Por Michel Goulart da Silva.
No ano passado, o então deputado Eduardo Bolsonaro e sua família comemoraram o tarifaço do governo Donald Trump contra o Brasil. Em muitas das falas da família Bolsonaro, explicitou-se que o Brasil seria um país muito melhor se seguisse incondicionalmente as orientações de Washington, evitando se articular com os BRICS. No episódio mais recente, Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pela família, tirou fotos sorridentes ao lado de Trump. Pouco depois, duas facções criminosas atuantes no Brasil passaram a ser consideradas terroristas e, em meio a isso, Trump voltou a querer impor tarifas e inclusive a atacar o Pix. Flávio, desta vez, temendo que sua candidatura afunde ainda mais, tenta, de forma hipócrita, distanciar sua visita a Trump dos novos ataques impostos pelo mandatário norte-americano.
Contudo, ainda que tente pontualmente se distanciar de ações de Trump, os comentários de Flávio ou de qualquer membro da família Bolsonaro não passam de retórica vazia. Desde o governo de Jair Bolsonaro, suas falas e ações expressam o esforço em tentar manter mobilizada a base social ideológica. Na narrativa construída por Bolsonaro e seus seguidores, esse grupo seria um campo antissistema que, entre outras coisas, combate um indefinível “globalismo”. Para Bolsonaro e outros líderes de extrema-direita, com Trump à frente, essa perspectiva de uma política global serviria para enfraquecer as nações diante da ascensão de um suposto complô internacional. Fazem parte desse complô, além de Lula e da China, qualquer governo de esquerda, governos de direita críticos a Trump, a ONU, a União Europeia, o Irã, a Rússia, o Partido Democrata dos Estados Unidos, os multimilionários que controlam Hollywood, enfim, quase todas as principais lideranças políticas e empresariais do mundo.
Esse complô seria responsável tanto pela difusão de ideias supostamente mentirosas, entre as quais o aquecimento global ou que vivemos em um planeta redondo, como pela crise migratória em âmbito mundial ou pela destruição da família por conta das ações dos movimentos de mulheres. Não fariam parte disso apenas Trump, obviamente, e alguns outros governos aliados, como o de Javier Milei, na Argentina. Trump, em diversos momentos, fez pregações contra o globalismo, o ascenso das esquerdas no mundo e outras bobagens que poucas pessoas levam a sério. Fora dessa retórica que beira à alucinação, as medidas econômicas de Trump são marcadas pela austeridade e pelo combate aos direitos sindicais e dos trabalhadores, pela desqualificação da ciência e da educação e pela destruição da saúde e dos serviços públicos.
Nessa política torta, na qual se alinha a família Bolsonaro, acabam acusando quase todos os governos de esquerdistas (basta defender alguma pauta em torno de uma política assistencial, por exemplo), ao mesmo tempo que rende obediência irrestrita ao governo dos Estados Unidos. Em ações bizarras, impulsionando seu turismo político aos Estados Unidos, os Bolsonaro vão deixando evidente seu projeto de completa subserviência ao imperialismo.
Na época do capitalismo em crise, as disputas econômicas vêm se acirrando, colocando em cena pelo menos dois projetos em disputa: de um lado, garantir migalhas aos trabalhadores para diminuir ao mínimo a possibilidade de crises sociais e, de outro, a completa destruição de todo e qualquer direito para garantir o máximo possível de lucro. Nessa conjuntura, as principais potências precisam de governos subservientes que lhes garantam a entrega de riquezas a baixíssimos custos. Essa é a busca de Trump, inclusive fazendo com que seus agentes se intrometam na política da América do Sul, da Ásia e de onde mais for preciso.
Os Bolsonaro tentam reviver os tempos da “guerra fria”, não apenas assumindo uma retórica de combate à esquerda e ao fantasma comunista, mas principalmente submetendo o Brasil a um alinhamento incondicional aos Estados Unidos. Defendendo um nacionalismo de mão única, com o Brasil devendo ser subserviente aos Estados Unidos, os Bolsonaro escondem seu papel de funcionário de baixo escalão dos interesses de Trump e da burguesia norte-americana. Para os Estados Unidos, dentro de um cenário de crise e de rebeliões de trabalhadores em diversos países, é preciso garantir um Brasil subserviente à sua política, um papel que parece ser perfeito para os Bolsonaro.
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