
O caso que teve início com a agressão física ao professor de artes Andrei Dornelles, em frente à Escola Básica Municipal do Muquém, no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, ganhou desdobramentos que ultrapassam a esfera criminal e passaram a atingir diretamente o debate político no estado. O homem acusado de espancar o docente foi nomeado para cargo comissionado na Câmara Municipal, no gabinete do vereador Bericó (PL). Diante da repercussão negativa, a contratação acabou sendo anulada. Ainda assim, pouco tempo depois, o nome do agressor passou a constar em novo vínculo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em gabinete ligado ao deputado estadual Alex Brasil, também do Partido Liberal, enquanto responde a investigação pelos crimes de lesão corporal, ameaça e calúnia/difamação.
Manoel Abílio Pacífico é apontado como autor da agressão ocorrida na porta da escola, episódio que, segundo o professor, foi precedido por uma escalada de ataques ideológicos e pela disseminação de desinformação nas redes sociais. Para justificar a violência, Pacífico passou a divulgar a acusação de que Andrei teria abusado sexualmente de seu filho. A denúncia foi formalmente apurada pelas autoridades competentes e arquivada por ausência de fundamento. Mesmo após a conclusão da investigação, o conteúdo continuou a circular em ambientes digitais, ampliando o impacto da agressão para além da violência física e atingindo a reputação e a vida pessoal do professor.
Durante entrevista ao Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras (JTT), Andrei relatou em detalhes o impacto pessoal e emocional do episódio. “O que aconteceu comigo não foi algo isolado. É a continuidade de um processo de violência que vinha se intensificando, como se minha voz fosse um problema a ser eliminado”, afirmou, visivelmente emocionado. “Depois da agressão, precisei provar que nunca cometi o que eles inventaram.”
O advogado Rodrigo Sartoti, que atua como assistente da acusação, explicou que a investigação evoluiu para além do que a lei dos Juizados Especiais prevê. “O Ministério Público de Santa Catarina entendeu que os fatos exigem apuração mais aprofundada. Não se trata de crime de menor potencial ofensivo”, disse ele, referindo-se ao encaminhamento do caso à vara criminal competente.
Sartoti também comentou as iniciativas na esfera civil: “Além da ação criminal, estamos avaliando ações por danos morais e de responsabilização do Estado, considerando que a integridade do professor foi violada em ambiente escolar.”
Nomeações políticas e deboche público
Em fevereiro de 2026, Pacífico foi nomeado para cargo comissionado no gabinete de um vereador do Partido Liberal na Câmara Municipal de Florianópolis. Em resposta à repercussão pública, a Câmara anulou a nomeação.
Durante a entrevista ao vivo, foi exibido um vídeo no qual o vereador Bericó faz comentários em tom de deboche sobre o episódio e sobre a reação da sociedade à nomeação. No vídeo, o parlamentar ironiza críticas e insinua que o investigado poderia ocupar outros espaços políticos.
Para Andrei, essa postura reforça a dimensão política da perseguição. “Eles transformam a violência em palco. A agressão que sofri virou matéria de riso em redes políticas, como se fosse um espetáculo”, afirmou o professor.
Após a anulação da nomeação na Câmara, o nome de Pacífico passou a constar vinculado a um gabinete na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, ligado ao deputado estadual Alex Brasil, também do PL. A circulação do investigado em cargos públicos mesmo diante de investigação policial gerou amplo debate na sociedade catarinense sobre critérios de nomeação para funções comissionadas e sobre a responsabilização política de indivíduos que respondem a inquéritos por violência.
Um panorama mais amplo
O caso de Andrei não é um episódio isolado em Santa Catarina. Dados apresentados em audiência pública na Assembleia Legislativa mostram que, só em 2025, foram registrados 6.846 casos de violência contra professores na rede pública estadual, o que representa uma média de 44 ocorrências por dia letivo. Nos últimos quatro anos, quase 5 mil docentes relataram agressões de diferentes tipos, incluindo física, verbal e simbólica.
O levantamento do Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (Nepre) também revelou que um em cada 100 calendários escolares foi interrompido por episódios de violência e que um em cada 20 diretores relatou presença de porte de armas por estudantes nas unidades.
Durante a audiência, representantes da categoria afirmaram que o crescimento dos casos é acompanhado por falta de apoio institucional e políticas públicas eficazes para proteger educadores, ao mesmo tempo em que há uma percepção de negligência diante de episódios que vão da hostilidade verbal à agressão física.
O impacto na vida do professor
Para Andrei, os efeitos vão além da esfera jurídica. Após o episódio e a divulgação das acusações falsas, ele decidiu deixar Florianópolis temporariamente por medo de novas agressões. “Minha vida e a da minha família foram profundamente afetadas. Não é só a agressão física. É a exposição pública, o medo constante, a necessidade de provar sua inocência todos os dias”, disse.
Apesar disso, ele reafirmou sua determinação. “Enquanto houver opressão e a gente tiver força para permanecer de pé, vamos continuar lutando por uma educação pública plural, livre de violência e medo.”
O caso segue em tramitação na Justiça, com investigação criminal em curso e desdobramentos ainda em avaliação nas instâncias cíveis.
Assista a entrevista completa no vídeo abaixo:
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