Gaza realiza a primeira eleição municipal em 20 anos

Autoridades de Gaza estão se referindo à votação em Deir el-Balah como um “projeto-piloto”, enquanto a Cisjordânia ocupada também realiza suas primeiras eleições desde 2023.

Os palestinos na região central de Gaza e na Cisjordânia ocupada estão votando nas eleições municipais, a primeira votação local realizada desde o início da guerra genocida de Israel contra Gaza.

As seções eleitorais abriram às 7h (04h GMT) deste sábado para 70 mil eleitores qualificados na área de Deir el-Balah, em Gaza – o primeiro processo eleitoral no enclave sitiado em 20 anos.

A votação em uma única cidade de Gaza é, em grande parte, simbólica, sendo considerada pelas autoridades como um “projeto-piloto”. Deir el-Balah foi escolhida por ser uma das poucas áreas em Gaza que não foram destruídas pelas forças israelenses.

Quase um milhão de eleitores registrados na Cisjordânia ocupada também estão votando para definir a composição dos conselhos locais responsáveis pela gestão da água, das estradas e da eletricidade. A votação é vista como meramente formal, já que as decisões políticas oficiais nas áreas ocupadas não são tomadas sem a aprovação de Israel.

As eleições ocorrem em meio a um cenário político fortemente restrito e a uma profunda desilusão pública, enquanto a Autoridade Palestina (AP) busca projetar reforma e legitimidade em meio à crescente frustração pública com a corrupção, a estagnação política e a ausência de eleições nacionais desde 2006.

A Palestinian woman casts her ballot at a polling station during municipal elections in the village of al-Badhan, north of Nablus, in the Israeli-occupied West Bank on April 25, 2026.
Uma mulher palestina vota em uma seção eleitoral durante as eleições municipais na aldeia de al-Badhan, ao norte de Nablus, na Cisjordânia ocupada [AFP]

A maioria das listas eleitorais é apoiada pelo movimento Fatah, do presidente Mahmoud Abbas, ou por candidatos independentes, sem participação oficial do Hamas, que controla partes de Gaza, nem de outros partidos políticos.

Unindo a Cisjordânia ocupada e Gaza

Com grande parte de Gaza devastada por mais de dois anos de “guerra”, a Comissão Eleitoral Central, sediada em Ramallah, optou por realizar sua primeira votação em Deir el-Balah. Ela teve que improvisar, pois não conseguiu realizar o cadastro eleitoral tradicional.

“A ideia principal é unir politicamente a Cisjordânia e Gaza como um único sistema”, disse seu porta-voz, Fareed Taamallah.

A comissão não coordenou diretamente com Israel nem com o Hamas antes da votação em Deir el-Balah e não conseguiu enviar materiais como cédulas, urnas ou tinta para Gaza, acrescentou ele.

Embora a participação eleitoral palestina tenha diminuído gradualmente, ela tem sido relativamente alta nas últimas eleições locais para os padrões regionais, de acordo com dados da comissão, com média entre 50% e 60%.

As primeiras eleições em Gaza em 20 anos

O Hamas venceu as eleições parlamentares em 2006 e tomou o controle de Gaza da Autoridade Palestina, liderada pela Fatah, um ano depois.

O grupo não apresentou candidatos para o sábado, mas pesquisas do Centro Palestino de Pesquisa Política e Opinião Pública indicam que continua sendo a facção palestina mais popular tanto em Gaza quanto na Cisjordânia ocupada.

Ramiz Alakbarov, vice-coordenador especial das Nações Unidas para o processo de paz no Oriente Médio, considerou as eleições “uma importante oportunidade para os palestinos exercerem seus direitos democráticos durante um período excepcionalmente desafiador”.

O Hamas controla metade de Gaza, de onde as forças israelenses se retiraram parcialmente no ano passado, incluindo Deir el-Balah, mas o enclave costeiro está se preparando para a transição para uma nova estrutura de governança sob o plano de 20 pontos do presidente dos EUA, Donald Trump.

O plano estabeleceu um Conselho de Paz composto por enviados internacionais e um comitê de palestinos não eleitos, destinado a operar sob sua égide.

O avanço para as fases seguintes, incluindo o desarmamento do Hamas, a reconstrução e a transferência de poder, está estagnado.

A polling official assists a Palestinian woman as she votes during the municipal council election, in Hebron, in the Israeli-occupied West Bank, April 25, 2026. REUTERS/Mussa Qawasma
Um mesário auxilia uma mulher palestina durante a votação nas eleições para o conselho municipal, em Hebron, na Cisjordânia ocupada. Foto: Mussa Qawasma/Reuters

Reforma eleitoral

O presidente palestino Mahmoud Abbas, de 90 anos, assinou no ano passado um decreto para reformular o sistema eleitoral, em consonância com algumas exigências dos doadores ocidentais.

As reformas permitem a votação em candidatos individuais, em vez de listas partidárias, reduzindo a idade mínima para se candidatar e aumentando as cotas para candidatas mulheres.

Em janeiro, outro decreto de Abbas exigiu que os candidatos aceitassem o programa da Organização para a Libertação da Palestina, o grupo que lidera a Autoridade Palestina. O programa prevê o reconhecimento de Israel e a renúncia à luta armada, o que, na prática, marginaliza o Hamas e outras facções.

As chapas nas principais cidades da Cisjordânia estão limitadas à Fatah, a facção que lidera a Autoridade Palestina, e a candidatos independentes, alguns com vínculos a outras facções. É a primeira vez em seis eleições locais que nenhuma outra facção apresentou oficialmente suas próprias chapas.

Na Cisjordânia ocupada, a Autoridade Palestina exerce autonomia limitada, e os conselhos locais supervisionam serviços que vão desde a coleta de lixo até licenças de construção.

As eleições estão sendo realizadas em aldeias da Área C, que abrange cerca de 60% da Cisjordânia e permanece sob controle direto de Israel – o que ressalta as restrições das eleições municipais. (O controle administrativo total deveria ter sido transferido para a Autoridade Palestina nos termos dos Acordos de Oslo de 1995.)

As eleições também serão realizadas em municípios que as forças militares de Israel ocupam desde que lançaram uma invasão terrestre no norte da Cisjordânia no ano passado.

Cartazes de campanha foram espalhados por todas as cidades, embora muitas – incluindo Ramallah e Nablus – não realizem eleições devido ao número insuficiente de candidatos ou chapas registradas.

O poder da Autoridade Palestina enfraqueceu em meio a anos sem negociações de paz com Israel e à expansão dos assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia ocupada.


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