CMPC e a nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro, RS

Por Roberto Liebgott, Cimi Sul – Equipe Porto Alegre.

As fábricas de celulose são gigantes que ferem a terra para dela extrair lucro. Dentre elas está a CMPC, uma das maiores desse setor exploratório.

Quando se instalam, devastam biomas, contaminam rios, fazem secar lagoas e ameaçam nascentes. Onde deveria haver diversidade, impõem monoculturas extensas. Onde deveria pulsar vida, avançam fileiras de eucaliptos tratados como florestas, embora sejam apenas lavouras industriais de árvores.

Os bichos somem. As aves rareiam. Répteis desaparecem. O silêncio da natureza denuncia aquilo que a propaganda tenta esconder.

A equipe gestora da CMPC no Brasil trabalhou discretamente pelos corredores dos gabinetes municipais, estaduais e federais para se expandir no Rio Grande do Sul. Enquanto isso, do lado de fora — nas cidades, bairros e nas margens de rios e lagoas — grande parte da população seguia alheia ao projeto que crescia em silêncio.

Compraram terras, arrendaram outras tantas, expandiram plantações destinadas a alimentar uma indústria dependente de processos químicos pesados. E desses processos restarão riscos: ar comprometido, água degradada, resíduos tóxicos, ameaças ao equilíbrio ambiental.

Depois do silêncio dos empresários, quando já haviam comprado consciências de quem deveria proteger o meio ambiente, veio a publicidade. Anúncios nas mídias, discursos ensaiados, manchetes complacentes, vozes no rádio, imagens na televisão. O velho roteiro: chamar de “natureza” o que a agride; chamar de “desenvolvimento” o que concentra riqueza; chamar de “progresso” o que pode deixar prejuízos permanentes.

E relativizaram as leis, as regras existentes e as convenções internacionais. Relativizaram os povos indígenas, as comunidades tradicionais, os pescadores e pescadoras, os trabalhadores e trabalhadoras, moradores e moradoras que vivem da terra, das águas e do equilíbrio entre elas.

E, quando já não há mais silêncio, quando muitas dessas vozes se levantam, surgem os ataques. Passam a fabricar argumentos frágeis, desqualificando denúncias, tentando intimidar quem questiona. Reagrupam-se e convocam setores políticos de direita e de esquerda para repetir promessas de emprego e prosperidade, como se números bastassem para apagar os danos ambientais e sociais.

Forma-se então o conflito: de um lado, a vida e o cumprimento da lei; de outro, a submissão das instituições ao poder econômico.

E o conflito se ergue e se estende: autoridades passam a se ajoelhar diante do dinheiro para depois pisar sobre a dignidade dos que lutam por justiça.

Mas, apesar desse ambiente de injustiças, seguiremos falando, mesmo quando tentam nos cansar, mesmo quando compram aplausos, mesmo quando prometem emprego, ouro e fartura sobre lama.

Seguiremos falando porque o Guaíba não é mercadoria; porque rio não se fabrica de novo; porque a nascente morta não ressuscita em relatório; porque água contaminada também contamina quem a bebe.

Seguiremos, porque há momentos em que calar é assinar a destruição com a própria mão. Seguiremos, portanto, denunciando a arrogância dos que tratam rios como moeda, florestas como mercadoria e comunidades como obstáculos.

Seguiremos lembrando que nenhuma riqueza compensa a morte do Guaíba, nem o adoecimento das águas de que dependem peixes, aves, plantas e pessoas.

Quando a água morre, nenhum lucro permanece. E então eles, empresários enfeitados de natureza — depois de décadas de exploração — buscarão em outro lugar mais terras, mais rios e mão de obra barata. E não se importarão por terem deixado para trás vidas devastadas, odor tóxico e pobreza desmedida.

Porto Alegre (RS), 23 de abril de 2026.

Roberto Antônio Liebgott é Missionário do Conselho Indigenista Missionário/CIMI. Formado em Filosofia e Direito.

 

 

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.

.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.