Os EUA enfrentam uma guerra de verdade: e estão sendo derrotados

Por José Álvaro Cardoso.

           Na agressão criminosa dos EUA ao Irã, ficam evidentes a improvisação e a ausência de um plano de guerra estratégico. Com o retumbante fracasso do plano de mudança de regime iraniano, permanece a dúvida do que os EUA farão agora. Vão apenas infligir destruição ao país? Vão continuar cometendo crimes de guerra, matando civis inocentes, incluindo meninas entre 6 e 12 anos?  Qual é o plano de guerra? Os EUA iniciaram um processo mal-planejado, do qual esperavam um resultado rápido, que não veio. Por conta disso, eles já não estão mais no controle do processo. Pelo que se pode concluir das manifestações do governo iraniano, o país vai continuar a guerra enquanto lhe for conveniente. A esse respeito, Donald Trump não pode fazer nada, além de reclamar e continuar mentindo até pelos cotovelos.

          Donald Trump tem feito declarações sucessivas sobre o sucesso das operações navais no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico. O Comando Central dos EUA (CENTCOM), através do almirante Brad Cooper, chegou a declarar que a coalizão conseguiu afundar “toda a Marinha de guerra” iraniana após atingir cerca de 2.000 alvos.

          Essas informações provavelmente estão muito exageradas, como é hábito do governo americano. Análises militares independentes (por exemplo, Andrei Martyanov, analista militar e naval russo-americano, especialista em assuntos militares russos e estratégia naval), confirmam perdas significativas, mas com nuances importantes. Porém, a questão fundamental é que, mesmo que a marinha iraniana esteja toda no fundo do mar, isso não faz a menor diferença. O estreito de Ormuz permanece fechado para a navegação comercial e é isso que importa. A interrupção, que já dura duas semanas, é o bloqueio mais severo da história recente da região.

         O fechamento do Estreito, operado pelo Irã no início da guerra como resposta ao ataque, traz consequências muito graves. O fluxo de petroleiros e navios de GNL (Gás Natural Liquefeito) está praticamente zerado. Não estão passando por ali, também, as matérias-primas para produção de fertilizantes, fundamentais para a produção agrícola mundial. Monitoramentos de satélite mostram que as rotas que costumavam carregar 20% do petróleo mundial estão desertas. Desde o dia 5 de março, as principais seguradoras marítimas cancelaram as coberturas para a região, tornando qualquer tentativa de travessia financeiramente inviável para empresas privadas. Ademais, embora o Irã tenha sido cauteloso na implantação massiva de minas, a presença confirmada de artefatos explosivos em pontos estratégicos impede a reabertura segura do Estreito sem uma operação de varredura em larga escala. Ou seja, o fechamento do estreito de Ormuz nunca dependeu da marinha iraniana.

         O governo americano está falando em destruir equipamentos industriais no Irã, como já fizeram em inúmeros ataques anteriores a outros países. Mas é bobagem supor que, a essa altura da guerra, ainda possa haver equipamentos industriais de alto valor localizados em instalações industriais conhecidas. Provavelmente, estes locais mais importantes já foram removidos. É bom sempre lembrar que os iranianos estão se preparando para esse embate há décadas e que têm cometido pouquíssimos erros nesta guerra.

          Tecnicamente, haveria maneira de reabrir o estreito de Ormuz com força bruta. Mas, segundo os especialistas, a operação só poderia ter chance de sucesso se fossem utilizadas forças terrestres. Que teriam que ser norte-americanas, visto que, entre os países aliados dos EUA na região, não há forças armadas com capacidade de enfrentar o Irã. É bom sempre lembrar que o Irã desenvolveu um poder militar baseado na doutrina de defesa avançada e na necessidade de sobrevivência sob sanções, há 47 anos. Nesse período, desenvolveu uma Indústria de Defesa Nacional, que fabrica seus próprios mísseis balísticos, drones e sistemas de defesa aérea. Isso fornece ao país uma capacidade técnica que não depende de cadeias de suprimentos externas que podem ser cortadas em uma guerra.

          O Irã possui, ademais, um território vasto e montanhoso, população de 93 milhões, além de uma resiliência física e moral que as pequenas monarquias do Golfo, países artificiais criados pelo imperialismo britânico, sequer imaginam o que significa. Além disso, a fibra moral e ideológica do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) e sua rede de aliados regionais (o “Eixo de Resistência”: que inclui Hezbollah, Houthis e as milícias iraquianas) possibilitam ao Irã lutar uma longa guerra de exaustão com qualquer país.

          Por essas razões, as tropas terrestres teriam que ser norte-americanas. O problema é que a operação, além de custar muito dinheiro, demoraria muito. Os especialistas avaliam que, para ser bem-sucedida, uma operação dessas teria que ser planejada durante meses, ou até anos. E tempo é tudo que os agressores não dispõem no Irã Possivelmente, o Irã não conseguiria manter tropas nas imediações do Estreito porque os caças norte-americanos e israelenses conseguiriam mantê-las afastadas. O problema é que os agressores não têm uma resposta eficaz aos mísseis balísticos e drones iranianos. Portanto, tropas invasoras por terra no Irã estariam sujeitas aos ataques desses artefatos, além de exigir uma capacidade logística de apoio aos soldados, sofisticada e cara.

         Seria uma operação muito custosa que levaria meses para ser realizada, além de politicamente muito impopular nos EUA. O imperialismo corre contra o tempo. Os EUA têm problemas materiais básicos, como a escassez de munições, o que revela como o país está improvisando nesse conflito. O plano era derrubar o regime iraniano em poucas horas e encerrar a guerra com uma rendição do inimigo. Por isso, se calcula que os agressores ficaram sem munição em semanas. Além disso, tem o problema mais importante: se o estreito de Ormuz continuar fechado, a economia mundial entrará em colapso em pouco tempo, o que afeta diretamente o poder econômico dos EUA.

          Os EUA entraram em uma guerra, de forma improvisada, contra um povo que sempre rejeitou a submissão a potências estrangeiras. O governo francês se ofereceu para ajudar os EUA. Mas qual a capacidade militar deste país que possa servir ser útil nessa empreitada? Enquanto os EUA vão tirando falsas soluções da cartola, à medida que a guerra avança, os iranianos seguem o seu plano de guerra, meticulosamente construído.

          Os analistas de guerra mais competentes têm chamado a atenção para o fato de que as ações dos iranianos na guerra entraram no ciclo de decisão dos norte-americanos. Estes já mudaram o plano de guerra cinco ou seis vezes, a partir dos acontecimentos no teatro de operações. Enquanto isso, os iranianos mantêm o plano pensado com antecedência, em minúcias. Não mudaram substancialmente nada desde o início da guerra. Ou seja, os persas têm a iniciativa das ações, enquanto os agressores imperialistas e sionistas apenas reagem.

          Quais as cartas que os agressores ainda dispõem para tentar subjugar o governo iraniano? A capacidade industrial de produção de material bélico dos EUA é limitada, tecnológica e quantitativamente. Além disso, nos últimos anos, o material bélico foi destinado à guerra na Ucrânia (que a OTAN, chefiada pelos EUA, já perdeu de fato) e para o genocídio na Faixa de Gaza, perpetrado pelos assassinos sionistas. Como a estratégica de guerra relâmpago não funcionou, há um risco concreto de falta de munição nas próximas semanas, no lado das forças agressoras.

          Ainda é muito cedo para qualquer conclusão definitiva, mas essa guerra parece estabelecer o fim do mito de que o poderio bélico norte-americano seria invencível. Essa percepção não se baseia apenas na destruição física, mas na falência do modelo de supremacia tecnológica e econômica que os EUA sustentaram desde o fim da Guerra Fria. Uma das razões desse fenômeno é o que se chama de “assimetria de custos”. Nesta guerra, o Irã vem demonstrando que a tecnologia de guerra americana pode ser superada por meios muito mais baratos. Drones iranianos, que custam cerca de US$ 15.000 (Shahed-136), têm que ser combatidos com mísseis interceptores que custam mais de US$ 1 milhão. E muitas vezes são ineficazes, como se pode observar pelas imagens que vêm de Telavive.

          Nesta guerra, perpetrada pelo desespero e pela mais vil ambição econômica e geopolítica, os EUA perderam a condição de “árbitro global” (com gostam de representar) para se tornarem apenas mais um combatente. O mito da invencibilidade já vinha desgastado pelas inúmeras guerras em que os EUA perderam, desde o Vietnã. Mas nesta guerra este mito está sendo substituído pela realidade de vulnerabilidade, especialmente quando se trata de um confronto contra países soberanos e com profundidade estratégica[1], como o Irã.

           Completados hoje 17 dias do início da guerra, o preço do barril do petróleo já está custando algo em torno de US$ 103, 45% superior ao preço vigente às vésperas da guerra. A confluência de fatores que levou a esta crise econômica, provavelmente o mundo nunca enfrentou antes, por isso as consequências são imprevisíveis. Esta guerra deve acabar em definitivo com o chamado mundo da globalização, que antes da guerra já estava moribundo. Tudo indica que caminhamos para um mundo mais instável e escasso em recursos de todo o tipo. Na sociedade moderna, a realidade é que sem energia barata é impossível para as nações darem condições mínimas de vida para suas populações. No curto prazo, o que veremos por parte dos governos é a tentativa de criar mecanismos de acesso à energia barata. Tudo indica que a agressão ao Irã – que aparentemente irá acelerar a decadência do império – tem como uma das suas motivações, a visualização do cenário citado acima.

[1] A profundidade estratégica é um conceito militar e geopolítico que se refere à distância entre as fronteiras (ou as linhas de frente de um combate) e os centros vitais de um país, como sua capital, núcleos industriais e principais concentrações populacionais.

José Álvaro Cardoso é membro do DIEESE/SC, economista, escritor e apresentador da coluna Análise da Economia, no JTT do Portal Desacato.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.