Therians: Quando a política vira performance, os jovens só seguem o roteiro

Por Alberto Trimboli.

Há algumas semanas, começou a circular com força na mídia e nas redes sociais o fenômeno dos chamados therians: adolescentes que se identificam com animais, usam caudas ou máscaras e compartilham vídeos nos quais expressam que se sentem lobos, gatos ou raposas.

Como costuma acontecer com qualquer expressão juvenil que rompe com a norma, rapidamente surgiram duas reações extremas: aqueles que banalizam e estigmatizam, afirmando que se trata de uma moda inofensiva, e aqueles que descrevem como um sinal de doença mental coletiva.

Acredito que nenhuma das duas visões ajuda a compreender o fenômeno. Sabemos que os jovens sempre construíram identidades diferenciadas. Não é a primeira vez. Só para citar alguns, nos anos 60 foram os hippies, acusados de imorais e desviados. Nos anos 70, o punk era visto como uma ameaça social. Os góticos eram associados à depressão ou ao satanismo. Os emos eram estigmatizados como frágeis e autodestrutivos. Os cosplayers eram considerados personalidades infantis.

Em Buenos Aires, muitos se lembrarão das tribos urbanas que se reuniam no shopping Abasto nos anos 90 e 2000: floggers, darks, skatistas. Cada geração tem o seu grupo “estranho”.

A diferença hoje não é a estranheza. É a escala, a velocidade e o contexto em que se desenvolve. As redes sociais permitem que microidentidades que antes ficavam em pequenos círculos fechados agora se ampliem globalmente. O que antes era um grupo numa praça, hoje é uma comunidade internacional no TikTok ou Instagram.

No caso dos therians, na sua maioria, não se trata de jovens que acreditam literalmente ser animais. Trata-se de adolescentes que usam a metáfora animal como forma de expressar traços de personalidade, emoções ou pertencimento a um grupo. A adolescência é, por definição, uma fase de experimentação de identidade. Estéticas e discursos são testados. Identificar-se simbolicamente com um animal, hoje, geralmente, é um fenômeno cultural.

No entanto, é importante diferenciar que uma coisa é uma identidade simbólica e outra muito diferente é a perda de contato com a realidade. Ou seja, a capacidade de distinguir fantasia de realidade.

Quando um adolescente sabe que biologicamente é humano, pode explicar a sua identificação como metáfora, mantém vínculos, estudos e funcionamento cotidiano, não estamos diante de um quadro psicopatológico pelo simples fato de usar uma cauda ou uma máscara em certos contextos.

O que muda radicalmente o cenário é o ambiente digital. As plataformas não são neutras. Os algoritmos moldam identidades, geram bolhas de confirmação e amplificam comportamentos que obtêm visibilidade. A pertença não é mais territorial, mas algorítmica.

Cada geração adulta tende a interpretar as expressões juvenis como um sintoma de decadência. Isso ocorreu com o rock, com o punk, com os videogames e com as redes sociais.

O fenômeno therian não é um “surto psicótico coletivo”, mas também não é irrelevante. É uma expressão identitária que deve ser interpretada no contexto de uma adolescência marcada pela hiperconectividade, exposição permanente e mensagens que chegam dos adultos, muitas vezes, das esferas mais altas do poder.

E aqui surge outro elemento do clima da época. Vivemos no mundo, e especialmente na Argentina, uma época em que a estranheza, a provocação e o disruptivo também se instalaram na cena pública. Vemos líderes que recorrem ao disfarce, à performance permanente, à banalização de temas extremamente sensíveis. Ouvimos discursos estigmatizantes em relação às minorias. Tudo parece girar em torno do impacto, do escândalo e da constante ruptura da norma.

Quando o excêntrico se torna regra na esfera adulta, a mensagem implícita para os mais jovens é clara: para existir, é preciso chamar a atenção, exagerar a identidade, performar permanentemente.

Num contexto como esse, as identidades juvenis também se tornam mais visíveis, mais teatrais e mais intensas.

Nesse sentido, e para finalizar, é fundamental não confundir crueldade, maldade, cinismo, desprezo e ódio pelo outro com loucura. Raramente esse comportamento ocorre em pessoas com transtornos mentais, portanto, nem toda conduta agressiva é expressão de um transtorno psíquico.

Muitas vezes trata-se, simplesmente, de decisões éticas, posições ideológicas e de poder. Patologizar a crueldade é uma forma de isentá-la de responsabilidade. E usar a categoria de “loucura” para explicar a crueldade não só é conceitualmente errado, como também injusto com aqueles que realmente sofrem de doenças mentais e não exercem violência. A saúde mental não pode se tornar um insulto político.

Não se trata de estabelecer uma relação linear ou simplista entre política e fenômenos culturais juvenis. Mas sim de reconhecer que os jovens não crescem no vácuo. Eles socializam num clima cultural onde a exposição, a provocação e a espetacularização são moeda corrente.

Se os adultos transformam a vida pública num espetáculo permanente, onde tudo é performance, provocação e encenação, não podemos nos escandalizar quando os jovens fazem o mesmo.

Se a mensagem que vem de cima é que, para existir, é preciso causar impacto, exagerar e agredir, então não devemos nos surpreender que as identidades juvenis se tornem mais visíveis, mais teatrais e mais intensas.

Talvez o problema não seja a máscara dos adolescentes.

Talvez o problema seja o cenário que estamos oferecendo a eles.

Alberto Trimboli é presidente honorário da Associação Argentina de Saúde Mental (AASM) e trabalha na UNT – Universidade Nacional de Tucumán e no Hospital Geral de Agudos Dr. Teodoro Álvarez.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.

Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.


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