Como um advogado do macartismo moldou a “ética” política de Trump

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

Poucos personagens ajudam a compreender a trajetória política de Donald Trump tão claramente quanto Roy Marcus Cohn. Advogado célebre — e temido — da elite conservadora e sionista estadunidense do pós-guerra, Cohn não foi apenas um mentor jurídico de Trump nos anos 1970 e 1980. Como retratam os filmes O aprendiz (2024) e Cidadão Cohn (1992) e numerosa literatura, o advogado foi um instrutor moral às avessas, sem nenhum escrúpulo e responsável por transmitir uma visão instrumental do poder, da verdade e da lei.

O filme O aprendiz dramatiza essa relação formativa e sintetiza a herança de Cohn em três “regras” centrais, que ajudam a explicar não apenas o Trump empresário, mas sobretudo o Trump político e hoje, imperador diante do colapso dos Estados Unidos.

Quem foi Roy Cohn

Roy Cohn (1927–1986) ganhou notoriedade como braço direito do senador Joseph McCarthy durante a “caça às bruxas” anticomunista dos anos 1950. Especializou-se em intimidação legal, chantagem, difamação pública e uso estratégico da imprensa. Para Cohn, a lei não era um sistema de justiça, mas uma arma de guerra.

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Ethel e Julius Rosenberg em 1951. Ambos foram executados em 1953.

Julius e Ethel Rosenberg foram um casal estadunidense de origem judaica, moradores de Nova York, acusados de espionagem em favor da União Soviética durante o auge da Guerra Fria. Julius foi condenado por conspirar para repassar segredos nucleares; Ethel, embora não tenha sido comprovado que transmitiu informações, foi incriminada principalmente com base no testemunho do próprio irmão. Julgados em 1951 e executados em 1953, tornaram-se símbolo de um processo contaminado pelo macartismo. Nesse contexto, Roy Cohn teve responsabilidade direta e decisiva no julgamento: como jovem promotor, vangloriou-se após ter influenciado a escolha do juiz e de pressionar pela pena de morte, apesar das fragilidades probatórias — especialmente no caso de Ethel —, ajudando a transformar um julgamento político em espetáculo punitivo.

Roy Cohn (à esquerda) consultando o senador norte-americano Joseph McCarthy durante as audiências de McCarthy. Foto: Everett/Shutterstock.com

Após cair em desgraça em Washington, Cohn reinventou-se como advogado de empresários e figuras do submundo nova-iorquino. Foi nesse contexto que se tornou mentor de um jovem Donald Trump, então herdeiro do império imobiliário da família.

Os três conselhos de Roy Cohn — e como Trump os aplicou

1. “Ataque sempre, nunca se defenda”

No filme, Cohn ensina que a iniciativa agressiva paralisa o adversário. Defender-se implica aceitar o enquadramento do outro; atacar muda o terreno da disputa.

Trump aplicou essa regra sistematicamente:

  • Ao ser acusado de racismo por práticas discriminatórias no mercado imobiliário, Trump processou o Estado, em vez de responder às acusações.
  • Na política, reagiu a investigações e denúncias chamando-as de caça às bruxas e atacando juízes, jornalistas e promotores.
  • Transformou críticas em guerras pessoais, criando inimigos permanentes.

2. “Nunca admita nada, mesmo quando for verdade”

Para Cohn, admitir culpa equivale a perder poder. A verdade objetiva é irrelevante; o que importa é não conceder legitimidade ao acusador.

Trump elevou essa regra a princípio político:

  • Nega repetidamente declarações documentadas, vídeos e fatos públicos.
  • Jamais reconheceu a derrota eleitoral de 2020, apesar de dezenas de decisões judiciais contrárias.
  • Repete versões falsas até que se tornem bandeiras identitárias de seus apoiadores.

A repetição substitui a prova.

3. “Proclame vitória mesmo quando perder”

Segundo Cohn, quem controla a narrativa controla a realidade. Perder, desde que se declare vitória, é apenas um detalhe técnico.

Trump fez disso uma estratégia constante:

  • Declara vitórias em negociações inexistentes ou fracassadas.
  • Apresenta derrotas políticas como conspirações contra ele.
  • Após sair da Casa Branca, manteve-se como líder incontestável de seu movimento ao afirmar que fora “roubado”.
  • Governa narrativas, não resultados: quando os números falham, o slogan entra em cena.

  • Ao declarar vitória permanente, esvazia o próprio sentido de perder.

Da advocacia agressiva à política autoritária

Essa lógica não pertence ao passado nem se limita à formação pessoal de Trump: ela estrutura o trumpismo contemporâneo. A produção deliberada de conflito tornou-se rotina política — ataques preventivos a tribunais antes de decisões desfavoráveis, campanhas sistemáticas de deslegitimação eleitoral, uso calculado de mentiras factualmente demonstráveis e a transformação permanente da política em estado de exceção retórico. Cada crise é explorada como oportunidade; cada derrota, reembalada como fraude; cada limite institucional, tratado como conspiração. A doutrina do choque, aqui, não é apenas estilo, mas tática de sobrevivência e expansão: manter a sociedade em tensão contínua, fragmentar consensos mínimos e deslocar o debate público da esfera da responsabilidade para a da mobilização emocional. O resultado é um movimento que já não depende de resultados, leis ou fatos, mas de um fluxo incessante de choque simbólico — um poder que se alimenta do caos que produz e que, ao normalizá-lo, corrói deliberadamente as bases da democracia liberal.

Referências

ABBASI, Ali (Dir.). O aprendiz. Estados Unidos, 2024. Filme.

BRUNEY, Gabrielle; Roy Cohn Condemned the Rosenbergs as Soviet Spies. Their Granddaughter Just Made a Film About Him. Esquire, 12 jun 2020. Disponível em:
https://www.esquire.com/entertainment/movies/a32894716/roy-cohn-bully-coward-victim-documentary-julius-ethel-rosenberg-true-story/

COHN, Roy. Roy Cohn on Divorce: Words to the Wise and the Not So Wise. New York: Stein and Day, 1976.

KRAUSE, Allen M. McCarthyism: The Great American Red Scare. New York: Oxford University Press, 1997.

STOCKMAN, David. Trumped: A Nation on the Brink of Ruin. Laissez Faire Books, 2016.

STONE, Roger. The Making of the President 2016. New York: Skyhorse Publishing, 2017.

RADOSH, Ronald; MILTON, Joyce. The Rosenberg File: A Search for the Truth. Henry Holt & Co, 1983.

ROBERTS, Sam. The Brother: The Untold Story of the Rosenberg Case. New York: Random House, 2001.

BRUNEY, Gabrielle; Roy Cohn Condemned the Rosenbergs as Soviet Spies. Their Granddaughter Just Made a Film About Him. Esquire, 12 jun 2020. Disponível em:
https://www.esquire.com/entertainment/movies/a32894716/roy-cohn-bully-coward-victim-documentary-julius-ethel-rosenberg-true-story/

FBI RECORDS. The Rosenberg Case: Declassified Documents. Washington, D.C. Disponível em: https://vault.fbi.gov/rosenberg-case.


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