Investigação francesa aponta interferência israelense em eleições na França, Escócia, Nova York e África

Redação.- A revelação de que uma empresa israelense especializada em operações de influência digital teria atuado em processos políticos de diversos países reacendeu o debate sobre a crescente privatização da guerra informacional e da interferência eleitoral no século XXI. Segundo relatório divulgado pelo serviço francês de vigilância contra ingerências digitais estrangeiras (Viginum), a empresa BlackCore, descrita por ela própria como uma companhia de “influência, cibersegurança e tecnologia para a era moderna da guerra da informação”, é suspeita de ter realizado campanhas de desinformação e difamação não apenas na França, mas também na Escócia, em Nova York, Angola e Togo.

O caso francês é o mais documentado até o momento. Investigações conduzidas pelas autoridades do país apontam que a BlackCore teria organizado uma campanha contra candidatos do partido França Insubmissa (La France Insoumise – LFI), formação política conhecida por suas posições críticas ao governo israelense e pelo apoio à causa palestina. Entre os alvos estavam Sébastien Delogu, François Piquemal e David Guiraud, candidatos em Marselha, Toulouse e Roubaix. A operação teria utilizado sites falsos, contas fraudulentas em redes sociais, anúncios digitais difamatórios e divulgação de informações pessoais para desacreditar os políticos perante o eleitorado.

Segundo informações divulgadas por agências internacionais, a campanha incluiu a publicação de alegações falsas de comportamento criminoso, exposição de dados pessoais e disseminação coordenada de conteúdo enganoso. Empresas de tecnologia como Meta e TikTok identificaram parte das operações e removeram contas associadas à rede de desinformação. A Meta informou que a atividade tinha origem em Israel e estava direcionada principalmente ao público francês.

Expansão internacional das operações

O aspecto mais significativo da nova investigação francesa é a constatação de que o método empregado não teria se limitado ao território francês. O diretor do Viginum, Marc-Antoine Brillant, declarou que a mesma estrutura operacional foi identificada em outros países e regiões, incluindo a eleição municipal de Nova York em 2025, processos políticos na Escócia e operações em Angola e Togo.

Em Nova York, as suspeitas recaem sobre tentativas de influenciar o ambiente político em torno da candidatura de Zohran Mamdani, figura associada a posições pró-palestinas. Na Escócia, a investigação menciona campanhas direcionadas contra o primeiro-ministro escocês, John Swinney, que denunciou a situação em Gaza como uma “catástrofe humanitária produzida pelo ser humano” e afirmou que havia indícios de genocídio em curso.

Embora ainda existam poucas informações públicas sobre as operações em Angola e Togo, o fato de países africanos aparecerem no relatório sugere que as atividades da empresa não estavam limitadas ao eixo Europa-América do Norte, indicando uma atuação global em mercados políticos considerados vulneráveis à manipulação digital.

Privatização da interferência política

O caso BlackCore ilustra uma transformação profunda dos mecanismos de influência política internacional. Historicamente associadas a serviços de inteligência estatais, operações de desinformação passaram a ser executadas por empresas privadas que oferecem serviços de guerra informacional, manipulação de narrativas e influência eleitoral.

A própria BlackCore se apresentava como uma empresa capaz de fornecer “estratégias de ponta” para moldar narrativas públicas e influenciar ambientes políticos. Após o início das investigações jornalísticas e judiciais, tanto seu site quanto sua página no LinkedIn foram retirados do ar. Autoridades francesas afirmam não ter conseguido identificar claramente a estrutura societária da companhia nos registros empresariais israelenses.

Essa terceirização das operações de influência cria um problema adicional para as democracias contemporâneas: a dificuldade de atribuir responsabilidades. Mesmo quando uma campanha é identificada, torna-se complexo determinar quem a financiou, quem a encomendou e quais interesses geopolíticos ou econômicos estavam por trás da ação.

O silêncio de Israel e a reação francesa

Diante das evidências reunidas pelo Viginum, o governo francês solicitou esclarecimentos às autoridades israelenses. Paralelamente, promotores franceses abriram investigações criminais para apurar possíveis delitos relacionados à interferência eleitoral, fraude e crimes cibernéticos. Até o momento, não foram apresentadas provas públicas de envolvimento direto do Estado de Israel, mas as autoridades francesas buscam determinar se houve algum tipo de vínculo institucional ou financiamento governamental.

O episódio ocorre em um contexto de crescente tensão diplomática entre governos europeus e Israel devido à guerra em Gaza. Diversos líderes políticos europeus têm ampliado suas críticas às ações militares israelenses, enquanto movimentos de solidariedade ao povo palestino ganham visibilidade em diferentes países.

Uma nova era de guerra híbrida

O caso BlackCore demonstra como campanhas eleitorais locais podem se tornar alvos de operações transnacionais de influência. Diferentemente das ingerências clássicas do século XX, a guerra híbrida contemporânea combina inteligência artificial, redes sociais, publicidade segmentada, vazamento de dados e manipulação psicológica em larga escala.

Se as suspeitas forem confirmadas, a atuação da BlackCore representará um dos exemplos mais abrangentes já documentados de uma empresa privada operando simultaneamente em múltiplos continentes para influenciar disputas políticas. O episódio também reforça a necessidade de mecanismos internacionais de transparência digital, rastreamento de campanhas de influência e responsabilização de atores privados que atuam nas zonas cinzentas entre marketing político, espionagem e guerra informacional.

Referências

AGENCE REUTERS. French prosecutors probing alleged foreign interference against hard-left candidates. Reuters, 20 maio 2026.

AGENCE REUTERS. France probes whether Israeli firm BlackCore interfered in local elections, sources say. Reuters, 13 maio 2026.

AGENCE REUTERS. Israeli firm BlackCore suspected of meddling in New York and Scotland votes, France says. Reuters, 11 jun. 2026.

EL PAÍS. La Justicia investiga una supuesta injerencia israelí en las elecciones municipales de Francia. Madrid: El País, 27 maio 2026.

EL PAÍS. Una empresa israelí intentó influir en las elecciones municipales de marzo en Francia mediante injerencias digitales. Madrid: El País, 15 maio 2026.

VIGINUM. Relatório sobre interferências digitais estrangeiras e atividades atribuídas à BlackCore. Paris: Serviço de Vigilância e Proteção contra Interferências Digitais Estrangeiras, 2026.


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