Por Zeno Carlos Tesser Junior.
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
(Canção de Chico Buarque ? 1979)
Há na alma brasileira uma imagem que teima em se repetir nos pátios das nossas instituições: a de Geni, personagem de Chico Buarque que, entre o pedregulho e o escárnio, serve de alvo para o exercício do sadismo coletivo de uma cidade que se pretende moralista. Geni é a encarnação recorrente daquele que precisa ser degradado para que a coletividade reafirme a própria moral. Ao observar, de fora, o fluxo obsessivo de ataques que meu marido, candidato a vice-reitor Rodrigo Moretti, vem sofrendo nas páginas da Apufsc (Sindicato dos Professores e Professoras das Universidades Federais de Santa Catarina), torna-se evidente que a UFSC, vitrine da “inteligência” catarinense, decidiu, no contexto desta consulta informal, encenar sua própria versão da “Ópera do Malandro”.
O que assisto não é crítica política, mas a liberação de um sadismo represado, disfarçado de crônica acadêmica. Um sadismo que se compraz em recorrer a termos pejorativos, como “miséria moral”, para desumanizar o outro. Mas o que realmente assombra não é a caneta de quem escreve, cujos textos revelam mais o autorretrato de um ressentimento do que a biografia do alvo. O que assombra é o silêncio sepulcral de uma comunidade que fez do combate ao assédio um emblema discursivo, mas que se cala quando a violência se torna politicamente conveniente.
A homofobia institucional na UFSC
Não nos enganemos: há indícios de um componente de homofobia institucional que atravessa a tolerância ao insulto. A tentativa de pintar um homem gay como alguém “instável”, que “muda de roupa” ou desprovido de “fibra moral” atualiza, em linguagem contemporânea, um repertório antigo de desqualificação, historicamente dirigido a minorias. Trata-se de uma estratégia de corrosão da dignidade, que atinge um docente por meio de alusões à sua masculinidade e à sua coerência, mobilizando estereótipos de “promiscuidade” política. Ao hospedar esse tipo de discurso, a Apufsc contribui para a normalização de uma lógica de exclusão que deveria ser a primeira a enfrentar.
O vazio moral dos “doutores”
Onde estão os núcleos de excelência que se dedicam a gênero e direitos humanos? Onde estão os grupos de pesquisa que analisam dinâmicas de poder e assédio? Onde estão as demais candidaturas à Reitoria que, nos debates, reivindicaram para si o discurso da ética?
Ninguém nesta universidade — nenhum grupo, nenhum coletivo, nenhum dos demais candidatos — possui hoje autoridade moral para oferecer lições sobre assédio. Assistir a um colega ser sistematicamente atacado em sua honra pessoal e profissional, em um espaço oficial da categoria, sem que se produza uma única nota de repúdio, revela o caráter seletivo da “ética” institucional. Quando a violência desgasta o adversário, é tolerada. Quando serve ao marketing de campanha, é instrumentalizada.
O custo do silêncio
Como marido, vejo o homem por trás do candidato. Como observador, vejo a falência de um projeto de convivência e de democracia que se pretende universal. Quem aspira ao topo da hierarquia acadêmica, mas se cala diante da barbárie discursiva que se instala no site da Apufsc, demonstra que seu compromisso com a dignidade humana é, no limite, apenas formal.
Geni, na canção de Chico, era a única com grandeza. Na UFSC, enquanto os pedregulhos voam e o zepelim da hipocrisia paira sobre o campus, resta saber quem terá a coragem de não ser apenas mais um a lançar a pedra ou se o sadismo seguirá operando como método da indiferença institucional.
A história dessa consulta informal está sendo escrita com a tinta da omissão e do silêncio. Essa mancha não se apaga nem com discursos nem com artigos acadêmicos.
Zeno Carlos Tesser Junior é cirurgião-dentista, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atualmente realiza seu segundo doutorado em Odontologia. Sua produção acadêmica se dedica às questões de gênero e diversidade na saúde.
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