Trump entre Cuba e Taiwan. Por Atilio Borón.

Trump repete a lógica das guerras sem fim: Vietnã, Iraque, Afeganistão e agora Irã. Os EUA acumulam derrotas militares e crises globais, enquanto o complexo industrial-militar lucra com conflitos permanentes.

Por Atilio Borón.

Trump e sua equipe medíocre de colaboradores não aprendem. Os Estados Unidos se atolaram na guerra do Vietnã e sofreram uma derrota humilhante. Depois, repetiram o mesmo no Iraque e no Afeganistão, com resultados idênticos. A retirada caótica das forças estadunidenses estacionadas em Cabul é uma das páginas mais vergonhosas da história militar dos Estados Unidos. Agora, ataca o Irã, bombardeia indiscriminadamente alvos militares e civis, ameaça mandar aquele país de volta à “idade da pedra”. Mas a resposta de Teerã foi devastadora: destruiu quase todas as instalações militares estabelecidas nas monarquias petrolíferas do Golfo e fechou o estreito de Ormuz, causando um grande aumento nos preços do petróleo e colocando em risco a economia mundial.

Segundo informações vazadas do CENTCOM dos Estados Unidos, havia nessas bases entre 40 e 50 mil soldados. Mas a Ásia Ocidental, que, como reflete a Bíblia, é uma terra pródiga em milagres, fez com que a Casa Branca reconhecesse apenas quatorze vítimas fatais — um milagre bíblico, se é que existe algum! — e cerca de quatrocentos soldados feridos, números absolutamente falsos que, mais cedo ou mais tarde, terão de ser retificados. A menos que, diante dos primeiros tiros, esse numeroso contingente militar tivesse fugido precipitadamente em busca de refúgio em algum país amigo da região ou retornado coberto de desonra aos Estados Unidos. Lembremo-nos de que a primeira vítima de uma guerra é a verdade, e não se pode acreditar “nem um pouquinho” no império, como advertia com razão o Che.

A destruição do sistema de radares instalado por sucessivos governos dos Estados Unidos nessas bases coincidiu com uma mudança climática repentina e radical observada desde o final de abril, quando a seca interminável e extrema de vários anos que assolava o Irã deu lugar a chuvas torrenciais em boa parte de seu território. Essa rápida mutação parece confirmar as suspeitas das autoridades iranianas de que os radares estadunidenses e israelenses orientavam a circulação de aeronaves que descarregavam substâncias capazes de afetar a formação de nuvens e diminuir o regime de chuvas. É bem conhecida a técnica da “semeadura de nuvens”, realizada visando provocar chuvas. Mas pouco ou nada se sabia sobre a eficácia que certas substâncias poderiam ter para impedir a chuva. Agora se sabe um pouco mais: é possível provocar e manter uma seca. A guerra climática entrou em cena.

Retomando o fio de nossa argumentação, Vietnã, Iraque, Afeganistão e agora Irã são tantos outros marcos de derrotas previsíveis, diante dos quais cabe questionar as razões que explicam a persistência desse “erro”. Resposta: Porque não se trata de um “erro”, mas da implacável implementação do plano de negócios do gigantesco complexo “industrial-informático-militar”, cuja rentabilidade se alimenta das guerras infinitas que o império provoca e trava.

Lucros que, não nos esqueçamos, derivam em parte do financiamento das carreiras políticas de legisladores nacionais ou estaduais, governadores e, é claro, daqueles que desejam se tornar inquilinos da Casa Branca.

Trump reiterou que, assim que a vitória dos Estados Unidos no Irã for consolidada, “assumirá o controle de Cuba quase imediatamente”. Se o fizer, estará caminhando para outro desastre, como o que Washington sofreu em Playa Girón em abril de 1961. Os covardes alados poderão bombardear a ilha e causar grandes danos materiais a edifícios e infraestrutura, mas, para “assumir o controle” desse país, os especialistas militares estimam que seria necessário enviar ao terreno uma força de cerca de 220 mil soldados para manter o controle e a ordem após a invasão, a mesma que desencadeará uma luta acirrada com as Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR) e as milícias populares ainda ativas até mesmo nas cidades menores da ilha. Essa iniciativa de Trump, além disso, daria o golpe de misericórdia nos alicerces vacilantes da ordem mundial moribunda e instauraria uma espécie de lei da selva onde, seguindo a doutrina Trump, qualquer país poderá invadir e tomar posse do território alheio.

Pequim e Moscou já alertaram sobre esse perigo e fizeram chegar suas críticas às pretensões de Trump. Mas alguém deveria também dizer ao tagarela nova-iorquino que, se avançar militarmente sobre Cuba, estaria oferecendo de bandeja a legitimação de uma operação semelhante que a República Popular da China poderia realizar para reintegrar manu militari a estratégica província rebelde de Taiwan.

Se tal coisa acontecesse, com que cara Washington poderia condenar Pequim por recuperar à força uma província própria, quando tentou fazer o mesmo, mas com um país independente como Cuba?

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