Por Roberto Liebgott, Cimi Sul – Equipe Poto Alegre.
Antes da ponte sobre o Rio Capivari, às margens da RS-040, vive, há mais de cinquenta anos, uma pequena comunidade Mbya Guarani. Cerca de dez famílias mantêm ali o seu tekoá – o lugar de ser, viver e existir como povo.
Mas o que deveria ser território virou margem.

A aldeia se ergue entre o asfalto e as cercas das fazendas. Pequenas casas de madeira, alguns barracos de lona. Não há água encanada. A água chega em caminhão-pipa, pouca, insuficiente, como se até o direito de beber tivesse que vir em prestações.
Há uma pequena escola. Uma escola que às vezes parece existir mais para constar nos papéis do que para garantir, de fato, o direito de aprender.
Não há terra para plantar.
A terra está logo ali, depois da cerca.
Do outro lado, estendem-se as lavouras de soja. Um mar verde que cresce sobre o que antes eram campos, árvores, nascentes e pedaços de mata – lugares onde os Guarani caminhavam, colhiam, pescavam, caçavam, respiravam.
Hoje, tudo foi nivelado.
A terra indígena nunca foi demarcada. Os estudos que deveriam ser iniciados no ano de 2012 foram interrompidos mesmo antes de começarem. A própria justiça, em uma ação civil pública, determinou que o Estado demarcasse ou comprasse uma área de terra.
Mas a demarcação não chegou.

Chegaram máquinas, venenos e cercas.
O Rio Capivari, que antes corria cheio de peixes, agora carrega o cansaço da água contaminada. O que escorre das lavouras desce para dentro do rio, e o rio já não devolve a vida de antes.
Enquanto isso, os Mbya seguem ali, vivendo no mesmo lugar onde sempre estiveram – mas confinados à beira da estrada.
A poucos metros da aldeia, caminhões passam carregados de grãos. A soja segue viagem, atravessa portos e oceanos, alimenta cadeias de exportação, engorda bois, galinhas e porcos em mercados distantes.
Talvez na China.
Talvez na Europa.
Aqui, porém, permanece o que sobra: a cerca, o veneno e a margem.
E permanece também uma dívida histórica do Estado brasileiro: reconhecer e demarcar uma parcela de terra onde as famílias deveriam viver há décadas, não na beira da estrada. A própria Constituição Federal, em seu artigo 231, reconhece aos povos indígenas os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam e determina que cabe ao Estado demarcá-las e protegê-las.
No caso de Capivari do Sul, esse direito segue esperando.
E, apesar de tudo, da história de dores e sofrimentos, da omissão, da exclusão, as famílias Mbya Guarani continuam ali.
Resistindo.
Os Mbya não pedem um favor, mas que o Estado brasileiro reconheça e declare o cumprimento do seu direito: a demarcação de sua terra.
Porto Alegre (RS), 14 de março de 2026.
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