
Por Luiza Soeiro
O anúncio da migração do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, do PSD para o Podemos, encerra uma novela de bastidores que, embora vendida sob o verniz da “estratégia de coalizão”, revela as engrenagens mais pragmáticas da política catarinense. Não se trata de uma ruptura ideológica, até porque, no atual cenário estadual, as fronteiras entre as siglas de centro-direita tornaram-se meras linhas de giz facilmente apagáveis. Mas estamos falando da sobrevivência e de um realinhamento de forças que visa, prioritariamente, o ano de 2026.
A saída de Topázio do PSD não foi um gesto de autonomia, mas o desfecho de um processo de isolamento. O prefeito encontrou-se espremido entre dois polos de gravidade: de um lado, o clã do Oeste liderado por João Rodrigues, que exige fidelidade canina ao projeto partidário; do outro, a Casa D’Agronômica, onde o governador Jorginho Mello (PL) opera a distribuição de recursos e alianças com a precisão de quem conhece o valor de cada prefeitura no tabuleiro estadual.
Ao optar pelo Podemos, Topázio escolhe um porto seguro que, na prática, funciona como um “puxadinho” estratégico do PL. A manobra é politicamente, e como sempre, higiênica: permite que o prefeito mantenha o apoio irrestrito do governador sem precisar, por ora, vestir a camisa verde e amarela, o que poderia gerar resistências em fatias mais moderadas do eleitorado da capital. É a política do “estar sem ser”, uma conveniência técnica que mantém as portas abertas, e dá um bom ângulo para as fotos.
A ironia reside na rapidez com que o discurso de “fidelidade ao projeto” do PSD foi substituído pela “necessidade de novos horizontes”. O partido que antes era a base sólida agora é descrito, nos corredores, como um ambiente de pressões descabidas. Enquanto isso, o Podemos recebe o prefeito não com um programa de governo, mas com uma planilha de garantias eleitorais. A sigla, que em nível nacional tenta se vender como uma via de renovação, em Santa Catarina aceita com naturalidade o papel de satélite, orbitando os interesses imediatos do Executivo estadual.
Nos bastidores, o que se comenta é que o preço da paz foi o distanciamento definitivo de João Rodrigues. O PSD de Santa Catarina, agora com uma “fera ferida” na capital, terá que recalcular sua rota de oposição ou adesão, enquanto Topázio tenta vender a imagem de um gestor técnico que paira acima das querelas partidárias.
Para o cidadão que caminha pelas ruas de Florianópolis, a mudança de sigla altera pouco o cotidiano, mas diz muito sobre a saúde das instituições. Quando o partido político deixa de ser um agregador de ideias para se tornar uma mercadoria de troca em negociações de segundo escalão, a democracia local é reduzida a uma mera gerência de interesses. Topázio no Podemos é a confirmação de que, no mercado político de Santa Catarina, a coerência é um passivo, e a conveniência, o ativo mais valorizado.
A peça mudou de lugar no tabuleiro, mas as regras do jogo continuam as mesmas: ganha quem melhor se adapta à direção do vento que sopra da Agronômica.
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