medidas voltadas à acessibilidade urbana, apelidado informalmente de “Lei Maria de Lourdes”.

Ao final da entrevista, a presidente da associação fez um apelo para ampliar a participação popular.

“Nada de nós sem nós. Mas precisamos que todos venham caminhar conosco. Pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência. Precisamos de braços, mentes e corações comprometidos com a luta por direitos”, declarou.

A criação da Associação Juntos Abrimos Caminhos surge como uma tentativa de transformar reivindicações históricas em ação organizada. Em uma cidade frequentemente apresentada por suas belezas naturais e indicadores de qualidade de vida, a nova entidade pretende lembrar que inclusão e acessibilidade não podem ser vistas como temas secundários, mas como condições fundamentais para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo


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