Por Michel Goulart da Silva.
Com o desenvolvimento do recente cenário político, os comunistas se veem em um dilema: apoiar ou não apoiar no primeiro turno a reeleição de Lula. Por um lado, esse voto significaria o apoio à principal candidatura que os trabalhadores ainda têm como referência. Por outro, apoiar Lula poderia ser entendido como se abster de mobilizar a classe trabalhadora na construção de um campo mais à esquerda, que taticamente se materializaria na construção de uma candidatura comunista.
Nessa discussão, há diversos fatores a se considerar, um dos quais passa pelo combate ao bolsonarismo. Embora enfraquecidas, as principais candidaturas da direita serão Flávio Bolsonaro, representando o bolsonarismo, e Ronaldo Caiado, como expressão do setor mais tradicional da direita. Renan, oriundo do partido criado a partir do MBL, corre por fora nesse embate entre os grandes grupos burgueses. Essas candidaturas devem ter como central o combate ao PT e à figura de Lula, ao mesmo tempo se contrapondo ao programa da esquerda e defendendo uma pauta de interesse da burguesia.
Outro aspecto a ser analisado passa pelo balanço que se faz sobre o governo Lula. O governo fez medidas de interesse dos trabalhadores, como a questão do imposto de renda ou a recomposição do orçamento dos serviços públicos. Contudo, o mesmo governo seguiu nas privatizações, manteve uma relação amistosa com o imperialismo e, diante do tarifaço de Trump, teve como resposta ajudar os setores empresariais. Esses elementos colocam o governo diante de uma situação contraditória, em que não avançou em pautas necessárias para os trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, fez algumas medidas que mitigaram sua situação de pobreza e exploração.
Um terceiro aspecto passa pela questão da unidade da esquerda. Não se faz referência aqui aos partidos do bloco entre PT, PSOL e PCdoB, que compõem o governo de união nacional com a burguesia e devem seguir em seu pacto de defesa da institucionalidade burguesa. Essas são legendas cujas direções viraram as costas para as lutas dos trabalhadores e, mesmo tendo ainda militantes honestos em seu interior, representam, em maior ou menor grau, os interesses da burguesia.
Os três partidos de extrema-esquerda que possuem legenda – PSTU, PCB e UP – vêm anunciando a possibilidade de lançar candidaturas próprias. Outros grupos, em especial, organizações sem legenda, têm defendido a possibilidade de unificação desses setores em uma única candidatura. Embora esses partidos sozinhos sejam irrelevantes nas eleições, uma eventual candidatura unificada desses setores poderia ser, em teoria, um polo de aglutinação, à esquerda do governo Lula, e uma possibilidade de articulação orgânica dos trabalhadores.
Para os comunistas, portanto, se colocam dois caminhos. Um primeiro, que passa pelo apoio à reeleição de Lula. Essa perspectiva se justifica principalmente por sua candidatura se constituir novamente em uma ferramenta para derrotar o bolsonarismo nas urnas e impedir o retorno de um governo centrado na destruição de direitos dos trabalhadores, como o foram Temer e Bolsonaro. Contudo, ao mesmo tempo, essa perspectiva se mostra limitada na medida em que o terceiro mandato presidencial de Lula – como os dois anteriores – não esteve voltado para o avanço de direitos dos trabalhadores, se limitando a um governo burguês que, no melhor dos cenários, recompôs a escassez deixada pela destruição bolsonarista.
Um segundo caminho passa pela possibilidade de apoio a uma candidatura da extrema-esquerda. Por certo, essa candidatura defenderia um programa centrado nos interesses dos trabalhadores e poderia ser uma ferramenta no processo de organização da classe trabalhadora no sentido da transformação da sociedade. Contudo, essa candidatura não teria diálogo com amplos setores da classe, se limitando a angariar votos entre os apoiadores que de antemão têm referência no partido. Mesmo que se unissem diversos grupos em torno de uma candidatura, essa seria uma unidade de ocasião, sem uma perspectiva de organização estratégica. Depois das eleições, ou mesmo ao longo do processo, os diversos grupos se voltariam para suas brigas por picuinhas e disputas retóricas quase que incompreensíveis para a maior parte da classe trabalhadora.
Portanto, a questão do apoio eleitoral não pode ser respondida de forma simples, como uma mera opção de voto. O debate estratégico precede o eleitoral, colocando a necessidade de se apontar para um projeto construído coletivamente pela classe trabalhadora. O democrático-popular, dominante como estratégia nas décadas de 1980 e 1990, faliu diante da subida do PT ao governo central, em 2003. Esse projeto, que apontava para reformas no capitalismo, no sentido de ganhos concretos para a classe trabalhadora, ainda que sem romper com a ordem burguesa, foi se esvaindo ao longo das décadas de integração do PT ao Estado. Outra perspectiva estratégica está em aberto, não tendo a classe trabalhadora, até agora, em termos de nível de consciência, conseguido superar os limites da democracia burguesa.
Os trabalhadores, por meio de suas organizações, precisam construir uma alternativa que se expresse para além das eleições. O voto em uma candidatura ou outra deve ser apenas a expressão tática da estratégia que os trabalhadores eventualmente coloquem em seu horizonte. Da forma como se faz o debate neste momento, com a ausência de um projeto estratégico construído de forma coletiva, defender o voto em Lula ou em qualquer uma das candidaturas da extrema-esquerda mostra apenas o oportunismo de setores que fingem levar a sério os interesses dos trabalhadores. O voto, sem uma estratégia delimitada, sem uma perspectiva organizativa para os trabalhadores, qualquer que seja, mostra-se uma ação estéril que em nada contribui para a transformação da sociedade.
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