Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Há uma regularidade cruel na história dos regimes que constroem seu poder sobre um nome de família. O fundador acumula o carisma, a narrativa de origem, a aura do momento. O filho herda o sobrenome, e quase nunca herda o resto. Essa é uma das lições mais recorrentes da política, da monarquia ao populismo moderno, e que o Brasil, por razões que merecem reflexão, parece condenado a reaprender.
João VI chegou ao Brasil fugindo de Napoleão e, mesmo assim, construiu uma figura de pai-protetor, o rei que provou amar a colônia mais do que a metrópole. Era palatável,tinha uma figura caricata, se dizia afetuoso, astuto à sua maneira. D. Pedro I herdou o trono e a imagem, mas não a paciência do pai nem a confiança popular que ela gerava. Proclamou a Independência com um gesto grandioso, governou com contradições ainda maiores, e abdicou em 1831 pressionado por uma opinião pública que jamais o amou da forma que amara o antecessor. D. Pedro II, por sua vez, foi o mais culto dos três, o mais estável, talvez o mais lúcido e foi exatamente o que a República varreu primeiro, porque lucidez sem carisma fundador é apenas competência administrativa, e competência administrativa não move multidões.
A lógica se repete com variações em outros contextos. No Haiti, François Duvalier, o “Papa Doc”, construiu um regime autoritário que ao mesmo tempo tinha uma base real de identificação popular — o discurso da negritude, a retórica anti-elite. Jean-Claude, o “Baby Doc”, herdou o aparato e não herdou nada da mística; era um jovem estranho com óculos escuros que gostava de Ferrari, e o povo haitiano que sustentou o pai o expulsou do país em 1986. Na Coreia do Norte, Kim Il-sung foi o fundador, o guerrilheiro e o libertador mitológico. Kim Jong-il tentou ser o continuador e precisou de uma máquina de propaganda industrial para manter a ficção. Kim Jong-un, o neto, governa há mais de uma década e ainda não existe fora dos comunicados oficiais como figura política real, existe como ameaça nuclear, que é outra coisa.
O padrão não é exclusivo das ditaduras. Nos Estados Unidos, George H. W. Bush foi vice-presidente por oito anos, diretor da CIA, embaixador na ONU e diplomata sofisticado que navegou até o fim da Guerra Fria. George W., seu filho, chegou à presidência com o sobrenome e saiu dela com duas guerras fracassadas, a crise de 2008 e uma aprovação histórica de 25%. O nome só abriu a porta. O nome não governou.
É nesse contexto histórico (e não no de uma eleição qualquer) que se deve ler a trajetória de Flávio Bolsonaro.
Flávio não é, por si mesmo, uma figura política de peso. Sua carreira na Alerj foi marcada pelo escândalo do “rachadinha”, investigação que apurou o desvio de salários de funcionários de seu gabinete, caso que chegou ao Supremo Tribunal Federal e que, se não fosse o sobrenome, provavelmente teria encerrado sua carreira antes que ela começasse de fato. No Senado, onde deveria exercer seu mandato com alguma independência, Flávio operou sistematicamente como extensão do pai: amplificador, não pensador; repetidor, não formulador.
O que Flávio Bolsonaro faz — e o que pretende intensificar em 2026 — é precisamente o que D. Pedro I fazia ao invocar D. João: usar o nome como se fosse uma credencial de poder, como se a herança genética e a herança política fossem a mesma coisa. Não são. Nunca foram. Jair Bolsonaro, por mais que seja legítimo criticá-lo em cada vírgula de seu governo desastroso, construiu sua base política em décadas de presença nas redes militares, nos púlpitos evangélicos, nas fileiras da baixa patente e do agronegócio médio. Tinha um eleitorado que o via como “um deles”. Flávio não tem esse percurso. Flávio tem o Instagram do pai.
A direita brasileira, que tanto diz repudiar privilégios herdados, produz sem pudor sua própria aristocracia. E a aristocracia, como a história demonstra exaustivamente, se perpetua até o momento em que o herdeiro, por mediocridade ou por escândalo, torna inevitável a queda que o fundador adiou.
No Brasil monárquico, a República chegou quando o trono não tinha mais nada de carismático para oferecer. No Brasil de 2026, a pergunta que o bolsonarismo terá que responder é se uma base política construída em torno de uma persona pode sobreviver à persona. Ou se, sem Jair, só resta o sobrenome vazio, o “Baby Doc” de terno que tenta herdar um trono que nunca existiu por direito.
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