Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.
Em 4 de abril de 1969, o voo 114 da companhia aérea Cruzeiro do Sul tornou-se palco de uma das primeiras ações de sequestro de aeronaves realizadas por grupos de oposição à ditadura militar brasileira. A ação foi conduzida por militantes ligados à Ação Libertadora Nacional (ALN), organização fundada por Carlos Marighella após sua ruptura com o Partido Comunista Brasileiro. O objetivo era desviar a aeronave para Cuba, país que havia se transformado em referência para diversos movimentos revolucionários latino-americanos.
O episódio ocorreu em um contexto de forte radicalização política. Poucos meses antes, em dezembro de 1968, o regime havia decretado o Ato Institucional n.º 5, suspendendo garantias constitucionais, ampliando a censura e intensificando a perseguição contra opositores. Diante do fechamento dos espaços democráticos, parte da esquerda brasileira passou a defender a luta armada como estratégia de enfrentamento ao regime. Nesse cenário, sequestros de aeronaves, assaltos a bancos e ações de propaganda armada passaram a integrar o repertório de algumas organizações clandestinas.
O voo foi desviado para Cuba sem que houvesse vítimas entre passageiros e tripulantes. Naquele período, diversos militantes perseguidos pela repressão buscavam chegar à ilha caribenha, onde poderiam receber abrigo político e treinamento. O sequestro do voo 114 inaugurou uma série de ações semelhantes que marcariam os anos seguintes da resistência armada à ditadura. Entre 1969 e 1972, dezenas de aeronaves seriam desviadas por grupos revolucionários brasileiros em direção a Cuba.
Historicamente, o episódio revela não apenas a disposição de setores da oposição em enfrentar o regime por meios extraordinários, mas também o grau de repressão existente no país. O endurecimento da ditadura após o AI-5 contribuiu para que parte da militância concluísse que as vias institucionais estavam completamente bloqueadas. Ao mesmo tempo, ações armadas como o sequestro do voo 114 foram utilizadas pelo governo militar para justificar o fortalecimento dos aparatos de segurança, vigilância e repressão.
Passadas décadas, o sequestro do voo 114 permanece como um documento histórico de seu tempo. Ele expressa as contradições de uma sociedade submetida ao autoritarismo, na qual a supressão das liberdades políticas produziu diferentes formas de resistência. Compreender esse episódio exige analisá-lo dentro do contexto da Guerra Fria, da radicalização política dos anos 1960 e da luta pela democracia no Brasil, evitando simplificações que reduzam a história a heróis ou vilões. Trata-se, sobretudo, de um acontecimento que ajuda a compreender os dilemas e os conflitos que marcaram um dos períodos mais sombrios da história republicana brasileira.
Dica cultural: para conhecer mais sobre essa história, assista à série Caravelle 114, exibida pelo Canal Brasil. A produção reconstitui o sequestro do voo 114 e os dilemas políticos vividos durante a ditadura militar brasileira.
Marcos Aurélio Gomes Ribeiro é pofessor de História contemporânea do Brasil
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





