“Estarei vivo, mesmo enterrado” (Nêgo Bispo).
Não deveríamos perder tempo com falsas dicotomias, como tentar inventar incompatibilidade e inexistentes disputa entre as lutas.
A Mulher Trans na Universidade (que já foi Vossa, doutores “anti-identitários”, e minha, tanto quanto da burguesia fascista) tem todo o direito de dizer não somente o que você quer ouvir, mas principalmente daquela forma que Você não está acostumado e ainda se incomoda. Até porque isso aqui nunca foi somente sobre você e o seu egocentrismo branquilegiado e bem alimentado.
Principalmente tendo o fascismo batendo na porta, exatamente com vossa violência argumentativa sobre os coletivos aos quais uma minúscula parte da esquerda intelectualóide (sem base que não seja o privilégio de encher a estante de livros) escolheu como seu saco de pancadas particular.
Numa sociedade que se acostuma ao Feminicídio, ao Genocídio do Povo Preto, ao fato de sermos o país que mais assassina pessoas trans, que mais persegue os brasileiros originários (povos indígenas e quilombolas), que um suposto esquerdista se ache hoje no direito de alimentar o coro da direita nazifascista “simplesmente” porque elas (as maiorias, mulheres, negros, que eles chamam de minorias) não leram a Sua Cartilha, é um requinte vil. Agredir quem não luta do jeitinho que Ele, o pseudoesquerdista (quem define isso?), acharia melhor que lute somente da forma que ele mais gosta… Isso é mais que um erro absurdo.
É o atraso, muito caro, de deixar que o fascismo goste até mesmo do que você diz e faz.
No dia em que um fascista simpatizar com o mínimo do que eu digo, repensarei mais ainda tudo que ando dizendo (ou calando).
O falso debate trazido sobre os ataques mais baixos à Carolina, ao Bispo, a Ailton, à Rita ou à Érika, não é um pequeno detalhe.
Demonstram o porquê de ainda estarmos assim, depois de tantos anos de lutas acumuladas e de vitórias institucionais burocratizadas, carentes do verdadeiro Trabalho de Base.
A vossa base é o Medo. O medo de ser feliz, lembram? Ou o medo de admitir o seu próprio medo de “perder poder”.
Como Ele, branquilegiado, só admite isso consigo mesmo, de noite, ao apagar a luz e deitar sozinho no travesseiro, age covardemente ao trazer pro debate público o espantalho que não nos faça ver aquilo que mais lhe incomode: que não seja Ele o guru de sempre.
E por mais seguidores que estejam ganhando à direita (é fato) nas Suas redes sociais cada vez mais muskistas.
Estou tentando aprender a desmontar, faz tempo, essa falsidade do Branquilegiado (eu?).
Primeiro, porque eu o conheço MUITO BEM. Tenho espelho em casa. “Ele” sou eu, com a fundamental diferença de admitir, Eu, abertamente (chocando quem não admite isso pra si mesmo) e marcar mais a nossa semelhança (ambos nos dizemos de esquerda?) do que o que nos difere. Como eu disse, o conheço muito bem, inclusive sua retórica e o seu próprio medo (Ele que tem medo de admitir que teme).
Segundo, por que eu remarco a diferença entre perguntar-me na cara dEle “o que nós ainda temos de racistas e de machistas, mesmo sem admitir”? Admitir é o verbo exato, Freireano, que tudo muda. Só se desconstrói aquilo que se admite que foi construído. Fingir que não o é, é viver alimentando novas mentiras.
Experimente como eu fiz, gritar na rua da Espanha onde eu vivo: “España es racista”. E perceba quantos espanhóis, amigos inclusive, “se doem” com isso. Como se eu estivesse inventando algo que inexiste, mesmo depois de todas as estatísticas estruturantes dos atuais dados científicos.
Eu Sou Machista! Repita comigo mesmo, bem alto, e veja como isso arde e queima bem dentro da gente. Por que será? Mas, logo, aproveite o fogo e lute para não continuar na merda. Atente para a nossa própria capacidade de criar uma capa, ainda sair de vítima e seguir conquistando mais corações com nossa retórica linda, que o patriarcado tão bem soube nos brindar. E com tanta gente seduzida (mesmo as pessoas menos alienadas) para nos escutar.
Admitir a estrutura racista e machista (cuidado que ela seduz e apreende; até mesmo se autoengana, principalmente) é algo que nos liberta como seres humanos. E não o contrário.
Quem acendeu a chama da Revolução Russa e da Comuna de Paris foram as mulheres (até mesmo pela quase inexistência de militantes homens naqueles pós-guerras). Quando a imprensa de esquerda no Brasil noticiou as gloriosas (sem ironia) greves do ABC metalúrgico em São Paulo, esqueceu hipocritamente de admitir que naquele mesmo ano explodiam greves reprimidas com muito mais violência nos canaviais da Zona da Mata pernambucana. Era um detalhe que a maioria dos cortadores de cana fossem pretos? O Brasil não nasceu assim?
É falso e cruel querer (felizmente sem êxito) atormentar os novos movimentos sociais brasileiros, aqueles autenticamente revolucionários e incômodos, “diferentes de tudo que já vimos”, porque eles não leram toda a epistemologia marxista (como nem Marx nunca os obrigou a isso, por ser homem do seu tempo, além de tudo que enfrentou). É sacanagem dizer (com a boca e o bolso cheios) que aquele Decolonialismo (que não é o meu) está cooptado pela CIA, por ONGs europeias, pelo capitalismo imperialista, como se fossem ingênuos e ignorantes, brutos, bárbaros, que não lutam do jeito que vocês querem, “senhores guardiões sagrados do dogmatismo da luta de classes, amém”.
Eu sou classista, sim. E seguirei não necessitando da vossa carteirada, nem da minha. Mas não é só na teoria que eu digo que o antifascismo tem que ser também radicalmente ativo contra as homofobias. Obrigatoriamente! Ou melhor, se auto-obrigando a isso.
Chama-se Co-e-rên-cia.
Por isso, Djamila foi na veia. Pra mim, depende muito de Onde fala (mais do que Quem fala), até mesmo aquele que me critica, sempre construtivamente e com respeito.
Precisei assistir a muitos vídeos do meu conterrâneo Jones Manoel para respeitá-lo suficientemente em quase tudo (muito!) do que me critica como petista. Isso me habilita (igual quando eu critico, sem medo de ser feliz, o mito da infalibilidade lulista) para dizer que não concordo com um dos seus últimos vídeos quando ele diz-se, salvo engano, que a melhor teoria decolonial tem que (necessariamente?) ter bases do materialismo histórico (que eu tanto gosto e admiro).
Como ele mesmo, Jones, sentencia: não existe teoria crítica, sem autocrítica. E sem que isso nos enfie num imperativo poço sem fundo.
Existe vida “lá fora”, e por isso eu grito: viva toda e qualquer forma de rebeldia! Inclusive e principalmente aquela que nunca foi “minha”.
Nunca se tratou tanto de incompatibilidade entre lutas.
Tudo aquilo que usam Eles (que reinventaram o identitarismo como alimento para os seus medinhos), dizendo ser “para evitar o divisionismo”, divide mais ainda.
E, por isso, Nikolas também os ama.
E acabo, dando nome aos bois, Risérios, Rodrigos, Dórias, Bugalhos e Alhos. Uma pequena amostra.
Sorte de vocês que eu só sou um Zé Ninguém. Senão, aceitariam meu convite pra um debate “entre iguais”.
E ao me olharem no olho, devolveria espelhos. Vocês merecem. Não mais que isso.
Se enxerguem, seus cabras.
Voltem para a meritocracia das suas Torres de Marfim e deixem em paz quem vocês covardemente atacam, pensando que já não está mais aqui.
Estando hoje muito mais do que vocês pensavam não estar, Carolina Maria de Jesus e Nêgo Bispo, ancestrais (sim, ancestrais!). Presentes. Sempre.
Nunca vai quem sempre está.
Vocês, passarinho…
Aquele abraço.
@1flaviocarvalho, sociólogo. Barcelona, 26 de janeiro de 2026.
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