Por Gustavo Veiga.
A bomba e qual país a possui: essa é a questão subjacente ao debate mundial sobre o uso da energia atômica. Utilizada como meio de dissuasão, ela está reservada apenas a um seleto clube de nações. São nove: Estados Unidos, Rússia, China, Índia, França, Inglaterra, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. O Irã não consta dessa lista. Seu programa nuclear, ao qual Donald Trump e Benjamin Netanyahu dizem ter colocado uma lápide, hoje não se sabe se foi destruído pelos bombardeios, se em parte continua em vigor apesar da guerra ou se Teerã colocou em segurança o urânio que havia enriquecido em diferentes porcentagens.
Parceiros na destruição da Síria primeiro, de Gaza e do Líbano depois, e agora da República Islâmica, os Estados Unidos e Israel acreditam ter cumprido um objetivo sobre o qual ainda não há provas irrefutáveis. A República dos aiatolás teria ficado com sua capacidade tecnológica dizimada para construir a temida bomba atômica. Além disso, perdeu nove cientistas que foram assassinados por seus dois inimigos.
A ironia neste assunto é que o desenvolvimento nuclear iraniano não começou em 1979, quando o líder religioso Ruhollah Jomeini e sua revolução islâmica provocaram a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi. O monarca, que havia chegado ao poder por meio de um golpe de Estado contra o primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh, iniciou o programa nuclear na década de 1950. E o desenvolveu a partir de 1957 com o apoio dos EUA.
Pahlavi ocupava o trono graças ao apoio da CIA, que havia se livrado de Mossadegh. Esse político nacionalizou o petróleo e liquidou a Anglo-Iranian Oil Company, contra a vontade dos Estados Unidos e da Inglaterra. O reinado do xá, que durou 26 anos, não incomodava as potências ocidentais, que pouco se importavam com o desenvolvimento nuclear do país. Tampouco lhes interessava denunciar as violações dos direitos humanos cometidas por seu regime.
Em 1959, foi criado o Centro de Pesquisa de Teerã (CINT). Ele foi equipado com um reitor de pesquisa doado por Washington e começou a operar a partir de 1967 com urânio enriquecido.
O Irã, na época do xá, assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1968 e o ratificou em 1970. Isso nunca havia sido um problema, até que ele foi derrubado e, em 10 de fevereiro de 1979, foi criada a primeira república islâmica do mundo. O cenário mudaria radicalmente. O país não seria mais um parceiro privilegiado dos EUA. Um aliado dócil e representante da monarquia não é a mesma coisa que um líder supremo que lidera uma teocracia, onde a religião se confunde com o Estado.
William Alberque é pesquisador do Instituto Pacific Forum e analisa em que estado se encontraria o programa nuclear de Teerã. Ele não concorda com o triunfalismo de Trump nem acredita que o poderio atômico iraniano tenha sido aniquilado, como afirma o presidente dos EUA.
Segundo o especialista, em 13 de junho de 2025, “o Irã possuía 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, 185 a 20%, 6.000 a 15% e 2.400 a 2%. Uma quantidade significativa, muito próxima do material necessário para fabricar armas, que estaria enterrada em Isfahan”.
Apenas os 440 quilos a 60% seriam suficientes para possuir entre 10 e 15 bombas atômicas. Pois “passar dessa porcentagem de urânio enriquecido para 90% colocaria qualquer país diante dessa possibilidade”, comentou Alberque. Uma vez concluído esse processo, que pode levar vários dias e até semanas, o mineral transformado em metal se converte em uma esfera de 20 a 25 quilos que constitui o núcleo da bomba. Em seguida, esse material é integrado a uma ogiva e montado em um míssil. Todo esse processo pode levar meses.
Os danos causados pelos ataques dos bombardeiros B-2 com o penetrador de munições massivo GBU-57A/B (MOP), que carrega 13.608 quilos em um único artefato explosivo, atrasaram o programa nuclear iraniano, embora não se saiba até que ponto ele ficou inutilizado. A bomba antibunker foi lançada pela primeira vez pelos EUA sobre as instalações iranianas de Fordow e Natanz em 22 de junho de 2025.
Uma opinião de peso neste conflito geopolítico sobre o uso da energia nuclear é a de um argentino. Rafael Grossi é o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e, no final de março, declarou que foram causados “enormes danos” à infraestrutura iraniana, embora tenha esclarecido que ainda “persistiam elementos que não foram destruídos”.
Entre esta atualidade que coloca o planeta em perigo e aquele projeto de Pahlavi e dos Estados Unidos que consistia em construir até 23 usinas de energia atômica em todo o território do Irã, há um abismo. Ficou demonstrado que, desde a revolução islâmica de 1979 até hoje, o país mais estigmatizado do mundo pelas potências ocidentais conseguiu desenvolver seu programa nuclear, com avanços e retrocessos, quase sozinho.
Mas os ataques dos EUA e de Israel às suas instalações subterrâneas, onde se acumularia o urânio enriquecido, colocam em dúvida até que ponto sua capacidade de continuar com o programa foi afetada. O Irã sustenta que é para uso pacífico. Trump respondeu com dureza em 7 de abril em sua rede Truth Social antes de dar um ultimato: “Esta noite morrerá toda uma civilização, para nunca mais voltar”. Fica muito claro quem iniciou o conflito e quem deseja, a todo custo, continuá-lo.
A situação remete às armas de destruição em massa que eram atribuídas ao Iraque antes de os Estados Unidos iniciarem sua invasão em 2003. Verificou-se posteriormente que não havia nem vestígios delas. Assim como George W. Bush, o magnata megalomaníaco que ocupa a Casa Branca também tem seu pretexto para continuar fazendo a guerra.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





