
Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, conforme dados consolidados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia pelo simples fato de serem mulheres. Este total supera os 1.464 casos contabilizados em 2024 e marca a maior quantidade já registrada desde que o crime foi tipificado em lei.
Esse avanço numérico ocorre em um contexto contraditório: enquanto o total de homicídios intencionais no país caiu pelo quinto ano seguido, refletindo uma tendência geral de redução da violência letal, o feminicídio segue em trajetória ascendente e alarmante — um sinal de que a violência de gênero não acompanha as mesmas trajetórias de queda.
Os números por estado e território
Os dados também revelam padrões significativos quando observados por região. Os estados mais populosos e com maior número absoluto de casos são São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, tendo a capital paulista na liderança dos registros.
Em termos de taxa proporcional, estados de menor população, como o Acre, aparecem entre os que mais registraram feminicídios por número de habitantes em 2025.
Além disso, Santa Catarina registrou 225 tentativas de feminicídio em 2025, ocupando o quinto maior número do país nesse tipo de crime, segundo dados oficiais estaduais.
Violência racial e desigualdade social
Relatórios e anuários sobre segurança pública e violência de gênero já indicam que a violência letal atinge de forma desproporcional mulheres negras, especialmente em regiões onde desigualdades sociais estruturais são mais agudas. Em levantamentos anteriores, cerca de 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil eram mulheres pretas ou pardas, e a violência ocorria majoritariamente no ambiente doméstico, muitas vezes nas mãos de parceiros ou ex-parceiros.
Esses padrões não surgem isoladamente. Eles se entrelaçam às hipóteses de subnotificação, desigualdades regionais e à lenta implementação de políticas públicas efetivas de prevenção, acolhimento e responsabilização. Investigadores e organizações de direitos humanos têm destacado a necessidade de redes de proteção mais amplas, serviços especializados e programas de educação e prevenção adaptados às realidades locais.
O cenário e as respostas sociais
A dimensão dos números provocou reação da sociedade civil. Em diversas capitais brasileiras, manifestações com milhares de participantes exigiram respostas mais robustas do Estado frente ao crescimento dos feminicídios e à persistência de violência contra mulheres e meninas.
A legislação brasileira já contempla o feminicídio como crime qualificado desde 2015, com penas que variam conforme agravantes mas, mesmo diante de instrumentos legais robustos, a distância entre a letra da lei e sua efetividade na prevenção é nítida. A persistência do fenômeno alerta para a necessidade de ações preventivas, investimentos em proteção e uma política de enfrentamento com perspectiva de gênero que seja articulada com saúde, educação, segurança e assistência social.
Estes números não podem permanecer como mero registro estatístico. Eles exigem análise crítica, responsabilização institucional e políticas públicas que enfrentam a raiz estrutural da violência de gênero, que atravessa raça, classe e região no Brasil. Sem esse choque de prioridades, cada novo “recorde” permanecerá sendo apenas mais um dado frio em relatórios que chegam tarde demais para as vidas que se perderam.
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