Marrocos, no futebol como na geopolítica. Por Mariano Saravia.

Por Mariano Saravia.

“Voltem, vão para o campo, sejam homens, joguem e vençam”. Essa frase foi dita por “Pato” José Omar Pastoriza (técnico argentino) no túnel do estádio “La Boutique”, no bairro Jardín, aos oito jogadores de campo que restavam ao Independiente, após a expulsão de Trossero, Larrosa e Galván. E foi o que eles fizeram: voltaram, jogaram e, graças a uma obra de arte de Bochini, venceram a final do Nacional de 1977 contra o Talleres. Eles haviam sofrido várias injustiças, mas a forma de se rebelar era demonstrando isso no gramado verde.

Neste domingo, aconteceu algo semelhante na final da Copa Africana das Nações, disputada em Rabat, capital de Marrocos. Essa final foi disputada pelo time da casa, com o estádio lotado, contra o Senegal, que já havia denunciado várias circunstâncias adversas devido à má organização. Eles tiveram que viajar de trem desde Tânger, não havia segurança ao chegar à estação, tiveram que suportar a “pressão” dos torcedores marroquinos, também no hotel e até mesmo no aquecimento antes da final.

Mas, durante a partida, ocorreram mais “coisas estranhas”. Após jogar melhor durante todo o jogo, aos 94 minutos, um gol válido do Senegal foi anulado e, aos 98 minutos, foi marcado um pênalti inexistente contra o time. Foi aí que os nervos explodiram e os jogadores visitantes, incrédulos com as injustiças que estavam sofrendo, decidiram abandonar o campo, a pedido do técnico. Mas, 10 minutos depois, quem vestiu a camisa do “Pato” Pastoriza foi Sadio Mané, o capitão do Senegal, que convenceu seus companheiros de que era preciso voltar e continuar até o fim. E o final estava muito próximo, porque seria a execução do pênalti e nada mais, já não restava tempo. Mesmo assim, é sempre melhor perder em campo e não desistir, mesmo diante das injustiças.

Após mais e mais adiamentos, Brahim Díaz, artilheiro do campeonato e uma das estrelas de Marrocos, ficou frente a frente com Edouard Mendy, goleiro do Senegal. Díaz deu uma pequena corrida e, ao sinal do árbitro, deu um pequeno trote e chutou a bola. Mendy ficou parado e defendeu sem problemas. Um desfecho absolutamente inesperado, que consiste em duas partes. Por um lado, uma total irresponsabilidade do jogador de Marrocos. Uma falta de respeito aos seus companheiros, porque naquele pênalti eles jogavam pela glória, para serem campeões da África após 50 anos. Também uma falta de respeito aos seus rivais, por tudo o que havia acontecido, as discussões e o calor do momento. Se a bola tivesse entrado, teria sido um golaço, mas também teria sido interpretado como uma provocação ao outro time. E, por último, uma falta de respeito por si mesmo, que estava prestes a entrar para a história como um herói e ficará como um vilão.

Foram para a prorrogação e, logo no início, em um contra-ataque conduzido por Papé Gueyé, ele entrou na grande área e chutou com a esquerda com força, mandando a bola no ângulo. Um golaço que colocou as coisas em seu devido lugar, porque o Senegal havia jogado melhor que o Marrocos durante toda a partida. A partir daí, foi desespero para o time da casa, e o visitante controlou o ritmo, se defendeu bem e conseguiu aumentar o placar. Terminou a partida jogando com segurança, controlando a bola e no campo adversário.

Tudo estava pronto e preparado para que o estádio Príncipe Moulay Abdallah coroasse Marrocos, organizador da próxima Copa do Mundo de 2030 com a Espanha e Portugal. Estava até previsto que a taça fosse entregue pelo rei Mohamed VI, um déspota que governa com corrupção e repressão, mas que, por ser amigo dos Estados Unidos e de Israel, nunca recebe críticas dos governos ou da imprensa ocidentais.

O sportswashing é a estratégia de alguns Estados para limpar sua imagem por meio do esporte, principalmente do futebol. E Marrocos tem muita sujeira para limpar, sobretudo no que se refere à ocupação ilegal do Saara Ocidental. Trata-se de uma ex-colônia espanhola que, com a morte do ditador Francisco Franco, Madri simplesmente abandonou, sem concretizar um processo de descolonização como aconteceu em toda a África. Isso deu a Marrocos a possibilidade de invadir o território, rico em fosfatos e pesca. A ONU, em várias resoluções, deixou claro o direito à autodeterminação do povo saarauí, ordenando a realização de um referendo para decidir seu futuro, um referendo de autodeterminação que nunca foi aceito pelo ocupante marroquino.

Desde então, já se passaram 50 anos de ocupação, repressão e limpeza étnica, com o povo saarauí dividido entre os territórios ocupados e os campos de refugiados na Argélia, e uma luta armada pela sua independência. Na semana passada, sem ir mais longe, Marrocos impediu a entrada no território de uma delegação espanhola de defensores dos direitos humanos.

E esse comportamento na geopolítica, roubando a liberdade de outro povo, se transferiu para o futebol, querendo roubar também um título de campeão africano. Felizmente, a justiça poética prevaleceu e esse filme com tantas reviravoltas terminou bem. Houve até dois protagonistas exclusivos, como nos bons filmes: um vilão que estava prestes a ser coroado injustamente e um herói que salvou o senso de justiça.

O vilão foi Brahim Díaz, um grande jogador do Real Madrid, nascido em Málaga, filho de pai marroquino e mãe espanhola. Depois de flertar com a seleção espanhola, diante da falta de convocações para a seleção principal, ele foi para Marrocos. Ele exagerou sua decisão, alegando que o fazia por sangue e tradição, mas percebeu-se que o fazia por ressentimento quando disse que sem ele a Espanha não ganharia nada. Acabou sendo o contrário, confiar o pênalti decisivo a Díaz significou para Marrocos uma nova frustração. Ele foi o artilheiro do torneio, mas ter que subir ao palco para receber o prêmio naquele contexto parecia muito mais uma tortura do que um prêmio, a julgar pela sua cara.

Sadio Mané. Foto: Sportstar

O herói foi novamente Sadio Mané, o mesmo jogador que não compra carros de luxo nem mora em mansões porque doa seu dinheiro para construir escolas e hospitais no Senegal. Mané talvez não tenha sido o melhor jogador da final. Ele jogou bem, mas talvez Mendy, ao defender o pênalti, e Gueyé, com o golaço que marcou, tenham sido mais decisivos. No entanto, Mané foi o herói sem dúvida, porque sem sua intervenção, talvez estaríamos falando que Marrocos foi campeão pelo abandono do Senegal. Mas não, Mané se posicionou, mesmo contra seu técnico, Papa Bouna Thiaw, e obrigou seus companheiros a voltarem ao campo. Não se sabe ao certo o que ele disse em francês, mas certamente algo como: “Voltem, vão para o campo, sejam homens, joguem e vençam”.

Mariano Saravia é mestre em Relações Internacionais.

Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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